Nem chuva nem os Tindersticks. Num dia que contava com Aurea, Cranberries e Mika no cartaz, era – arriscamos dizer – totalmente imprescindível a presença da banda de Stuart Staples no alinhamento. Poupavam-se uns trocos na requisição do grupo britânico, que poderiam ter-se revelado bem úteis na criação de mais espaços cobertos (a tenda que acolhia o palco secundário era, naturalmente, insuficiente para albergar cerca de 22 mil pessoas molhadas). Sim, porque, em questões que ao S. Pedro dizem respeito, nada se pode dar como adquirido. Será que os senhores da PEV Entertainment nunca ouviram dizer que mais vale prevenir do que remediar?

Mas deixemos as questões logísticas de parte e regressemos ao concerto dos Tindersticks. Deduzir, destas palavras, que foi mau, é um erro. Como poderia ter sido? Com mais 20 anos de carreira, Stuart Staples e companhia já têm a lição bem estudada. Preferimos dizer que foi desajustado: desajustado às expectativas dos festivaleiros, que procuram, nestas iniciativas, usar e abusar da dança, dos saltos, dos encontrões, da euforia das músicas orelhudas. E das hormonas e do álcool, como não poderia deixar de ser.

Como se uma atuação do grupo britânico já não fosse, por natureza, deprimente qb, com melodias melancólicas e letras fatalistas em fartura, a chuva que se intensificou, em plena sintonia com o «espírito tinderstickiano», durante a sua performance, bem como a fraca iluminação que suportou todo o concerto (o único sem direito a transmissão nos ecrãs gigantes ao lado do palco) fez este espetáculo conquistar a medalha de ouro na categoria de O Mais Depressivo na história dos festivais portugueses.

Staples ainda tentou contornar a fatalidade, repescando os temas mais garridos do colectivo e apostando numa ou outra ironia (“Vá a Portugal, a terra do sol” foi, sem dúvida, a mais frutuosa) mas nem por isso foi bem-sucedido na tarefa de animar as hostes. Sorte a dele, o público não tinha muito por onde fugir, permanecendo abatido, em frente ao palco, resignado às demandas do S. Pedro e da Pev Entertainment.

A chuva não deu tréguas e marcou, também, presença no concerto dos Cranberries. Muito aguardados pelo público português, não tivessem sido, durante os anos 90, uma máquina de êxitos inquestionáveis, apresentaram-se em modo best-of com Dolores O’Riordan, igual a si mesma, a debitar, num registo morno e sem surpresas, temas como Analyse (logo a abrir), Animal Instinct, Linger e Ode to My Family (sem interrupções, para júbilo dos presentes), Just My Imagination (interpretada às escuras – cortesia das interferências da chuva?), Salvation (em modo Jamiroquai, com penas de índio na cabeça), Zombie (cantada em perfeita comunhão com a assistência) e, já no encore, Promises e Dreams.

Os anos parecem não ter passado pela vocalista dos Cranberries. A sua voz, irrepreensível, continua a albergar a doçura dos 20 e poucos, sem acusar vestígios de seis anos de hiato, dedicados a uma carreira a solo. O olhar – um dos mais sinceros que a indústria discográfica já conheceu – alia-se a uma postura discreta, com ligeiros toques de extroversão já mais para o fim da performance como que “Agora que me estava a divertir à séria é que isto tem de acabar?" E tinha mesmo, para desagrado que todos que já bem embalados iam naquela que mais parecia uma mega sessão de karaoke ao ar livre.

Foram poucos os que se afastaram do palco principal durante os 40 minutos que antecederam o espetáculo de Mika. Todos queriam garantir um «lugar ao sol» debaixo de chuva para assistir à atuação do libanês, famosa qb. pelos cenários aparatosos e teatralidade óbvia que costuma incorporar. Telas antigas, roubadas ao século XVIII, e um robusto candelabro de cristais, colocado bem junto de um excêntrico piano, aguçavam a curiosidade do público que, por esta altura, num dia com quatro concertos no palco principal, já se debatia com pernas e pés, que lhe gritavamalertas de fadiga.

Ainda assim, todos deixaram a fadiga de lado quando entra em palco Mika e colegas, trajados a rigor, quais aristocratas em dia de festa, e atiram, logo ao primeiro fôlego, Relax, Take it Easy. Mas a plateia, com o modo histeria já on, já tinha relaxado o suficiente.
Seguiram-se Big Girl (You Are Beautiful), Stuck in The Middle e Dr. John, com Mika a subir sorrateiramente para cima do piano, e a pequenada da primeira fila – também ela devidamente vestida para a festa – a suspirar, rendida ao charme do anfitrião.

Mika sabe como conquistar uma plateia. Rasga o sorriso, arrisca umas palavras de incentivo em português (que vão muito além dos usuais boa noite e obrigado), exibe os seus agudos – e que agudos! - e pula sempre que pode. O melhor? Diverte-se, genuinamente, a fazê-lo. E a sua banda acompanha-o, aparentemente feliz, numa viagem musical típica de contos de fada.

Já depois das 02h00, logo após um suicídio em palco, reacende a chama do concerto (entretanto apagada por um vento furioso, que se lembrou de vir substituir a chuva, já cansada) com We Are Golden, Grace Kelly, Elle Me Dit e Lollipop – as quatro de enfiada, vibrantes, não fosse a animação no recinto esmorecer de vez.

Antes, num alinhamento muito semelhante ao levado ao festival Sudoeste no ano passado, havia piscado o olho à tribalesca Blue Eyes, a Billy Brown, Rain (irónico, não?), Blame it on the Girls (com direito a introdução de luxo), Happy Ending, Kick-ass e à sexy Love Today.

Sexy esteve também Aurea, que protagonizou o primeiro concerto da noite no palco principal. Começou com o recinto pela metade e acabou com ele quase cheio. Podiam muitos não conhecer o trabalho da mais recente revelação feminina da música nacional – algo difícil, na medida em que os seus singles não podiam ter conhecido maior airplay nos últimos tempos – mas, sejamos francos, uma loiraça de saia travada e top elegante não é mais do que suficiente para ir dar um pezinho de dança lá à frente?

Com um único trabalho em apresentação, além de duas versões (Kiss, de Prince, que lhe assenta como uma luva, e Don’t Ya Say It, de Bryan Adams), Aurea conseguiu, descalça, em cima de uma carpete vermelha e por entre candeeiros espalhados pelo palco, convencer a maioria. Arrancou com a impetuosa The Main Things About Me e, ao quarto tema, lançou o trunfo Busy (For Me),o primeiro single do seu disco, cantado em uníssono por centenas e repetido no final da atuação, em jeito de despedida. No No No No (I Don’t Fall In Love With You Baby) levou a assistência ao rubro e evidenciou uma Aurea comunicativa, amistosa, esforçada em criar laços com o público, que se apercebia, assustado, da chegava da chuva ao Cabedelo.

Destaque ainda, neste concerto, para as sensuais coreografias do saxofonista e trompetista, ao bom estilo dos clubes de jazz de New Orleans, imitadas com mestria pelos presentes.

Passaram pelo palco secundário, neste último dia de festival, Mia Rose, que dedicou os seus 30 minutos em palco maioritariamente à interpretação de versões de temas de Rui Veloso, Maroon 5 ou Cee Lo Green; e os Azeitonas – “os artistas do outro lado do rio”, como fazem questão de frisar logo ao início – que contaram com casa cheia para ouvir canções como Quem és tu Miúda, Nos Desenhos Animados e Anda Comigo ver os Aviões.

O Marés Vivas regressa para o ano, nos dias 19, 20 e 21 de Julho, quem sabe noutro local e com um dia extra – “se conseguirmos um cabeça de cartaz de primeiro plano, como aconteceu com o Optimus Alive este ano, e se continuarmos a contar com o patrocínio da tmn”, adiantou, de guitarra em punho, o vice-presidente da Câmara Municipal de Gaia, Firmino Pereira. Então, até lá!

Texto: Sara Novais c/ José Aguiar

Fotografias: brevemente

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