Quase dez anos depois, Tahita Bulmer e Andy Spence voltam ao princípio. Ou seja, a um projeto a dois iniciado em 2004 que tomaria a forma de quinteto antes de chegar ao primeiro álbum - "Fantastic Playroom" (2007), estreia viçosa nascida do lado mais festivo do pós-punk, devidamente atualizado com reforço eletrónico. Se por alturas do segundo disco - o mais turvo "The Optimist" (2010) - uma fase conturbada levou à desistência do baixista e quase motivou o fim da banda, a passagem dos anos não facilitou as coisas. NYPC, agora o nome do projeto e também do terceiro álbum, é uma prova de resistência de dois sobreviventes da nu rave, suposto movimento que terminou antes de verdadeiramente arrancar e tentou aproximar o universo indie da pista de dança.

Apesar de derivarem sobretudo dos inícios dos anos 1980 (escola Delta 5 ou B-52's), os New Young Pony Club foram associados a uma tendência inspirada pela década seguinte e, por isso, pagam agora a fatura de uma euforia sazonal remetida ao esquecimento (que é feito dos "revolucionários" Klaxons? Pois...). Quando o "quem é quem" mais badalado da nova eletrónica londrina passa pela revisão deep house, R&B, garage ou derivações dubstep, a new wave para o novo milénio dos NYPC arrisca-se a cair numa terra de ninguém. É pena, porque embora com condimentos diferentes, este duo ele (produtor, multi-instrumentista) & ela (voz) não fica a dever muito aos mais frescos AlunaGeorge, cuja estreia tem reclamado outro tipo de atenções.

Videoclip de "Hard Knocks":

Longe da excitação jovial de "Fantastic Playroom", "NYPC" é um regresso contido, que substitui a profusão de elementos por uma simplificação por vezes minimal. "Hard Knocks", single saltitante, até engana, embora se perceba que seja a primeira faixa do disco, com uma familiaridade a ajudar a transição entre os New Young Pony Club e os NYPC. Alguns momentos de "The Optimist" já eram mais sombrios e o processo completa-se em canções como "Play Hard" ou "Overtime", crónicas de relações amorosas a milhas dos seus melhores dias.

Numa altura marcada por tanta indietronica, boa parte tão genérica como tecnicamente competente, "NYPC" ainda consegue definir um espaço seu, mesmo não sendo tão convidativo como os seus antecessores - pelo menos não de forma tão imediata. "You Used to Be a Man" ou "Now I'm Your Gun", quase esqueléticas, podem não ter a pujança pop de "The Bomb" ou "Hiding on the Staircase" mas são, na sua frieza maquinal, boas pistas a explorar num recomeço com margem para crescer.

A voz lânguida e distante de Tahita Bulmer molda-se talvez ainda melhor a este tipo de ambientes e as letras, quase sempre longe de lamentos ou recriminações óbvias, também contribuem para que estas canções não se esgotem ao primeiro contacto. Andy Spence complementa a vocalista ao cantar em "Things You Like", o tema mais radiofónico e convencional, e compõe-lhe cenários como a aproximação tech house de "Everything Is" (com direito a um belo remate expansivo depois de um desenvolvimento metronómico), o compasso ondulante de "Sure as the Sun" (venha ele para próximo single, sff) ou as viragens sinuosas da menos dançável "I Came Through for You" (a grande canção do disco, assombro de eletrónica negra que os Garbage gostariam de ainda conseguir fazer). Com variações destas, por onde parece passar a herança vintage de Gary Numan (conferir nos teclados) e a pop pós-The xx (com a exuberância a caminho do silêncio), este clube ainda tem argumentos para ir mantendo - e adicionando - mais alguns sócios...

@Gonçalo Sá

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