O espetáculo "De Portas Abertas", que vai realizar-se entre 11 e 13 de setembro, surge depois do trabalho de campo da companhia, que começou há cerca de um ano e no qual fez um mapeamento cultural desta zona de Coimbra, "entalada" entre a Rua do Brasil e o Bairro Norton de Matos, foi hoje anunciado.

Face à pandemia, a criação foi adiada de junho para setembro e, em vez de ser uma visita guiada, como estava previsto, será "uma espécie de visita guiada", sem se sair do lugar, tendo como palco, à partida, o Campo da Arregaça, sede do União de Coimbra, contou à agência Lusa a diretora da companhia.

Apesar da proximidade com a sede d'O Teatrão, a grande razão para a companhia escolher este local para uma intervenção artística comunitária que se estende até 2021 prende-se com o facto de a Arregaça mostrar "as várias cicatrizes do crescimento da cidade e ainda uma certa resistência e um modo de viver um pouco diferente na cidade", disse.

O Vale da Arregaça "é aparentemente feio, desordenado e desorganizado, mas que tem muitas coisas únicas e descobre-se, por trás de uma aparente normalidade, circunstâncias que dão a conhecer melhor a cidade", explanou.

Lugar do União de Coimbra, da antiga Sociedade Porcelanas de Coimbra e do Bairro da Fonte do Castanheiro, este é também um espaço que representa uma "tensão entre o popular e o erudito", como é o caso do próprio clube de futebol, associado, na sua criação, aos ‘futricas' (não estudantes), em contraponto com a Académica.

No espaço em que será apresentado e que ainda não está fechado, cinco atores vão fazer uma espécie de visita guiada pela Arregaça, assumindo-se como narradores, "viajantes no tempo, colecionadores de memórias e de históricas", invocando espaços e momentos que marcaram este vale, explicou.

Indo desde meados do século XX até ao tempo atual, o espetáculo aborda a ideia da Arregaça como um "espaço vazio, uma espécie de buraco", afirmou Isabel Craveiro, referindo que durante o trabalho ouviu várias vezes a pergunta: "Mas onde é que é a Arregaça?".

No espetáculo, há espaço para a comédia, onde se brinca com a "ideia de progresso e urbanismo", por exemplo, e cenas mais "documentais", abordando momentos como o fim da fábrica da Sociedade das Porcelanas, em 2005, o Bairro da Fonte do Castanheiro, a Linha da Lousã e os altos e baixos do União de Coimbra.

Ao longo do espetáculo, haverá também muita música, composta por Rui Lúcio, e interpretada pela Associação Salatina.

"Há uma dinâmica interessante e que evolui consoante os espaços. Ora estamos numa assembleia de moradores, como num piquete de greve", notou, aclarando que os cinco atores são "amparados e ajudados" por outros atores que fazem parte do serviço educativo do Teatrão.

No espetáculo, a ideia de visita guiada também não é inocente, sendo uma "forma mordaz" que a companhia encontrou de abordar os processos de gentrificação e desequilíbrio das cidades, ao mesmo tempo que se brinca com o próprio conceito de visita guiada, que procura "encantar os turistas com coisas pitorescas".

Apesar de estrear em setembro, O Teatrão espera voltar a retomar o espetáculo na primavera.

Para além deste espetáculo, a programação do Teatrão até dezembro conta com a reposição do espetáculo "Eu, Salazar", a exibição do documentário que acompanhou a peça, o acolhimento das peças "Mas alguém me perguntou se eu queria ir ao teatro?", do Teatro do Noroeste, "Os Guardas do Museu de Bagdad", do Nicho, "Se Isto é Um Homem", da Companhia de Teatro de Almada, e ainda o cabaret "La Cantante por qué no?", entre outras propostas.

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