A HISTÓRIA: A ascensão e queda do icónico imperador francês Napoleão Bonaparte, da implacável subida ao poder através da viciante e volátil relação com o seu único e verdadeiro amor, Josephine, enquanto expõe a sua visão militar e as suas táticas políticas.

"Napoleão": nos cinemas a partir de 23 de novembro.


Crítica: Francisco Quintas

Quantos livros foram escritos sobre Napoleão Bonaparte? Quantos filmes feitos, quantas teses académicas defendidas? Por quantas vezes a contextualização da História contemporânea, na Europa e no Mundo, remontou à influência da Revolução Francesa? Dirão os especialistas que existe um “antes” e um “depois” de Napoleão. Como tal, mais difícil do que resumir o portefólio inspirado por esta figura maior – “larger than life” –, será pensar numa justificação criativa para se debruçar sobre ela mais uma vez.

Não muito diferente dos ângulos revigorantes que o inglês Christopher Nolan reuniu, este ano, para contar a história de J. Robert Oppenheimer, o conterrâneo Ridley Scott procurou desviar-se dos modelos de biografia histórica, que muito bem conhece, para expressar a sua visão de Napoleão. Ou deste Napoleão.

De novo com um guião de David Scarpa, após colaborarem em “Todo o Dinheiro do Mundo” (2017), Scott reafirma-se sólido em campos áridos, nevados e lamacentos, como os que pisou em “Gladiador” (2000) e “Reino dos Céus” (2005).

Para variar, a reconstrução de uma França a espreitar o século XIX, país de conspirações burguesas e militares, contempla pomposidade e elegância, próxima da atmosfera de “O Duelo” (1977), a primeira longa-metragem do realizador. Já a instabilidade sociopolítica do seu tempo traz à memória “O Último Duelo” (2021), outra história da França medieval que Scott confinou a um drama de intriga e tribunal, em espaços interiores sufocantes, na iminência de um clímax de extrema agonia e violência.

Serve isto para dizer que “Napoleão” é um dos trabalhos mais bem calculados de Scott, uma vez beneficiando de uma listagem de prioridades cada vez mais clara. Somos brindados, como expectado, com épicos e sangrentos campos de batalha, capturados pela lente apática de Dariusz Wolski e embalados pela música funesta de Martin Phipps, o que ressuscita um sentimento trágico e inglório sobre a natureza da guerra, que se havia esquecido na sua filmografia e se sobrepõem ao espetáculo audiovisual.

Não seria esta, contudo, uma obra de Scott se não priorizasse uma fortíssima personagem feminina. Fica clara a ambição ao fazer da relação visceral de “Napoleão” aquela que manteve o protagonista com Joséphine de Beauharnais, a quem coroou imperatriz.

E mesmo que todos os elementos de uma grandiosa produção de Hollywood estejam presentes – financiados, ironicamente, por um serviço de streaming –, além da presença magnânima de um ator como Joaquin Phoenix, Scott optou por resumir as grandes questões da sua personagem principal ao seu canto, ao seu círculo social, à sua mesa, à sua cama, à sua solitude e à sua miséria pessoal.

Em conjunto com momentos de grande sentido de humor, a vaidade e megalomania de Napoleão são suavizadas e abafadas por um lado vulnerável, mesquinho, birrento, quase tolo, fruto de uma obsessão imediata e irremediável por Joséphine.

A leitura das cartas, a pressa em regressar, a politização dos costumes e do sexo, o confronto, o ciúme, o desencantamento... Scott recorre a cada veículo para nos lembrar que assistimos a uma história sobre um casal, um homem e uma mulher desde o início num jogo perigoso de mútua dependência.

A par dos elogios fáceis a Phoenix, as cenas mais marcantes vêm de Vanessa Kirby, atriz com uma habilidade excecional de não se permitir descortinar, dotada de um olhar do veneno mais penetrante e do afeto mais profundo.

Em contraste com o holofote sobre o casal principal, é comum personagens secundárias entrarem e saírem de cena com menor cuidado, nomeadamente o Duque de Wellington (Rupert Everett) ou o Czar Alexandre I (Édouard Philipponnat). Serve de ponte para outro erro comum de Hollywood: um descompromisso com o idioma falado. Scott bem que poderia facilitar a vida e reger-se pelo inglês de todos os dias, somente pedindo emprestados pedaços musicais franceses e vistosos letreiros dos ideais napoleónicos, mas não resiste a exclamar, pela boca de figurantes e não só, “En garde” ou “Vive la France!”.

Tamanhos pormenores podem não estar distantes de um comentário que Scott poderá fazer sobre um sistema de classes inflexível e os seus nacionalismos, que omitem, assim, os princípios revolucionários antimonárquicos com que começou. Não seria novo na sua carreira de décadas que provocasse um espelho com França ou a Europa atuais.

Seria, no entanto, um desvio pensar desta maneira, pois não é essa a história a ser contada aqui. Antes a associação de todas as ascensões e quedas de um homem, um estratega militar brilhante e ambicioso, ao feroz relacionamento que mantinha com uma mulher. Sobre esse prisma, podemos dizer que Napoleão Bonaparte não terá sido um homem muito mais singular que o próximo.

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