Sozinho em palco, apenas com um piano. Ou nem isso. Na primeira música de Michael Nyman, na noite passada, temos apenas as imagens de um vídeo: “No Bull”. A música, com o mesmo nome, transmite-nos uma calma que as imagens, de uma tourada à espanhola, não nos oferecem: violência, sangue. Este vídeo é o oposto do que iremos ouvir ao longo da noite, uma calma, uma tranquilidade evocada consecutivamente nas diferentes bandas sonoras que compõe este “Solo and Cine Opera”, o nome da tournée do compositor britânico, que, além de nos trazer algumas das suas bandas sonoras, nos oferece ainda vídeos captados por si ao longo das suas muitas viagens.

Nos filmes, temos desde os mais celebrados e conhecidos, como ‘O Piano’, aos filmes de Peter Greenaway, passando pela ficção científica de “Gattaca”. Mas vamos por cenas…
É apenas na segunda e terceira músicas, “Franklin” e “Debbie”, de “Wonderland” (1999), que Michael Nyman se senta ao piano. Os nossos olhares concentram-se na sua presença, totalmente vestida de preto, e na magia que sai das teclas daquele piano.

Do mesmo álbum, Michael interpreta “Jack”, ao mesmo que nos oferece um filme de imagens a preto e branco. “Berlim Lobbyists” apresenta-nos imagens de velhinhos sentados no lobbie de um hotel. A velhice é, aliás, um tema recorrente dos diferentes vídeos que vamos assistindo ao longo do concerto. Talvez Nyman se aperceba da sua própria idade – afinal já está com 69 anos, mas em excelente forma. Talvez seja uma forma de nos mostrar que, com a idade, vem também uma sabedoria, uma plenitude que nos pode fazer apreciar coisas que até aí nos escapavam, como a sensibilidade de um trecho musical de piano.

E chega-nos “Gattaca” (1997), um filme sobre a celebração da beleza acima de tudo. “The Morrow”, “Becoming Jerome” e “The Departure” são os temas escolhidos por Nyman para nos levar para o mundo que valoriza, acima de tudo, a beleza e a juventude eterna, o sonho perseguido por muitos homens. Se durante o primeiro tema não é projetado nenhum vídeo, no segundo e terceiro temos “Slow Walkers”. Mais uma vez, a velhice. Os velhos que caminham devagar, porque não conseguem andar mais depressa; ou aqueles que parecem escolher andar devagar. Uma alusão a uma caminhada que todos teremos de fazer: a velhice.

Sem vídeo, temos, do filme “The Diary of Anne Franck”(1995), “Why”. Porquê a guerra, porquê o sofrimento? A resposta chega-nos, depois, através de um dos filmes de amor mais bonitos: “The End of the Affair” (1999), com o tema “Diary of Love”, um dos mais belos compostos por Nyman. As imagens vagueiam por uma linha de comboio. “Love Train” apresenta-nos duas carruagens de comboio que, durante uma viagem, ora se tocam, ora se afastam. Como um amor indeciso, como um amor que quer uma coisa e precisa de escolher outra, a oposta.

“Privado” é o nome do vídeo que acompanha a composição seguinte: “The Mistress”, da banda sonora “Libertine”(2005). Aqui somos enganados pela ilusão. Aquilo que parecia uma imagem de uma rua, vista por uma janela, é, afinal, o reflexo de um espelho que se encontra dentro de um café.

A música continua a levar-nos para o mundo imaginário das notas suaves. “Witness I” (2009) é o nome do tema e do vídeo que o acompanha, os dois da autoria de Michael Nyman. E continuamos pela música que nos conduz para um imaginário, enquanto as imagens nos revelam o lado mais real da vida. Parece que Nyman nos quer dizer: sim, a vida é dura, envelhecemos, sofremos, mas há muita coisa boa para apreciar, a música é apenas uma delas. Por isso, é natural que, neste concerto, se sinta esta dicotomia: enquanto as imagens nos despertam, nos emocionam ou perturbam, a música embala-nos.

Segue-se uma das composições mais conhecidas saídas da caneta de Michael Nyman, “O Piano” (1992). Um belíssimo filme de Jane Campion, uma belíssima banda sonora de Michael Nyman que a atriz Holly Hunter interpretou, e tocou, de forma inesquecível. “Big My Secret”, “Silver Fingered Fling” - este com novo arranjo - e “The Heart Asks Pleasure First” são as escolhas do compositor. As imagens apresentam-nos “History of Cinema, Part 67”.

E, pela primeira vez, Michael Nyman levanta-se e vem ao centro do palco. O público aplaude, meio dominado por aquela música, meio acordado por aqueles sons que despertam os nossos sentidos. Novamente ao piano, Nyman recomeça com “A Propos de Nice” (1930), uma curta-metragem silenciosa de Jean Vigo, fotografada por Boris Kaufman. A peça musical mais longa é um regresso ao passado, de um sul de França enfeitiçado pelo glamour, pelo poder do dinheiro, pelas festas, pela ousadia. Um retrato, por vezes triste, por vezes cómico, servido com uma música que nos vai aconchegando.

“Morra” é o nome da última composição e do último vídeo, já depois do compositor ter saído do palco. O público reage com agrado a este compositor que há muito conseguiu reunir o consenso da crítica e dos ouvintes. Sem grandes truques, porque também já não precisa disso, Nyman ofereceu-nos uma noite que, ainda que longe de ser inesquecível, nos faz desejar ter muitas assim: com a mesma irrealidade, com a mesma tranquilidade, porque sonhar é sempre bom.

Alinhamento:
“No Bull”
“Franklin” (“Wonderland”)
“Debbie” (“Wonderland”)
“Jack” (“Wonderland”)
“The Morrow” (“Gattaca”)
“Becoming Jerome” (“Gattaca”)
“The Departure” (“Gattaca”)
“Why” (The Diary Of Anne Frank)
“Diary of Love” (“The End of the Affaire”)
“The Mistress” (“The Libertine”)
“If” (“Whitness I”)
“Big My Secret” (“The Piano”)
“Silver Fingered Fling” (“The Piano”)
“The Heart Asks Pleasure First” (“The Piano”)
“A Propos de Nice”

Encore:
“Morra”

Texto: Helena Ales Pereira

Fotografia: Ana Limão

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