A trilogia dos “Poetas Portugueses” ainda só vai a meio e Vicente Alves de Ó avança de cabeça para um projeto à parte: "Quero-te Tanto!"

Nada contra tais feitos, a produção chega a ser uma virtude nestes dias no panorama nacional, mas convém afirmar que o realizador dos anteriores “Al Berto” e “Florbela” passa do academismo cinematográfico para o formato televisivo disfarçado de cinema.

Isto tornou-se, ironicamente, numa tradição da nossa não-formada indústria fílmica: a dependência da linguagem de pequeno ecrã e essa transição para as salas de projeção é uma manobra de longa data, mais concretamente do início deste século, impulsionado com o sucesso gigantesto de “O Crime do Padre Amaro” em 2005.

A longa-metragem livremente baseada na obra de Eça de Queiroz era um protótipo televisivo que encontrou lugar no grande ecrã pela conformidade da sua linguagem narrativa no espectador, que por sua vez testemunhava no conforto da sua casa a um “boom” da ficção nacional, que passava por séries, "sitcoms" e, claramente, telenovelas. Reconhece-se também que as promessas de nudez (cumpridas, aliás) de Soraia Chaves também influenciaram no êxito da fita.

Depois da sua passagem “triunfal” nos cinemas, “O Crime...” foi transmitido no seu habitat natural e em formato de série. Como? Porque o projeto inicialmente era esse, um seriado, que apenas com alguns cortes e costura se transformou, enganosamente, num “filme”.

Muitos seguiram esse registo e processo de criação, como “Bairro”, “Amália” e a trilogia dos clássicos modernizados assinada por Leonel Vieira e a sua trupe, "O Pátio das Cantigas ", "O Leão da Estrela" e "A Canção de Lisboa", que ainda hoje conquistam o primeiro do pódio de “filmes nacionais mais vistos”. É um método de "dois-em-um", em termos de recursos e com rentabilidades de vários ramos, que só vem fortalecer uma relação de comensalismo entre os dois universos, televisivo e cinematográfico.

“Quero-te Tanto!”, este novo trabalho de Alves de Ó, não passa disso, um frango de aviário que se faz passar por galinha de campo.

É uma fantasia que aspira reproduzir modelos americanos, mas acaba por citar o dialeto da TV(I) em toda a sua compostura. Desde a narrativa quase fragmentada a "sketches" de um humor básico e condescendente que nem para caricatura servem, a uma planificação que cruza o academismo e o somente pindérico. E, por fim, o vasto leque de atores e atrizes (Benedita Pereira, Pedro Teixeira...), que não são mais do que caras reconhecíveis desse “mundinho” dos canais generalistas.

Mas “Quero-te Tanto!” não será o último exemplar desta linhagem, é somente a mais recente visualização de um interminável ciclo vicioso que é encarar a ideia de cinema comercial nacional de sucesso com aquilo que se pratica no pequeno ecrã. Sim, funcionam para mercado interno, porque, nestes termos, não existem aqui argumentos para além-fronteiras.

Só para terminar, e visto que vivemos numa atualidade que pretende exorcizar os grandes "pecados cinematográficos", nomeadamente a questão da representabilidade, penso que merecemos uma explicação: porque é que, em pleno 2019, ainda temos a Alexandra Lencastre a interpretar uma vidente chinesa chamada Ping Pong?

"No comments!"

"Quero-te Tanto!": nos cinemas a 18 de abril.

Crítica: Hugo Gomes

Trailer:

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