Assim sim! Que grande noite de música. Uma multidão enorme recuou 20 anos e cantou a uma só voz temas incontornáveis e intemporais que deixam poucos indiferentes. Um encontro de gerações ímpar no segundo dia de Portugal ao Vivo, com GNR e Resistência a mostrar que a irreverência não tem prazo e idade de acabar.

O cenário do segundo dia do festival nacional era, logo na abertura das portas, completamente diferente daquele com que nos deparámos no dia anterior: mais movimento nas imediações do Restelo, filas nos portões do estádio, muitos cabelos grisalhos mas sorrisos jovens e, como é habitual, uma forte presença de merchandising dos Xutos e Pontapés, que fecharam a noite. Num final ainda mais convidativo que o anterior (falamos do calor e do vento), o público foi-se juntando em frente ao palco e compôs desde logo uma mancha respeitável - que foi crescendo com o passar das horas e resultou numa afluência que, não sendo histórica, deve ter satisfeito as expectativas da organização.

É inegável que os anos passam. E que os músicos envelhecem, e que a maneira de ver as coisas muda. E ninguém no seu perfeito juízo poderia esperar uma cópia do festival no Estádio de Alvalade de 1993. Mas foi emocionante ver como a atitude, que é o essencial, se mantém, para nos lembrar - a mim, que escrevo, e à minha geração - que aqueles refrãos que hoje temos como cliché, e que sabemos de cor mas por vezes desdenhamos, eram a contra-cultura da época e foram a alavanca para muito do que somos hoje.

Já lá vamos aos grandes concertos de Resistência, GNR e Sétima Legião. Mas, primeiro, comentar que os Xutos não compareceram à chamada. É claro que o concerto foi avassalador, intenso como o espaço pedia e com-tudo-a-que-temos-direito, falando de hits. Mas o pior é que, para eles, pareceu só mais um - o próprio Kalú admitiu que o alinhamento é aquele que prepararam para este verão. Há quem não concorde, mas eu esperava muito mais: esperava uma ligação simbólica àquele concerto de 1993, esperava que aproveitassem para ser irreverentes e prevaricadores (como outrora foram) e não aparecessem com um discurso mecânico, consensual e comercial e uma data de números ensaiados (até a "Dia de S. Receber" já tem mais de rotineira do que se sincera...). Se havia alguma intenção do festival em reatar memórias, e se o público ali presente não era propriamente aquele que sempre conheceu os Xutos com esta nova cara, esperava-se outra sensibilidade. O "Coro da Primavera", do Zeca Afonso, por exemplo, que tem tanta viralidade por esse YouTube fora, podia ter substituído aquele rol interminável das "mesmas de sempre".

Portugal ao vivo - 22 de junho

Levaram a sério o concerto de Estádio, ao porem toda a gente a cantar, mas ignoraram a temática. Excepcionalmente, até pouco conversadores estiveram. Depois de "Maria", "Submissão" e "Não sou o único", o fim chega com "Casinha", numa altura em que, pelo avançar da hora, já se via uma debandada bastante considerável. Houve um aspecto muito bom e, provavelmente, irrepetível: havia crianças(!) na primeira fila.

Pelo contrário, Rui Reininho e os GNR encheram-nos todas as medidas. Mordaz como poucos conseguem ser, Reininho disparou em várias direcções com uma classe irrepreensível. Suspirou "Obrigado por esta longa vida que nos proporcionaram, sem o c#r§lho de um subsídio" e ainda gritou pela anarquia e insurreição. Num concerto-comício, mas dos bons, ainda falou do S. João no Porto: "Cuidado com o Rio, que ele vem por aí abaixo". Ali notámos uma ligação com aquela geração que o aplaudia, bem presente nos vários laivos de desaforo juvenil que se foram vivendo em cima do palco e no relvado.

"Ana Lee" é apresentada como "aquela música que serve para dar beijos" e, realmente, aproveitando o conselho, ouvimos pouca gente a cantar! Parece incoerente da parte de quem escreve recriminar o alinhamento dos Xutos e narrar com simpatia as mais conhecidas dos GNR que foram tocadas ("Asas", "Mais Vale Nunca", "Efectivamente" e, neste inverno, e numa tarde de trabalho, quero que tudo "Vá para o inferno" também foram bons momentos) . Mas reparem que a grande diferença está na entrega.

Igualmente bons foram Resistência, envoltos na saudade. O ponto de partida foram um longo jogo de guitarras e as palavras de Olavo Bilac: "20 anos depois e as coisas estão iguais. Nova geração, vamos dar a volta a isto! A esperança é a última a morrer". O concerto havia de acabar com Olavo Bilac e Miguel Ângelo a erguer uma grande bandeira portuguesa, mas as cores e símbolos nacionais estiveram sempre presentes. Para ilustrar melhor a emoção, servem o senhor de 60 anos à minha frente que saltava e cantava eufórico como uma criança e os vários casais com a lágrima no canto do olho. Numa ode à liberdade, ouvimos "Aquele Inverno", "Nasce Selvagem", "Timor", "Fado", "Marcha dos Desalinhados" ou "Lugar ao sol". Ali percebemos claramente - como já tínhamos reparado em Sétima Legião e - que o que se está ali a passar não é só uma experiência especial para o público, mas para todos os músicos, a entregarem-se de corpo e alma àquelas letras e a um período que já passou.

De tarde Sétima Legião trouxeram-nos um Rodrigo Leão alegre e cheio de energia e músicas que só não tiveram um carácter mais épico por estarem a ser tocadas durante a tarde. Apetece-nos dizer que "antigamente é que era bom", mas depois lembramo-nos que, afinal, o primeiro dia serviu precisamente para nos lembrarmos de combater essa teoria. Madredeus não souberam a muito, e aproveitámos para dar uma volta ao recinto e desfrutar da relva entretanto, mas foram uma relaxante música de fundo.

Feitas as contas, valeu a pena este Portugal ao Vivo. Apesar da diversidade sonora, todos os grupos pareciam da mesma família, tal a proximidade, e pelo facto   de Tim e Pedro Ayres de Magalhães terem subido ao palco em dois concertos. É sempre bom celebrar Portugal. Um último preciosismo: a música de fundo entre concertos também podia ser nacional...

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