
A expetativa face à revisitação da obra do artista, tal como a apresentação do novo trabalho que reúne os temas compostos em língua inglesa, terá sido a responsável por tão digna afluência. “Songs (2004-2012)”, primeiro disco de uma trilogia de álbuns temáticos, que sairá para os escaparates a 3 de dezembro, foi-se revelando apoiado nas vozes de três ilustres convidados: o “novato” Scott Matthew e os muito acarinhados Neil Hannon e Beth Gibbons.
Dividido em duas partes, tendo a primeira antecipado a entrada em palco dos cúmplices em missão anglo-saxónica, o concerto foi-se construindo ao embalo do metalofone, em bonitas canções de ninar, fortalecido pelo pendor trágico-apaixonado do acordeão de Celina da Pieadade e encaminhado pela oscilação entre a candura e assertividade conferidas pelo trio de cordas (por vezes transformado em duo, quando Viviana Topikova largava o violino para manobrar o sintetizador) que acompanhava o compositor. Tango dos Malandros foi dedicado a todos os malandros no geral e, em particular, a um “malandro” da casa, Rui Reininho, que Rodrigo Leão esperava encontrar na audiência.
As instrumentalizações elaboradas meticulosamente foram reveladas aos olhos do público em clima de descontração e cumplicidade, salientado pela troca de sorrisos e olhares observados em cena, bem ao estilo de improvisação, para o qual contribuiu a incursão da bateria e da guitarra. O público foi-se deixando contagiar, desdobrando-se em aplausos e numa euforia que foi aumentando gradualmente com a entrada dos honrosos convidados.
Ao australiano Scott Matthew coube o privilégio de estrear a lista de tão distintas aparições, primeiro ao relembrar-nos a colaboração em “A Montanha Mágica” (2011), depois ao apresentar-nos, pela primeira vez, Incomplete. O poema escrito pelo cantor, suportado por uma melodia no mesmo tom, viu-se fortalecido pela rouquidão acidulada e envolvente que tão bem caracterizam o estilo de Matthew.
Seguiu-se Neil Hannon (Divine Comedy), um “grande senhor que veio da Irlanda”, com a deslumbrante interpretação de Cathy, que repetiu no segundo encore. Apesar do carinho com queera recebido de cada vez que pisava o palco, as maiores ovações da noite estavam reservadas para a convidada mais aguardada. Beth Gibbons, que poderia tão bem ter nascido para cantar o fado, como insinuou Hannon, presenteou os presentes com a recordação de Show, fruto do conluio com Rustin Man, aqui a ganhar um novo cunho, na revisitação de Rodrigo Leão. Após a soberba Lonely Carroussel, de “Cinema” (2004), a cantora fugiu do palco para que os louros da noite fossem recolhidos pelo compositor e os músicos que ajudaram a dar vida às suas criações.
Scott Matthew e Neil Hannon ainda voltaram ao palco, ao longo de dois encores, que deixaram no ar a promessa de um regresso da cantora dos Portishead, que acabou por não se concretizar.
Texto: Ariana Ferreira
Fotografias: Anais F. Afonso
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