Depois de anos e anos a arranhar guitarras e a levar o rock mais além, ao serviço dos Sonic Youth, Lee Ranaldo não parece disposto a abrandar e, desde 2011, ano fatídico para os nova-iorquinos e para os milhares de fãs que por esse mundo fora ainda choram o fim da união de Gordon/Moore e a ruína de uma banda que revitalizou e quebrou todas as regras de como fazer Rock, são já três os registos que nos chegam da parte de Ranaldo, ora com assinatura a solo - "Between the Times and Tides" -, ora na mais recente encarnação, Lee Ranaldo & The Dust - "Last Night on Earth" e "Acoustic Dust". Três discos plenos de flirts com a pop, com melodias cantáveis e uma folk elétrica que Neil Young não desdenharia ter por sua.

Inserido nas comemorações dos 20 anos da ZDB, este concerto na igreja de St. George, na Estrela, atípico por natureza, em muito diferiu daquilo que esperamos das atuações do homem que desde há muito tempo é indissociável de palavras como distorção ou feedback. Sozinho e em formato completamente acústico, o nova iorquino iniciou em Lisboa a tour de promoção do recente "Acoustic Dust", editado pela El Segell de Primavera, parceira do festival Primavera Sound, e fez da noite do último sábado uma daquelas que não se vão esquecer tão cedo.

Foi à meia luz e ao som de uma Tomorrow Never Comes mergulhada em reverb que o americano se apresentou, logo seguindo para a excelente Off the Wall e para o exercício de nostalgia que é Key/Hole. Num ambiente intimista e embelecido pela beleza e excelente acústica natural da sala, há que dizer que foi, no mínimo, reconfortante ouvir e presenciar o story-telling de Ranaldo, que não se coibiu de partilhar as histórias por detrás deLast Night on Earth,tema homónimo do último álbum, escrito numa guitarra acústica durante as semanas de devastação do furacão Sandy, e que lembra as ruas escuras, sem eletricidade, e o cenário distópico, quase apocalíptico, em que se transformou Nova Iorque por esses dias.

Por entre covers de Sandy Denny e Neil Young, a fechar, e o regresso à adolescência e às descobertas típicas da idade - “The rising tide has kept us dry and high/ this is the best time in my life...”, canta em The Rising Tide - Lee Ranaldo vai-nos embalando com as suas canções nostálgicas e honestas, cantadas com a maturidade de quem já viveu muito, que, neste formato acústico, com toda a sua envolvência, nos levam para um lugar distante em que somos nós e a música (como devia ser, sempre), e ficamos com a impressão que é um daqueles momentos transcendentes em que tempo e espaço combinam na perfeição e algo superior vai saindo da guitarra do americano.

X-Tina As I Knew Her, Hammer Blows, a cover de Revolution Bluese Late Descent #2puserem termo ao concerto e deram lugar a um efusivo aplauso, que encerrou a noite da melhor maneira. E, à saída, percorrendo o caminho entre o adro da igreja e a rua que nos traz de volta à nossa realidade, pensamos: "Não fomos à missa mas saímos do concerto de alma lavada".

Texto: David Silva

Fotografia: Luís Martins (ZDB)

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