Num dia em que as nuvens carregaram o céu de Lisboa, quando passavam alguns minutos das dez da noite, os primeiros acordes de “Ninguém Tropeça nos Dias” provocaram a histeria entre uma sala a rebentar pelas costuras. Do palco saíam raios de uma luz azul, que condenou ao ostracismo as tonalidades cinza que a meteorologia ditava.O público, eclético, recebeu de braços escancarados os quatro músicos, que fizeram os corpos dos presentes levitar durante perto de duas horas, numa noite que ficará, por certo, na memória de todos.

Depois das boas-vindas instrumentais carregadas de energia, a potência de “Juaréz” e “Panteão” – dedicada à rapaziada que chegou aos arredores da sala por volta da hora de almoço -, mais duas faixas de “Turbo Lento”, mostram a boa forma em que a banda se encontra. As guitarras de André e Pedro tocam e dialogam num infinito de interceções de elevado bom gosto sónico, enquanto o baixo de Cláudia sublinha o potente som com o qual Hélio “castiga” a bateria.

As palmas e a devoção surgem naturalmente e Hélio aproveita para saudar os presentes cujo impulso e devoção levou à entrega de flores antes do concerto. Porque a música é deles para nós, a celebração, intensa, viaja até “Casa Ocupada”, com o rock circular e completamente hipnótico de “Nós os Outros” que, durante segundos, levou Geraldes a ocupar as honras do microfone e a assistir em local privilegiado ao crowd surfing momentâneo.

Completamente atado a esta cerimónia sonora, o público aproveita uma breve pausa em palco e dispara: “Vocês são Lindos!”. A colocação de voz da plateia é elogiada por Cláudia e, apesar das cogitações locais em forma de pedidos, a baixista lamenta, mas o programa segue como “previsto” e o filão mais direto de “Casa Ocupada” traz à sala “Juventude Sónica”, e logo a seguir a maravilhosa “Estuque” faz recuar o calendário até 2006 e relembra “Olhos de Mongol”.

Como é seu apanágio, a banda lança-se a um maravilhoso tour de force e a faixa do primeiro disco do coletivo revela-se num exercício tenso, à beira do colapso. A voz de André, segura, lidera o som que invade os ouvidos de todos. Os Linda Martini são uma ilha sonora em Portugal. Movimentam-se numa montanha-russa de sons que navegam por diferentes marés, e são faixas como “Estuque” que revelam todo o potencial dos quatro.

Sempre com Hélio bastante comunicativo, o concerto segue com mais uma visita a “Turbo Lento” e “Pirâmica”, um dos momentos mais bonitos do novo álbum, enche os sentidos dos presentes com uma visão sónica ensimesmada e introspetiva a que “Sapatos Bravos” dá a devida continuação. Logo a seguir, a experimental “Febril (Tanto Mar)” deixa todos com o sangue a ferver e até a “ausência” de Chico Buarque não serve para retirar o brilhantismo desta festa que traz colada ao baile a pujança de “Belarmino”, um dos momentos mais punk da noite.

“Tremor Essencial” leva-nos de volta a territórios dignos de uma jam session, onde os músicos dão tudo de si, divertem-se e passam a magia do palco para a plateia. A voz dá espaço aos sons e entra-se num ritual xamã. Os Linda Martini não são, de facto, como a maioria das gentes…

A muito aguardada “Ratos” inicia um ciclo em que a banda não dá tréguas. Numa guerra sem quartel, “Aparato”, Mulher-A-Dias” e “Tamborina Fera” levam a plateia à loucura. Há quem grite, quem salte, quem se abrace, se beije. As emoções caem dentro de todos, sem tropeçar.

Com a celebração ao rubro chega mais um hino à medida dos “nossos” Linda. “Cem Metros Sereia” convoca todos para momentos gritados à capela, que levam Cláudia a incentivar os presentes a um sem-fim, ao som dos acordes do baixo.

O suor escorria, os sorrisos estampados no rosto. Eis o semblante de André, Cláudia, Pedro e Hélio em mais um momento de curta pausa, que serviu para apresentar o segundo single retirado de “Turbo Lento”. A dedicatória sentida às gentes da Cova do Vapor, alguns deles presentes na sala, serve de introdução a “Volta”, um perfeito exercício hedonista que resulta numa das composições mais bonitas que a banda já trouxe à vida. O clã presente circula entre os acordes saídos do palco que, sem demoras, aproveitam as vagas calmas dos presentes para navegar por “Este Mar”, outras das emblemáticas criações saídas do primeiro EP do grupo e um dos momentos mais intensos deste concerto, que estava previsto para um encore, mas a curta ausência dos músicos do palco para o esperado regresso carecia de sentido, de acordo com a baixista.

Bem perto do final, o clássico “O Amor É Não Haver Polícia” trouxe um controlado motim à sala cujo ambiente inflamado exigiu o regresso da banda ao palco para um desejado retorno que resultaria num não ensaiado e verdadeiramente lunático “Dá-me a Tua Melhor Faca”.

A festa terminou em beleza. Os Linda Martini voltaram a mostrar que são únicos e que merecem, contra as suas próprias expectativas, salas maiores. Souberam crescer e hoje, ainda sem rugas, assumem-se como uma das mais talentosas bandas de Portugal. Sem espinhas!

Texto: Carlos Eugénio Augusto

Fotografia: Diogo Oliveira

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