Comentei isto com uma amiga e ela respondeu provocantemente com um “ainda bem”, ainda marcada, certamente, pelo airplay à exaustão das baladas que escreveu para blockbusters de Hollywood nos anos 90. Bryan Adams sempre foi acima de tudo um grande criador e intérprete de canções rock com a leveza dos assuntos pop. Quem admira o rock mainstream gostará sempre do seu rock, mas, em picos comerciais, foi o publico da pop que pôs nos píncaros as suas “power ballads”.

Nunca deixou de fazer o que conquistou os primeiros fãs e o celebrizou nos primeiros três álbuns - o “feel good rock’n’roll” - mas sempre fez baladas: “Gime You Love” no primeiro álbum, “Coming Home”, “Tonight” e “No One Makes It Right” no segundo, “Straight from The Heart”, “Cuts Like a Knife” e “The Best was Yet to Come” no terceiro e “Heaven” no quarto. No quinto álbum, “Into The Fire”, metade dos 10 temas são baladas ou midtempo. Ou seja, Bryan Adams não mudou muito, o que vem oscilando é o publico que o consome. Ora o mais fiel ao rock mainstream simples e sem grandes artefactos ou ambições intelectuais, icónicas ou “out of the box”; ora o mais “maria-vai-com-as-outras” que leva os discos a vender milhões. Independentemente da sua popularidade nos media ou nas redes sociais, vende milhões de bilhetes todos os anos já que tenta ter concertos todos os meses. Mesmo agora, com 60 anos!

Para tentar entender o que faz com que uma megaestrela que ainda hoje vende milhões de bilhetes em todo o mundo (incluindo Portugal) tenha as suas gravações mais recentes quase “vetadas” na rádio, há primeiro que entender todo um contexto de amadurecimento da indústria da música ao longo dos últimos 50 anos e principalmente do norte-americano, em que floresceu Bryan Adams e o rock canadiano; há que sincronizar datas, factos e carreiras de artistas como os Bachman Turner Overdrive ou os Loverboy, produtores como Bruce Fairbairn e Bob Rock, autores como Jim Vallance, managers como Bruce Allen ou editoras como a A&M, a CBS, a Interscope e a Universal. Porque o desaparecimento de Bryan Adams da rádio não se passa apenas em Portugal, como o próprio admite em entrevistas recentes ao reconhecer que agora tem “clássicos que ninguém ouve”.

Comecemos por contextualizar Bryan Adams e Portugal, no primeiro de uma série de textos sobre este estranho caso. Porque... isto anda tudo ligado.

Bryan Adams cancels show in USA over LGBT law
créditos: Lusa

O “Rock da Linha”

Sempre foi um dos artistas anglófilos mais acarinhados em Portugal, ao que não serão alheios os quatro anos de pré-adolescência que viveu na Linha de Cascais, onde despertou culto desde o primeiro álbum (1980). Canções como “Hidin’ From Love” ou “State Of Mind” já em 1980 e 1981 provocavam enchentes de pista no 2001 ou no News, dois bastiões da vida noturna que viriam a simbolizar o chamado “rock da linha”. O sentimento “tribal” de se ser um grupo à parte unido por um género musical que caracterizou como “rock da linha” nasceu por essa altura e para entenderem a razão basta ver a lista dos singles n.º 1* de Portugal nesses dois anos:

1980
• Cliff Richard – We Don’t Talk Anymore
• Kiss – I Was Made for Lovin You
• Buggles – Video Killed the Radio Star
• Pink Floyd – Another Brick on The Wall
• Suzi Quatro – She’s in Love with You
• Marco Paulo – Eu Tenho Dois Amores
• Martha & The Muffins – Echo Beach
• Blondie – Call Me
• Earth, Wind & Fire – Weekend
• Rui Veloso – Chico Fininho
• Abba – The Winner Takes It All

1981
• Cliff Richard – Dreamin’
• Maria Armanda – Eu Vi Um Sapo
• The Police – Don’t Stand So Close to Me
• UHF – Cavalos de Corrida
• Stevie Wonder – Master Blaster
• Doce – Ali Bábá
• Abba – Super Trouper
• Carlos Paião – Playback
• Bucks Fizz – Make Your Mind U
• John Lennon – Woman
• Fischer Z - Marliese
• OMD – Enola Gay
• Kim Carnes – Bette Davis Eyes
• Imagination – Body Talk
• The Rolling Stones – Start Me Up

É fácil constatar a diversidade de géneros consumidos e alguma escassez de rock, sendo que, o que singrou conseguiu-o recorrendo ao disco (Kiss, Floyd); a new wave tinha chegado às massas (Blondie, Martha & The Muffins, Buggles, The Police, OMD, Fischer Z); aparecem os pivots de mudança que foram Rui Veloso e os UHF; e o último sucesso de massas dos Stones.

Os formatos comerciais da música revelavam também outro fator; sendo o preço de um single acessível também aos menos abonados, serviam para contentar os consumidores da moda do momento; os álbuns eram mais consumidos pelos conhecedores de música e fãs de artistas, classes média e média alta, resultando na diferença de tendência na lista dos álbuns mais consumidos em 1981:

• The Wall - Pink Floyd
• Regatta de Blanc - The Police
• At Budokan - Cheap Trick
• One Step Beyond – Madness
• 20 Diamond Hits - Neil Diamond
• Dream Police - Cheap Trick
• Flex - Lene Lovich
• End Of the Century – Ramones
• Duke – Genesis
• Hot Stars - Vários (Polystar)
• Emotional Rescue - Rolling Stones
• Off The Wall - Michael Jackson
• Os Grandes Êxitos - José Cid
• Peter Gabriel 3 - Peter Gabriel
• Ar de Rock - Rui Veloso - #1
• The Game - Queen
• Highway To Hell - AC/DC
• Os Super 20 - Vários (Polystar)
• Zenyatta Mondatta - The Police
• Eu Gostava de Ser Quem Era - Amália Rodrigues

Radicalmente diferente, não é? Ao longo do ano os consumidores com menos posses iam comprando um ou outro single e reservavam a despesa de um álbum para uma única sortida, geralmente as compilações tipo Polystar que reuniam todo e qualquer sucesso de rádio, aleatoriamente – podia ser uma canção do Marco Paulo, rei da Onda Média, seguida de uma “rasgalhada” tipo “Marliese” dos ingleses Fischer Z.

Mas no maior mercado musical do mundo, a América do Norte, os herdeiros do rock dos “seventies” já se tinham imposto depois de anos e anos de estrada e estúdio empenhados na construção de carreiras em crescendo. Num “semi-underground” circulava um pós-punk/new-wave que abrangia Ramones e Talking Heads, mas nas arenas, estádios e tops era o “Album Oriented Rock” que reinava, como se constata na lista da Billboard dos álbuns que lideraram o top de vendas dos Estados Unidos em 1981.

• John Lennon/Yoko Ono – Double Fantasy
• Reo Speedwagon – Hi-Infidelity
• Styx – Paradise Theatre
• Kim Carnes – Mistaken Identity
• Moody Blues – Long Distance Voyager
• Pat Benatar – Precious Time
• Foreigner – 4
• Stevie Nicks – Belladonna
• Journey – Escape
• The Rolling Stones – Tattoo You
• AC/DC – For Those About to Rock

Composição da linha de Cascais de fabrico Sorefame junto ao farol da Gibalta em meados dos anos 60.
Composição da linha de Cascais de fabrico Sorefame junto ao farol da Gibalta em meados dos anos 60.

“Tonight”, o primeiro “Hino da Linha”

A maior banda rock dos Estados Unidos no início da década de 1980 era o coletivo Journey, ao fim de sete álbuns e oito anos de carreira. O álbum “Escape” foi ao primeiro lugar e acabaria por vender mais de 10 milhões de cópias só lá. Gerou quatro singles entre os quais “Don’t Stop Believin”, que também foi ao primeiro lugar e seria o single digital mais vendido no Séc. XXI, após ser sincronizado na cena final da série “Sopranos”: mais de 7 milhões de downloads. Era tocado massivamente em todas as rádios americanas, mas por cá só se ouvia nos referidos clubes do Estoril e Cascais, em cassetes gravadas com os sets dessas mesmas casas, em discos particulares comprados no estrangeiro ou que chegavam à “linha” pelos surfistas globais de Carcavelos e do Guincho e pelo pessoal da Nato em Oeiras. Uma noite nas casas noturnas iconográficas do “rock da linha” não passava sem “Don’t Stop Believin” (Journey), “Urgent” (Foreigner), “Edge of Seventeen” (Stevie Nicks), “Keep on Loving You” (Reo Speedwagon) e “Hidin’ from Love” (Bryan Adams).

O segundo álbum (1981) trouxe mais um clássico das noites rock do Estoril com o pulsante “Tonight”, que ainda hoje enche as pistas do Jezebel ou do 2001 e provoca sessões massivas de “air guitar”. O que elevou este tema ao seu estatuto simbólico foi mesmo a teimosia dos DJs da “linha”, porque não foi single em lado nenhum. “Lonely Nights”, “Coming Home” e “Fits Ya Good” foram as canções “trabalhadas” nos três principais mercados: América do Norte (EUA e Canadá), Europa e Japão. Nos Estados Unidos “Lonely Nights” foi o primeiro single do canadiano a entrar no top, onde se estreia na segunda semana de março de 1982 num modesto 88.º lugar para uma também modesta estadia de duas semanas. Os primeiros dois álbuns de Bryan Adams, apesar de posteriormente ganharem estatuto de culto no rock dos anos 80, nunca foram prioridade sequer para a própria A&M no Canadá ou Estados Unidos e têm pouco mais de 50.000 vendas contabilizadas. O culto de Bryan Adams em Portugal foi, por isso, verdadeiramente orgânico, espontâneo, sem qualquer manobra de marketing ou influência de sucesso no estrangeiro.

As “Geringonças” discográficas

Em Portugal nem sequer esses três singles foram “trabalhados” devido aos complicados acordos de distribuição que as editoras independentes tinham. Sim, para que se saiba, Bryan Adams sempre teve contrato com a A&M Records, uma independente americana criada pelo músico de jazz Herb Alpert e o executivo discográfico Jerry Moss. O nome da companhia é composto pelas iniciais dos dois apelidos. Até ser comprada pela Polygram em 1989, permaneceu independente com acordos de licenciamento e distribuição ora diretamente país a país, ora consignando regionalmente ou globalmente. A opção trazia benefícios - sem gastar um cêntimo a A&M rentabilizava o património recebendo avanços de milhões de dólares pela disponibilidade dos seus discos e ainda royalties pelas respetivas vendas - mas também lacunas como a falta de homogeneidade e sincronismo nos lançamentos, e menor poder para lançar um artista globalmente. Uma editora local que represente em simultâneo dois catálogos “major” dificilmente apostará em novos talentos quando tem para explorar tantos discos de artistas consagrados com milhões de fãs comprovados. Basta-lhe fazer o “cherry picking” para obter os melhores resultados. Não tendo alguém a tratar do marketing e promoção a nível local, é muito fácil que uma música/artista se afogue entre os que estão a ser “trabalhados”.

créditos: Lusa

O caso da A&M em Portugal ainda era mais único. A Valentim de Carvalho representava o catálogo desde 1972-73. David Ferreira, durante anos na direção da empresa e, mais tarde, da EMI Portugal, não se recorda com precisão, mas garante que nunca começou depois de 1973. “A relação com a A&M era muito boa. Eles eram uma malta fixe. E gostavam muito do Paulo Gil que dirigia o nosso departamento de Discos. Quando os contratos internacionais de licenciamento puseram a A&M nas mãos da CBS na Europa (1979, talvez) os nossos amigos (A&M Europe, com sede em Paris) mantiveram-nos como uma exceção enquanto puderam. Em 1981, quando o contrato chegou ao fim, vieram a Lisboa oferecer-nos um disco de ouro por bons serviços”.

Este regime de exceção para Portugal existia também porque a CBS não teve escritórios próprios em Portugal até 1981. Era distribuída pela portuguesa Rádio Triunfo, que sempre trabalhara mais o outro catálogo “major” que lhe estava licenciado: o da Warner. Com a Valentim de Carvalho a A&M Europe tinha uma relação direta; se deixasse a CBS integrar Portugal passaria a ter mais um intermediário na cadeia de distribuição. E Portugal andava a fazer um trabalho brilhante com os Police, Supertramp e Squeeze.

De qualquer forma, 1980 era o último ano do licenciamento da CBS à Rádio Triunfo, não houve renovação mas a CBS só abriria escritórios próprios em Portugal em meados de 1981 ou até mesmo 82 e a sua prioridade foi, obviamente, “trabalhar” os catálogos próprios que tinham sido pouco explorados pela Radio Triunfo; Bruce Springsteen, o maior artista CBS da época, já tinha seis álbuns, entre os quais os multi-platina “Born To Run”, “Darkness On The Edge Of Town” e “The River”, mas por cá continuava parcialmente desconhecido. Em contrapartida, os colegas Barbra Streisand, Billy Joel e Neil Diamond ouviam-se na rádio até ao desespero.

Em 1983, quando lança o terceiro álbum “Cuts Like A Knife”, já Bryan Adams estava mais do que entranhado entre os “jovens da linha” e canções como “This Time” e “Take Me Back” animavam as danças enquanto baladas como “The Best Was Yet To Come” e “Straight From The Heart” começam a penetrar na rádio mainstream. É o álbum da viragem no mercado americano e mundial.

CBS

O dilema da CBS em Portugal

Por cá a distribuição da A&M já estava nas mãos da CBS, mas Bryan Adams estava ainda longe do estatuto de prioridade. Afinal de contas, só a exploração do fundo de catálogo (indisponível nas lojas nacionais durante anos) deveria ser mais do que suficiente para a CBS cumprir o orçamento anual. Notem: Bob Dylan, Earth Wind & Fire, Michael Jackson, Simon & Garfunkel ou The Byrds, eram alguns dos artistas da CBS com catálogos ainda pouco explorados nas lojas portuguesas. Para não falar da Armada Latina, onde estavam os dois maiores navios para o público português: Júlio Iglesias e Roberto Carlos. Entre investir 1 cêntimo ou 1 segundo num canadiano assinado por uma editora independente distribuída pela casa-mãe e “agarrar” o sucesso dos êxitos mundiais das labels “in house”, a escolha racional é obvia. E em 81, 82 e 83 não foram poucos dentro do leque de etiquetas da CBS, de “Eye Of The Tiger” dos Survivor a “American Fool” de John Cougar, Men At Work, Bill Joel, Ozzy Osbourne... “Thriller” de Michael Jackson, “The Concert In Central Park” de Simon & Garfunkel (dois dos discos mais vendidos de sempre em Portugal), são novidades de 81-82 que venderam aos milhares por cá! Ou seja, não só os próprios catálogos da CBS traziam ªexitos do momento, como priorizar artistas cujas receitas iriam mais tarde ou mais cedo sair da empresa até podiam ser considerados maus atos de gestão. Alem disso os patrões da A&M estavam bem distantes e com dezenas de intermediários entre Los Angeles e Lisboa, para que qualquer pressão surtisse efeito.

Mas se cá não era prioridade, Portugal também o não era para Bryan Adams. Em 1981, o manager Bruce Allen deparou-se com um cenário irónico: nos Estados Unidos, as rádios dificultavam o “airplay” de artistas canadianos pressionadas pelas editoras, agentes e managers dos grandes artistas norte-americanos. A razão era o apoio que os artistas canadianos recebiam institucionalmente no seu país (quota mínima obrigatória de 35% de música canadiana na rádio); no Canadá os media consideravam que um artista canadiano que não conseguisse sucesso nos Estados Unidos ou Europa só tinha sucesso no Canadá devido às quotas e não à qualidade. E as carreiras... não arrancavam. Com dois artistas de “AOR” na sua carteira de manager (Bryan Adams e os Loverboy), para Allen a prioridade era vingar nos Estados Unidos. Mas isso fica para a segunda parte desta análise...

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