Palco Principal - Em 2001 é lançado o seu primeiro registo a solo, “Prototypus”. Oito anos depois, em Maio de 2009, é editado – novamente em edição de autor – “Mandjólò”. Quando estará essa obra disponível para venda nas lojas nacionais?

Costa Neto - Como edição de autor que é, “Mandjólò” ainda está a ver ser negociada a sua distribuição, logo não posso precisar a data em que chegará às lojas. Contudo, é possível que tal aconteça brevemente, talvez num prazo de um mês.

PP- A ser distribuído durante o próximo mês, sê-lo-ia em Portugal, onde reside actualmente, e em Moçambique – o país que o viu nascer?

CN - Na realidade, através de esforços próprios, já fiz chegar a obra a Moçambique. Em Portugal ela também já existe, apesar de ainda não ter chegado ao circuito comercial. Ao editá-la, sinto que cumpri a minha responsabilidade como cantor, como músico, tal como um pintor cumpre a sua, quando termina o trabalho de pintura. Uma vez editada, a minha responsabilidade dá vez ao interesse dos outros em promovê-la e divulgá-la. Não posso ser eu a «correr» atrás dos comerciantes. Pelo contrário, se eles acharem que o meu trabalho é digno de ser distribuído num circuito comercial, eles mesmos «correrão» atrás dela e então decidirão onde e como a divulgar. Contudo, todas estas questões de foro comercial são secundárias para mim, uma vez que estou no mundo da música por razões, única e exclusivamente, culturais.

PP - Não o preocupa, então, o potencial de venda de “Mandjólò”?

CN - De todo. Com “Mandjólò” pretendo, essencialmente, à semelhança do que já havia tentado com “Prototypus”, evocar e divulgar a música e a cultura moçambicana em geral, lutando para que estas duas não se dissociem – uma tendência infeliz cada vez mais comum nos dias de hoje, protagonizada por vários artistas, cujas motivações residem, fundamentalmente, nas vendas.

PP - Na sua opinião, tem sido, então, o potencial de venda de um álbum inversamente proporcional à sua fidelidade para com a cultura, neste caso, a africana?

CN - Em certa medida, tem sido. Actualmente, a criação de um novo disco é regida, essencialmente, por um único critério: o seu potencial de venda…mesmo tendo em conta que a maximização desse mesmo potencial deturpe, por vezes, a realidade da cultura africana. A meu ver, trata-se dum problema gravíssimo da música africana. Senão vejamos: 500 anos depois do relacionamento entre Portugal e os PALOPS, pouco ainda se sabe em Portugal acerca da verdadeira história e cultura dos povos africanos. Isto porque, são poucos os temas musicais que chegam a Portugal que a retratam, na sua essência. A maioria dos álbuns entrega-se à futilidade do vendível e desleixa o que, a meu ver, seria primordial, ou seja, ser espelho de toda uma cultura.

PP - Na sua opinião, a música deveria ter, então, uma função cívica?

CN - Exactamente. E isso não tem vindo a acontecer.

PP - Considera-se um lutador no meio duma «corrente» que segue no sentido oposto ao seu?

CN - Pode dizer-se que sim.

PP - Tendências à parte, há alguma sonoridade, algum estilo musical moçambicano que sofra especial destaque em “Mandjólò”?

CN - Inspirado, fundamentalmente, nos ritmos tradicionais de Moçambique, o disco acumula em si mesmo uma grande diversidade rítmica, não fosse o resultado de muita pesquisa e dedicação. Na verdade, é um exemplo do casamento entre a música moçambicana tradicional, étnica, de raiz, criada com instrumentos tradicionalmente africanos; e a música moçambicana dita mais urbana, elaborada com instrumentos mais convencionais, como a guitarra.

PP - Que língua predomina no álbum?

CN - A língua predominante é o ronga – a língua originalmente falada na província de Maputo -, apesar do álbum também conter algumas composições em português.

PP - O que motivou essa opção?

CN - Escolhi o ronga como língua predominante, pois é o idioma que espelha a minha origem. Note-se que o ronga tem duas ramificações – o ronga «xindindindi», típico da zona interior do país, onde fui criado (que sofre uma entoação mais profunda, que é dono de um sotaque muito próprio, bem como de uma série de especificidades singulares); e outra, falada na capital, mais comum. Eu utilizo as duas, até porque, sendo o ronga mais profundo o falado na vila de Matutuine – a vila que dá vida ao álbum -, nem teria como não usá-lo.

PP - A predominância, no álbum, da língua praticada na sua terra-natal, e a própria escolha do título do CD, que, como disse, a representa em pleno, fazem de “Mandjólò” uma obra saudosista, através da qual enaltece e, até mesmo, regressa às suas origens?

CN - Eu não diria que “Mandjólò” seja um “regresso às minhas origens”, pois considero que nunca me afastei, realmente, delas, não obstante os anos decorridos desde que resido em Portugal. Tão pouco, um meio para as enaltecer. Será antes um meio que as permitirá preservar, que conferir-lhes-á alguma visibilidade, que assegurará a sua continuidade no mundo actual.

PP - Não existe em “Mandjólò”, porém, nenhuma mensagem mais concreta que gostasse de passar, além da transmissão de algumas experiências culturais da sua terra natal?

CN - Em “Mandjólò” é, também, realizada uma espécie de intervenção social. No entanto, não me limito a apontar os aspectos negativos. Insisto, igualmente, em realçar uma mensagem de esperança. Isto é, critico o que há de nocivo, mas também aplaudo o que de bom acontece socialmente.

PP - Essa intervenção social poderá ser detectada na música “Mandjólò”, música, aliás, que dá nome ao álbum?

CN - A música refere-se a uma peregrinação anual das populações de várias localidades de Matutuine para a vila sede do respectivo distrito, que tem o nome oficial de Bela Vista, mas cujo nome tradicional – que, até à data desta canção, era praticamente desconhecido da população moçambicana, à excepção dos próprios residentes – é, precisamente, Mandjólò. Deste modo, mais do que evidenciar uma intervenção social, este tema intervém socialmente, na medida em que, ao relatar vários aspectos da peregrinação, ao destacar vários locais por ela abrangidos, entre outros costumes, designações e tradições, reaviva a memória de muitos que por lá já passaram e ensina outros tantos, que ainda não tiveram essa oportunidade.

PP - Cumpre, assim, na perfeição o objectivo traçado por Costa Neto para este registo discográfico…

CN - Sim, efectivamente. Senão vejamos. O idioma do tema em causa – o tal ronga«xindindindi» -, presente, praticamente pela primeira vez, num trabalho discográfico, passou a ser ouvido com regularidade nas rádios e, consequentemente, fomentado entre a população moçambicana. A auto-estima da população residente no distrito – uma população que, à semelhança do povo alentejano (se fizer um paralelo entre Moçambique e Portugal), sempre foi alvo de «chacota» e preconceitos, também aumentou.

PP - O que, em tempos, era complexo, virou orgulho?

CN - Exacto. Lembro-me, inclusive, de ouvir histórias de habitantes de Mandjóló que, em tempos, atravessavam de barco para a capital de Maputo e que, chegados ao destino, realizavam um esforço imenso para pronunciar o ronga tal como se pronunciava em Maputo, de forma a não ser detectada a sua origem. Graças à popularidade dessa canção, o oposto tem vindo a acontecer. Hoje em dia, sinto que as pessoas têm mais orgulho nelas próprias, no seu idioma e nas sua origens. E, como pode imaginar, não há dinheiro que pague isso.

PP - Contudo, não vê o facto do idioma da música ser o ronga profundo, como um entrave à internacionalização do disco? Isto é, não receia que o povo português, por exemplo, ao não compreender a letra do tema, acabe por não criar com ele os laços esperados?

CN - Compreendo essa relação causa e efeito, no entanto, não a posso recear, pois ao utilizar o ronga estou a defender algo que é património do mundo, algo que enriquece a humanidade, algo de todos nós. Trata-se de um idioma em risco de extinção, que merece, tal como todos os outros na mesma situação, ser preservado, em nome da diversidade.

PP - Até porque os laços poderão ser criados, igualmente, através da componente instrumental…

CN - Claro. E a componente instrumental do álbum prima pela diferença, se comparada ao habitualmente ouvido no circuito musical português. Se, nos países mais desenvolvidos da Europa, já se assiste a um movimento de descoberta e exploração de diferentes ritmos e sonoridades, que não as triviais, em Portugal e nos restantes países lusófonos ainda caminhamos no sentido inverso: repetimo-nos constantemente, não inovamos o suficiente, não tomamos grandes riscos, optando pelo padrão, pelo seguro, pelo já existente.

PP - Não partilha, então, a opinião de que esta tendência para o «mimetismo sonoro» se começa a inverter em Portugal? Não concorda que, nos últimos anos, os músicos lusófonos têm arriscado em novas sonoridades, novas formas de expressão?

CN - É verdade que muita coisa está a mudar. Os músicos começam a querer explorar outros ritmos e os próprios ouvintes começam a evidenciar uma maior abertura a novas sonoridades. O “Prototypus”, por exemplo, quando foi lançado, só encontrou eco em pessoas ligadas à música profissionalmente. Só essas pessoas aplaudiram a ideia, o conceito do disco. Hoje, com “Mandjólò”, sinto outra aceitação, uma maior curiosidade em ouvir, em perceber o álbum. Contudo, toda esta mudança de mentalidade me assusta um pouco, pois, enquanto há pessoas que mostram abertura à diferença porque é essa a sua convicção, há sempre aquelas que o farão porque essa predisposição está a encontrar eco na população, está a ser bem-sucedida, está – digamos – na moda. E aí, a mensagem que passa é uma mensagem deturpada, sem significado.

PP - Contou com a colaboração de alguém na elaboração do álbum?

CN - A nível musical, contei com a colaboração de alguns músicos, meus amigos. Porém, entre os músicos que participaram, não houve nenhum que o fizesse por questões meramente profissionais. Na verdade, fiz questão que todas as colaborações, incluindo técnicos de grafismo, etc., partilhassem o mesmo objectivo que eu, que abraçassem o projecto com o mesma propósito, com a mesma garra, contribuindo para ele física, mas também espiritualmente. Entre as participações, posso destacar a de Sara Tavares, no tema Namoro Sem Fim; a de Eneida Marta, uma das grandes representantes da música da Guiné Bissau; e a de Vânia, da girls band Delirium. Cada uma deu o seu contributo para uma causa maior.

PP - O registo foi gravado em Portugal?

CN - O registo foi gravado, na sua maioria, no meu estúdio pessoal, em Portugal. Contudo, certas partes do álbum foram gravadas em estúdios de amigos, como é o caso do estúdio pessoal do Zé Barros (Navegantes), ou do estúdio de Paulo Vilares (Netinhos da Avó). A masterização, por sua vez, esteve a cargo do técnico João Magalhães.

PP - Vive em Portugal desde 1988. O que originou a sua emigração para este país? Portugal oferecia-lhe oportunidades a nível musical, que Moçambique não podia oferecer?

CN - Nunca tive ilusões em relação à música, nem ao que ela me poderia vir a oferecer em termos monetários. Se assim fosse, teria optado, ao longo da minha carreira, por outro tipo de trabalho. A minha vinda para Portugal prendeu-se, essencialmente, com a minha necessidade de manifestar uma discórdia com o panorama social moçambicano da altura, nomeadamente, com a guerra entre irmãos que se fazia sentir. Sair de lá foi a forma mais pacífica de mostrar o meu desagrado. Já a escolha do país prendeu-se com o facto de me identificar culturalmente com Portugal. A cultura portuguesa e a moçambicana estão cruzadas, apesar dos complexos que ainda as dividem. É impossível passar por Portugal e não sentir um pouco de África, tal como é impossível o inverso. Cá sinto-me em casa, até porque – convém não esquecer - que, quase com os meus 50 anos, nasci oficialmente português em África.

PP - Como o Costa Neto, muitos outros artistas africanos se «refugiaram» em Portugal, para cá darem continuidade à sua carreira artística. Hoje em dia, alguns dos mais conceituados músicos angolanos e cabo-verdianos encontram-se, inclusive, a residir cá ou em constante passagem pelo país, onde já reúnem uma quantidade considerável de fãs. Acontece o mesmo com a música moçambicana?

CN - Comparativamente à música angolana ou cabo-verdiana, a música moçambicana é ainda muito desconhecida por Portugal – um cenário causado, essencialmente, por dois factores. Um deles é o facto de esta ser menos divulgada. Os músicos moçambicanos são pouco promovidos, muito pouco apoiados pelas entidades do próprio país. A música é um produto caro e existe em grande quantidade no mundo, porque existem entidades e empresas que nela investem. Esse investimento ainda não é, contudo, uma realidade em Moçambique. O outro factor responsável pela fraca propagação da música moçambicana em Portugal é o facto de Moçambique ter uma comunidade muito pequena em Portugal, comparativamente às outras ex-colónias. Note-se que o povo de lá tem tendência em emigrar para a África do Sul.

PP - Como referiu, “Mandólò” está a ser recebido com uma “abertura” e aceitação que “Prototypus” não conquistou, aquando do seu lançamento. Esta disposição reflecte-se no número de propostas que tem tido para actuações?

CN - Apesar de já ter tido algumas propostas, ainda não tenho nenhuma actuação confirmada, pois, com esta corrida imposta pela gravação do disco e pela viagem a Moçambique, não tive o tempo necessário para ensaiar e reunir com os músicos participantes no registo. Contudo, posso adiantar que estão a ser feitos esforços para que se torne possível realizar um concerto em Moçambique, inserido na festa retratada em “Mandjólò”. A acontecer, será a primeira vez que essa festa será abrilhantada por um espectáculo ao vivo, o que, para mim, seria o reconhecimento do êxito do meu trabalho.

Ouça aqui, durante o período de um mês, todas as músicas de “Mandjólò”, amavelmente disponibilizadas por Costa Neto, em exclusivo, para o Palco Principal.

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