Bill Cosby vai passar entre três a dez anos na prisão.

O comediante norte-americano de 81 anos que chegou a ser considerado o "pai da América" por causa da série de sucesso "The Cosby Show" (1984-1992) não mostrou nenhuma reação ao ouvir o juiz Steven O’Neill declarar que "a prova é esmagadora de que se tratou de um ato predatório planeado" esta terça-feira à tarde na Pensilvânia.

Mal foi anuncida a decisão, os advogados de defesa apresentaram uma moção para Cosby ficar em liberdade sob fiança enquanto avança um apelo para o Supremo Tribunal do estado, mas o juiz manifestou estupefação pelo pedido e disse que não o trataria de forma diferente, determinando que fosse algemado para começar a cumprir imediatamente a pena.

Pouco depois, as autoridades do estabelecimento prisional onde ficará numa fase inicial divulgaram a sua foto de encarceramento.

A sentença surgiu no final de uma audiência de dois dias e resulta de três crimes de agressão sexual agravada contra Andrea Constand, ex-funcionária da Universidade Temple, que terá drogado e abusado na sua mansão em Filadélfia em 2004.

Essa condenação saiu a 26 de abril deste ano e foi a primeira contra uma celebridade desde que surgiu o movimento #MeToo.

A acusação pedia cinco a dez anos de prisão, enquanto a defesa solicitava prisão domiciliária.

Na parte da manhã, o juiz já tinha o considerado um "violento predador sexual", implicando que tenha acompanhamento e avaliações psicológicas até ao fim da vida, bem como apresentações regulares às autoridades. O seu nome também passará a constar de uma lista oficial de predadores sexuais enviada para vizinhos, escolas e vítimas.

Bill Cosby à chegada ao tribunal esta terça-feira.

O julgamento de abril deste ano

O caso, sem evidências físicas, reduziu-se basicamente à palavra de Cosby contra às da vítima, e dependia essencialmente da credibilidade que o júri depositou em Constand, de 45 anos.

Segundo a Associated Press, Bill Cosby insultou os procuradores depois de ser condenado há cinco meses. A agência de notícias avança que o comediante usou "um palavrão para se referir ao procurador distrital Kevin Steele".

"Estou farto dele", terá dito.

Ao longo do julgamento, a defesa acusou Constand, de 45 anos, de ser uma "vigarista" que perseguiu um pai solitário e aflito, advogando que acusou o comediante para conseguir um acordo civil de 3,38 milhões de dólares em 2006.

Já os promotores do condado de Montgomery levaram cinco mulheres, que testemunharam que Cosby era um "violador em série e um predador sexual" que se aproveitava de mulheres muito mais jovens que o admiravam, drogando-as e abusando delas.

O júri do processo era formado por sete homens e cinco mulheres. Dez eram brancos e dois negros, como no primeiro julgamento.

O caso ambém encerra uma série de vitórias para o advogado Tom Mesereau, que ficou conhecido ao conquistar a absolvição de Michael Jackson por abuso sexual de crianças em 2005, mas não conseguiu salvar Cosby.

O ator afro-americano, um pioneiro que quebrou as barreiras raciais na televisão e foi adorado por milhões pelo seu papel de pai amoroso na série de sucesso "The Cosby Show" (1984-1992), permaneceu em silêncio enquanto um membro do júri leu o veredicto.

Uma condenação criminal e a possível prisão são um capítulo final devastador na carreira do gigante da cultura popular norte-americana do século XX, filho de uma empregada doméstica e que se tornou no primeiro ator negro a ganhar um Emmy e a ocupar um papel de protagonista no horário nobre da televisão americana.

No arranque do julgamento a ex-jogadora de basquete que hoje mora em Toronto sentou-se no banco das testemunhas e deu o seu depoimento no quinto dia de julgamento em Norristown, na Pensilvânia.

"Por justiça", disse Constand ao ser questionada pelo motivo de estar ali, após confirmar que recebeu 3,38 milhões de dólares de Cosby há 12 anos para encerrar uma ação civil. O ex-ator de 80 anos olhava para Constand e para baixo enquanto esta respondia às perguntas.

Constand esteve no tribunal durante uma hora e quatro minutos antes de abordar a noite em questão, quando foi à casa de Cosby para falar da sua demissão iminente. Contou que o ator lhe ofereceu três comprimidos azuis, aos quais chamou de "seus amigos" para "ajudar a aliviar a dor", e disse que os tomou acreditando ser um remédio natural.

"Confiei nele", disse Constand. Mas quando começou a ver tudo duplicado e a arrastar a fala, Cosby encostou-a no sofá. "Estava muito assustada. Não sabia o que estava a acontecer", contou. "Sabia que algo estava errado e comecei a entrar em pânico".

"Estava sem forças"

Constand disse que quando voltou a si, Cosby estava atrás dela no sofá. "A minha vagina estava a ser penetrada com força", relatou. "Senti que ele estava a tocar nos meus seios. Pegou na minha mão, colocou sobre o seu pénis e masturbou-se com ela".

"Queria que ele parasse. Não tinha forças e não podia lutar contra ele", relatou. "Sentia-me humilhada. Estava em estado de choque", acrescentou.

Constand testemunhou depois de outras cinco mulheres terem assegurado sob juramento que foram drogadas e agredidas por Cosby, homem que admiravam como mentor e que muitas vezes se fazia de amigo das suas famílias para ganhar sua confiança.

Cosby diz que deu a Constand comprimidos de Benadryl para aliviar o seu stress, insiste que a relação foi consensual e acusa-a de mentir para lhe tirar dinheiro.

Cerca de 60 mulheres acusaram publicamente Cosby de as ter drogado com medicamentos para abusar delas ao longo de quatro décadas. A maioria das supostas agressões já prescreveram.

Um primeiro julgamento realizado em junho de 2017 terminou com a anulação do processo porque o júri não chegou a um veredicto unânime, após seis dias de depoimentos e 52 horas de deliberações.

Estas denúncias e o julgamento iniciado por Constand arruinaram a reputação do vencedor de vários Emmys, que de 1984 a 1992 interpretou Cliff Huxtable, um ginecologista e carinhoso pai de família na popular série de televisão "The Cosby Show".

Constand, que é lésbica mas no passado declarou ter tido relações com homens, inicialmente chegou a um acordo com Cosby em 2006, após um processo civil, mas o caso foi reaberto em 2015 quando novas provas foram reveladas.

Notícia atualizada às 22h25.

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