Desde o início de março, a COVID-19 obrigou as famílias a adaptarem-se a novas realidades - as escolas fecharam, há a possibilidade de parte do agregado familiar ficar em casa a tratar dos filhos menores, milhares de portugueses estão em regime de teletrabalho e as rotinas repetem-se dentro das divisões da casa.

Com o isolamento social, os tempos livres dentro de casa podem ser uma oportunidade para envolver a família em jogos coletivos, deixando de lado a "solidão" dos jogos no computador, no smartphone ou nas consolas. Os jogos de tabuleiro são uma boa opção e o seu universo é vasto, fascinando miúdos e graúdos: do clássico "Monopólio" a "Estoril 1942", passando pelo "Sabichão", "Jogo da Glória" ou jogos de "Escape Room", há um grande leque de ofertas para ocupar o tempo em família, especialmente durante a quarentena.

Das lojas para a casa dos portugueses

Os jogos de tabuleiro parecem ter mesmo saltado para o centro das mesas das famílias: de acordo com os dados recolhidos pela agência Lusa, a venda de jogos de tabuleiro na região do Porto aumentou exponencialmente nas grandes superfícies desde o início de março, assim que parte da população decidiu ficar em casa devido à COVID-19, sendo o Monopólio um dos mais procurados.

Monopólio

Ao SAPO Mag, fonte responsável da Majora - empresa portuguesa dedicada ao fabrico de jogos de tabuleiro, brinquedos e jogos infantis e juvenis - explicou que o reforço da comunicação digital tem gerado "muitos frutos". "As famílias precisam de entreter as crianças, sem descurar as oportunidades de juntar gerações e aumentar o tempo de qualidade entre família. Estas famílias recorrem a atividades que juntem o divertimento à aquisição de conhecimentos, sendo uma destas atividades os jogos de tabuleiro, dos quais alguns optam pela Majora", frisa.

Segundo os dados recolhidos pela Lusa junto de quatro grandes superfícies instaladas na região do Porto, a procura intensificou-se assim que foram conhecidas as medidas de contenção avançadas pelo Governo, registando-se um aumento nas vendas nos primeiros 20 dias de março, relativamente à procura registada em igual período de fevereiro.

PORTO
PORTO - MEBO Games

O grupo Auchan avançou à Lusa registar um "crescimento de 267% no volume de vendas de jogos de tabuleiro", sendo que a procura aconteceu "em formato online e em loja". Já as lojas da FNAC foram também muito procuradas nesta demanda pela aquisição de jogos de tabuleiro, tendo o diretor comercial da empresa, Pedro Falé, informado a Lusa que, "entre 7 e 18 março, as lojas FNAC da região Norte venderam mais 12% destes produtos, tendo-se registado no dia 17 um pico de crescimento de 70%".

Da parte da Sonae MC, chegaram números de vendas nas lojas Worten e da cadeira de hipermercados Continente, "cifrando-se o aumento em 50%", mas sem especificar quais os jogos mais procurados. O El Corte Inglês elencou à Lusa que "Lego, o Monopólio e o Trivial" foram os produtos mais vendidos desde o início de março, mas sem avançar os números correspondentes.

Ao SAPO Mag, Gil D'Orey, fundador da MEBO Games - editora portuguesa de jogos de tabuleiro que aposta sobretudo na criação e edição de jogos para toda a família -, assinala que houve uma subida das vendas online no último mês, mas regista uma quebra nas vendas aos retalhistas. "A compra de jogos pelos nossos retalhistas baixou imenso porque as lojas mais pequenas estão fechadas e não conseguem vender. Os grandes retalhistas [hipermercados] não estão a comprar porque estão muito focados na parte alimentar", explica. "Já online temos tido um aumento de vendas. Mas, por enquanto, não compensa a compra normal, a venda normal de jogos. Não estamos felizes com a situação", acrescenta.

Gil D'Orey frisa ainda que "não está otimista". "As famílias que já jogavam, já usavam os jogos e já os têm em casa. Os que não têm e que não estão habituados a jogar, não é por estarem fechados em casa que vão jogar. Não estou muito otimista", confessa.

A Majora alerta ainda que pode haver uma ruptura de stock nos próximos meses. "Considerando que o mundo 'parou' perante a atual pandemia, é expectada uma ruptura de stocks sem previsão de reposição, dado que muitas fábricas estão encerradas", explica a empresa.

Os clássicos nunca saem de moda

SABICH
Sabichão

A Majora revela ainda o "Jogo da Glória", "Ludo e Paga e Cala", "Stop!", "Mayoga, "Tensão" e "Rebenta a Bolha" têm sido os mais vendidos nos últimos tempos.

"Os clássicos ['O Sabichão', 'Jogo da Glória', 'Ludo' e 'Paga e Cala'] são sempre procurados, face o saudosismo da marca, demonstrado pelo nosso público. Por muito que quiséssemos fugir do antigamente, a marca nasceu em 1939 e com ela apareceram estas referências, que já marcaram quatro gerações de jogadores. Contudo, os novos lançamentos como o 'Stop', o 'Mayoga', o 'Tensão', o 'Rebenta a Bolha' e o 'Oral' foram extremamente bem sucedidos, tendo vendido milhares de unidades cada referência. Muitos deles esgotaram e tivemos a necessidade de produzir e distribuir novas remessas", explica fonte responsável da empresa.

Estoril 1942 - Super Box
Estoril 1942 - Super Box

Já na MEBO Games, "Caravelas", "Estoril 1942" (o SAPO Mag tem a decorrer, até ao dia 24 de abril, um passatempo onde poderá ganhar um exemplar), "Viral", "Carrossel" e "Porto" são alguns dos jogos mais vendidos. Gil D'Orey acrescenta ainda que tem havido um aumento da procura por puzzles.

"Os jogos de tabuleiro permitem que fiquemos mais próximos"

O Klask ("jogo de ímanes, reflexos, ressaltos e golos") é outro dos jogos da MEBO Games que tem conquistado os jogadores. Veja o vídeo:

Em conversa com o SAPO Mag, o fundador da MEBO Games, que tem como objetivo principal "criar e produzir jogos de tabuleiros de qualidade para as famílias", também sublinha que os jogos de tabuleiro são uma boa opção para passar o tempo em família. "Os computadores são ótimos para imensas coisas, mas ficamos todos um bocadinho mais longe, mais distantes. Os jogos de tabuleiro permitem que fiquemos mais próximos. Costumo dizer que os jogos de tabuleiros nos tornam mais humanos porque estamos mais perto, olhamos uns para os outros, estamos à volta de uma mesa fisicamente e temos de saber lidar com as nossas frustrações, com as vitórias e derrotas. Aprendemos muito e esta é a parte educativa dos jogos de tabuleiro", defende.

MEBO
Jogo de tabuleiro sobre vinho do Porto "Vintage", da MEBO Games créditos:

Teresa Barros, amante de jogos de tabuleiro e que já representou Portugal em torneios, também defende que os jogos podem juntar amigos e famílias. Aliás, foi assim que nasceu a sua paixão. "Eu sempre gostei muito de jogar cartas e jogos de tabuleiro clássicos. Em 2002, comecei a jogar alguns jogos modernos em casa de amigos. A minha primeira grande paixão foi o 'Descobridores de Catan'. Um jogo muito interessante para jogar com três ou mais jogadores, editado em Portugal pela Devir", conta ao SAPO Mag.

Carcassonne'
Carcassonne

"Em 2018, venci o campeonato nacional de 'Carcassonne'. Este é um dos campeonatos mais competitivos em Portugal. Existem várias eliminatórias e só os melhores jogadores chegam à final", recorda, contando que entrou no mundo das competições graças ao "amigo Ricardo Jorge Gomes, autor de vários jogos e o melhor jogador de jogos de tabuleiro em Portugal e que conta com várias vitórias em torneios nacionais e internacionais".

Há dois anos, em 2018, Teresa Barros representou Portugal no campeonato mundial, em Essen, na Alemanha. "Estava bastante nervosa, com medo de perder todos os jogos e que, por minha causa, Portugal ficasse em último lugar. Só participavam duas mulheres (eu e a representante da Costa Rica), o que aumentava a responsabilidade. Depois de ganhar o primeiro jogo, fiquei mais descontraída e diverti-me muito. Acabei por ganhar três jogos, em cinco. O que não foi mau. Fiquei em 13º lugar, num total de 34 participantes. Esse ano, o vencedor foi o Japão", lembra em conversa com o SAPO Mag.

E quais os melhores jogos para ocupar os tempos livres durante a quarentena? Teresa Barros tem algumas sugestões: "Depende do número de pessoas na família, com disponibilidade para jogar; da idade dos jogadores; e se gostam de jogos mais ou menos complicados. Vou recomendar jogos de complexidade baixa ou média, que podem ser jogados por dois ou mais jogadores e para maiores de oito anos: um jogo acessível, muito divertido e rápido é o 'Sushi Go'. Um jogo de cartas, publicado pela Devir, que pode ser jogado por dois a cinco jogadores e que normalmente dura menos de 15 minutos. Também recomendo o 'Azul'. É um jogo muito bonito, inspirado nos azulejos portugueses, bastante premiado e que pode ser jogado por duas a quatro pessoas. É um jogo bastante estratégico, especialmente quando jogado a dois, e que normalmente demora entre 30 a 45 minutos".

 Devir Sushi Go! - Devir
Sushi Go! - Devir

"Por fim, recomendo o 'Garum', um jogo português, da autoria do Ricardo Jorge Gomes, inspirado na presença romana na península ibérica. Pode ser jogado por 2 a 4 jogadores, é recomendado para maiores de 8 anos, um jogo muito estratégico e que é publicado pela editora portuguesa Pythagoras", sugere.

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