A história hoje conhecida como “O Mistério da Boca do Inferno” começou no final de 1929, quando Fernando Pessoa recebeu o primeiro volume de “Confessions”, de Aleister Crowley - ocultista britânico conhecido pelos seus escritos esotéricos -, no qual se encontrava um horóscopo, que foi corrigido por Pessoa, profundo conhecedor das posições dos planetas e dos signos zodiacais, conta o investigador Steffen Dix, responsável por esta edição.

Foi decorrente dessa pequena correção que se proporcionou o encontro entre o mago ocultista Aleister Crowley e o obscuro poeta português Fernando Pessoa, que se estendeu por cerca de ano e meio.

Tudo começou no dia 18 de novembro de 1929, quando Fernando Pessoa encomendou à editora londrina Mandrake Press os primeiros dois volumes do livro “The Confessions of Aleister Crowley”.

Após receber o primeiro volume, e feita a correção do horóscopo do inglês, Fernando Pessoa pediu à editora, numa carta datada de 4 de dezembro, para informar o autor do engano, terminando com um pedido de “perdão” por “incomodar com esta intromissão puramente fantasista no que é, no fundo, apenas uma carta de negócios”.

A verdade é que o próprio Crowley respondeu a Fernando Pessoa, a 11 de dezembro, naquela que seria a primeira carta de uma troca de correspondência que se estenderia até 21 de março de 1932.

“Embora Aleister Crowley tenha passado apenas três semanas em Portugal – mais exatamente entre 2 de setembro de 1930, dia em que Pessoa recebeu Crowley e a sua jovem acompanhante, Hanni Larissa Jaeger, no porto de Lisboa, e 23 de setembro seguinte, quando Crowley abandonou o Hôtel de L’Europe, localizado na Praça Luís de Camões, com a indicação falsa de que ia fazer uma visita a Sintra – o relacionamento de entre Pessoa e Crowley decorreu ao longo de cerca de ano e meio”, explica Steffen Dix.

Apesar da indicação de que ia para Sintra, Aleister Crowley não ficou hospedado em lugar nenhum e simplesmente desapareceu, deixando uma carta misteriosa, que apontava para suicídio, e que foi encontrada na Boca do Inferno.

O desaparecimento súbito e misterioso de Crowley tornou-se em Portugal, quase de imediato, um caso público, reportado constantemente nos jornais mais importantes do país.

Em França, saiu uma reportagem bastante detalhada sobre o caso, e em Inglaterra foi publicada pelo menos uma notícia pequena com um tom bastante cauteloso.

As notícias do desaparecimento do “mago” Aleister Crowley foram exageradas, mas além de “O Mistério da Boca do Inferno” se ter espalhado pela imprensa, divertiu Fernando Pessoa, que participou ativamente nesta farsa modernista ‘pré‑fake news’, reconhece o investigador.

Segundo Dix, foi o poeta quem escreveu a “novela policiária” que relata os contornos desta investigação, ao mesmo tempo que conduziu o embuste que lhe deu origem.

“Os fragmentos da novela policial parecem basear-se num ‘relatório de investigação’ que um detetive inglês anónimo redigiu em Lisboa”, com o título “Mouth of Hell” ("Boca do Inferno"), depois do desaparecimento de Crowley.

Uma vez que o relatório revelava qualidades literárias, o detetive – que será mais uma personagem literária do próprio Fernando Pessoa - , “menciona várias vezes a sua intenção de o publicar também sob a forma de romance ou de novela”.

Steffen Dix destaca que também a reconstrução detalhada deste encontro exige “o trabalho demorado e paciente de um detetive”, por começar “com uma pequena correção de um mapa astrológico e terminar com uma verdadeira investigação policial, acompanhada de um texto literário que a relata”,

Este continua a ser considerado até hoje “um dos mais fascinantes mistérios da literatura portuguesa”, no qual Fernando Pessoa interage com aquele que foi considerado “o homem mais perverso do mundo”, o “Master of Darkness” em título.

“Mantém-se como facto inquestionável que, no final do Verão de 1930, se encontraram em Lisboa dois homens que, não obstante todas as diferenças de caráter que os separavam, partilhavam um sentido de humor semelhante e aos quais dava um gozo imenso atenuar ocasionalmente a rigidez da vida diária com um ou outro mistério, inventado ou real, passível de ser esclarecido de forma racional ou inacessível a qualquer esforço de dedução lógica”, descreve Dix.

Foi neste espírito que, tanto Fernando Pessoa como Aleister Crowley, se entusiasmaram com o “Mistério da Boca do Inferno” e se divertiram a manipular a opinião pública.

O interesse pelo caso começou a desvanecer-se no final de 1930, mas a correspondência entre Fernando Pessoa e Aleister Crowley prosseguiu e, no dia 5 de outubro de 1931, o poeta português escreveu a sua última carta ao mago inglês, a qual já foi enviada com um significativo atraso, pelo qual se desculpou.

Crowley retornou no dia 29 de novembro, mas Pessoa não lhe respondeu e a correspondência acabaria por cessar definitivamente com uma circular “estranha e algo patética, assinada com o título ‘To Mega Therion 666’” enviada por Aleister Crowley.

O britânico morreu com 72 anos, em 1 de dezembro de 1947, doze anos após a morte de Fernando Pessoa.

Publicada no final de setembro, esta edição bilingue inclui a troca de correspondência, a novela policial e “todos os documentos relacionados, direta ou indiretamente, com o encontro Pessoa-Crowley”.

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