Aproveitando a deixa do silêncio, não ficará mal de todo relembrar os pedidos expressos pelas próprias Savages, afixados à entrada do recinto. Alegando que o espetáculo seria mais bem experienciado em primeira mão do que filtrado por um dispositivo eletrónico qualquer, ficou a recomendação pautada pelas seguintes palavras a negrito: “SILENCE YOUR PHONES”. Um mote que terá sido bem compreendido no que ao som efetivamente dirá respeito, mas que não terá coibido um sem número de espectadores de vivenciarem a atuação, inaugurada por I Am Here, através dos seus smartphones.

Seguiu-se I Need Something New, em modo spoken word visceral, a aquecer para as explosões que se foram somando, em tom quase crescente, e que no fim se provaram incinerantes, numa chama acesa bem espalhada pelas cabeças que se contavam frente ao palco. O aclamado disco de estreia foi assim apresentado gradualmente, de forma algo ritualizada, sob a liderança da vocalista francesa, de pose teatral do alto dos seus saltos vermelhos (praticamente o único ponto de cor que podia ser visto em cima do plateau). Com pontuais laivos de simpatia, em curtas observações dirigida aos presentes, Jehnny Beth foi conquistando um público que há muito havia ganho, no semblante seguro e masculinizado, muito à imagem de Ian Curtis, figura máxima do movimento que as Savages revisitam, quer do ponto de vista sonoro, quer visual.

Há toda uma estética enegrecida que por tudo se espalha e que é tão bem representada pela maneira como a francesa se bamboleia roboticamente, ao som das distorções desarmantes protagonizadas por Gemma Thompson em Waiting for a Sign. Foi, portanto, com grande pertinência que o próximo passo desta caminhada revestida de boas influências se fez na apropriação de Dream Baby Dream, dos norte-americanos Suicide, numa roupagem muito própria, de cadências sonoras mais obscuras.

Dedicado às senhoras e também aos meninos, para que não ficassem invejosos, She Will foi o tema que marcou o tom energizado que se estendeu até à despedida, num delírio de reciprocidade dentro e fora de palco. Fuckers, a novidade que já não é tão nova quanto isso, ou que, pelo menos, não se provou totalmente desconhecida no Hard Club, com toma aconselhada pela própria Jehnny Beth para os dias maus, mostrou ser o ponto final mais que perfeito para o culminar desta segunda passagem das Savages pelo Porto.

Comparações à parte, pondo de parte o estrondoso primeiro impacto causado pelo quarteto aquando as sua primeira passagem por Portugal, foi uma boa noite para não se ficar por casa.

Texto: Ariana Ferreira

Fotografias: Anais F. Afonso

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