Aterraram em Lisboa de sorrisos na bagagem e uma sincera surpresa com a receção calorosa do público português – responsável pelos quatro singles que passam nas estações de rádio. Os norte-americanos aproveitaram para uma saída, na noite anterior à do concerto, e, ainda ressacados, chegaram ao Coliseu dos Recreios por volta da hora de almoço.
Depois de esgotarem os bilhetes e de verem o concerto passar do TMN ao vivo para a o Coliseu dos Recreios, os Imagine Dragons tinham consciência de quão altas estavam as expectativas. E admitiram, impressionados, que tocar para tanta gente, na primeira passagem pelo país, era verdadeiramente arrebatador.

Mas antes da atuação dos norte-americanos de Las Vegas, os Cavaliers of Fun tomaram conta do palco. E apenas do palco. Pondo de parte algumas das interações do simpático vocalista com o público (sedento), a primeira parte do ansiado concerto foi sofrível. Com um repertório à base de várias remisturas e um som demasiado experimental para o indie rock dos “Dragões”, os “Cavaleiros” não deslumbraram. Depois de uma reinterpretação de “Time (Better Not Stop)”, dos We Trust, de longe a mais acompanhada pelo público, Ricardo Coelho anunciou a última música da banda. O Coliseu estremeceu com os gritos e desfez-se em sorrisos. «Era suposto dizerem 'ooooooh!', comentou o vocalista perante a satisfação geral.
Não podemos deixar de relembrar que há algo de encantador no Coliseu: uma espécie de magia palpável no ar. E se a casa lisboeta tem um rol de espetáculos extraordinários este estará, de certeza, no topo da lista.
Dan, Ben, Wayne, Daniel e Ryan subiram ao palco, poucos minutos antes das 22h, depois das luzes cessarem. Burburinho, flashes e muita emoção na primeira atuação em solo português. Dançando desajeitadamente – e saltando muito! – foi Dan Reynolds o responsável pela primeira explosão de energia. Os cinco elementos da banda distribuíram-se pelos diferentes instrumentos de percussão – e pelas guitarras – e deram início a um concerto que se adivinha memorável logo pela introdução.
Já sem casaco, Dan aproximou-se do tambor gigante – em muito semelhante a um odaiko – e deu início a “Round and Round” à qual se seguiu “Amsterdam”. “Tip Toe” ofereceu à plateia o primeiro sing along. Visivelmente incrédulo e emocionado, o vocalista levantou o suporte do microfone e ofereceu-o às vozes afinadas que provaram não estar lá só para ouvir os singles.
“Nobody else could take me higher”, o verso oferecido ao público, era uma espécie de dedicatória.

Talvez o mais fascinante, numa banda como esta, seja a capacidade de todos os elementos mudarem de instrumento em poucos segundos e a energia atenciosa e quente que emanam: assemelham-se a uma banda de amigos a tocar para outros amigos numa espécie de garagem gigante. Daniel na bateria tomava conta dos backing vocals e, ainda que gritasse, era quase inaudível.
Tudo escuro, de novo, num interlúdio que nos preparava para “Hear Me”, não sem antes ouvirmos um sentido “Obrigado” de Reynolds. Desfeito em sorrisos e acanhado, perante o barulho esmagador de um Coliseu esgotado, distribuía beijinhos e, quando uma bandeira de Portugal lhe caiu aos pés, as vozes que pareciam já forçadas gritaram ainda mais alto. O norte-americano apanhou-a, abriu-a, mostrou-a ao público, encaixou-a no suporte do microfone e elevou-o num gesto quase épico. «Vocês são espetaculares. Eu não sei o que dizer. Só que vocês são pessoas espetaculares». Com o êxtase estampado no rosto de cada um dos elementos do grupo, e um Coliseu como nunca havia testemunhado, a sétima faixa do álbum dividiu-se entre a alegria contagiante: tanto do público como da banda. No verso “Come With Me” (“vem comigo”), Dan Reynolds fez gestos ao público português, convidando-o a chegar mais perto.
«Isto é apenas o início. Estamos apenas a começar a conhecermo-nos». E, entre os olhos brilhantes e as gargantas roucas, Dan mostrou que é um homem de pessoas: um mobilizador.

«Há uma altura para tudo. Hoje é a noite de nos esquecermos de tudo. Hoje é a noite para não pensarmos na escola, no trabalho, no dinheiro. De apenas existirmos… e estarmos vivos. Sairmos das nossas mentes. Obrigado por nos fazerem viajar. Hoje vocês são capazes de se esquecer de tudo o resto».

Com letras sobre o mundo atual, o sucesso, as dificuldades ou a escuridão, o quinteto provou que veio para ficar e que além de soar bem, também fala às pessoas. Foi na penumbra, com uma luz nas traseiras do palco, que se deram os primeiros acordes de “Radioactive”. Ao som do single que os catapultou numa alucinante – e meteórica - viagem até ao estrelato, o Coliseu entrou num clima de microrevolução. Gritava-se pela música, gritava-se por mais, gritava-se por todos os problemas que Reynolds tinha pedido para deixarmos à porta.
Entre tambores, os elementos foram rodando e mesmo Wayne e Ben chegaram ao maior dos instrumentos de percussão para ajudar a manter o ritmo do poderoso single – considerado pela Rolling Stone “o melhor do ano”. A loucura instalava-se, também em palco, com as picardias entre os membros. Provavam a cada segundo que nem tudo o que se ouve na rádio é assim tão superficial ou comercial.
Já com uma pulseira posta – oferta dos fãs -, o vocalista gesticulou guardando o público no coração. Mais beijos. Havia uma acesa empatia entre a banda e a plateia: a lembrar a relação do público luso com os britânicos Kaiser Chiefs. Ben pegou no violino, no início de novo interlúdio. Gritava-se “Portugal”.

O barulho, de novo ensurdecedor, fez Dan elevar a mão para o público gesticulando “I Love You”. Chegava o momento mais sério e dorido da noite. «A próxima música é dedicada a um grande amigo nosso que faleceu recentemente, Tyler», Dan viu-se obrigado a parar. Toda a plateia começou a gritar por “Tyler”. Vezes e vezes sem conta. Sentido, Dan esforçava-se por continuar. Ainda entre gritos pelo jovem de 17 anos, vítima de cancro, os cinco iniciaram “Thirty Lives”. Um a um, e sem pedido, dezenas de isqueiros se ergueram no ar numa sentida homenagem. Centenas de telemóveis se juntaram para formar um céu estrelado naquela agradável noite lisboeta. E, ao findar da dedicatória ao jovem Robinson, em vez de palmas ouviu-se novamente “Tyler”.

Novo interlúdio, desta feita para todos se recomporem e tempo ainda, para mais um dos elementos mostrar os seus dotes musicais. Iniciou-se “Bleeding Out” que se dividiu entre palmas ritmadas e saltos. «Obrigado, vocês são fantásticos». Um pouco de beatbox de Reynolds e o single "Demons" ouviu-se no afinado coro em que se tinha transformado a plateia. Surge de repente uma divertida reinterpretação do tema “Stand By Me” que, apósum tímido começo, conquistou o público que acedia ao convite de permanecer com a banda… para tudo o que estivesse por vir. A surpresa imprimida na face de Dan era irrefutável e sabia bem.
À medida que começávamos a ouvir “Underdog”, meia dúzia de pessoas da crew ocuparam o palco e largaram balões gigantes – verdes, brancos e amarelos – sobre a plateia. E, mais uma vez, houve espaço para multitarefas. Reynolds dividia o seu tempo entre jogar voleibol com o público e continuar a cantar e até os seguranças soltavam um sorriso quando saíam do seu posto para fazer regressar os balões à plateia. Na pausa para respirar, e mais uma vez tentar interiorizar todo aquele amor do público português, a plateia começou a entoar “Seven Nation Army”, dos White Stripes, e Dan incentivou a que todos continuassem. “On Top Of The World” estava a chegar mas não sem antes o vocalista testar a audiência, cantando até à ponte em acústico. Sinal à banda para entrarem. A moldura humana arrebatadora gritava em uníssono todas as palavras do hit marcado pela boa disposição. Dan riu, distribuiu baquetas, deixou Portugal a cantar sozinho o refrão mais do que uma vez e rendeu-se. «A partir de hoje, esta é a música para Portugal. É a vossa música. Têm sido fantásticos. Não sei mesmo o que dizer, a não ser obrigado. Obrigado por estarem aqui. E nós estaremos de volta. Eu prometo que estaremos de volta. Todas as vezes que partirmos em digressão.»

Já quase ao cair do pano chegou-nos “It’s Time” e Reynolds contava já com três bandeiras de Portugal distribuídas entre o suporte do microfone, o tambor e as suas costas. «Obrigado». Correu entre o público e distribuiu beijos, cumprimentos, partilhou acenos e sorrisos.

E os cinco abandonaram o palco. O Coliseu entoava “On Top of The World” e entre “oh oh ohs” e bater de pés, quinteto retornou fazendo corações com as mãos. Agradecendo efusivamente com uma estranha e fantástica humildade. Foi, acompanhado pela “The Bridge of Khazad Dum”, de Howard Shore, usada em “O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel” e mais recentemente no trailer do novo Super-Homem, que Dan retomou o seu lugar perto do microfone. Erguendo o braço e fingindo voar como o herói da banda desenhada. Olhava o público, comovido, e apostamos que sentia que devia ter feito um álbum maior: para agradecer tudo aquilo. Chegava ao fim uma noite fantástica que fechava com “Nothing Left To Say”. E, mal abandonaram o palco, ainda que sem vontade - nem do público nem da banda - as luzes acenderam-se e a música começou.

Soando muito melhor ao vivo do que em CD, afirmamos que os Imagine Dragons são uma banda a manter debaixo de olho. E que as grandes estrelas do indie e do rock deviam ter algumas lições de humildade com o quinteto. Entre nomes como Matt Belamy, que vive na sua própria galáxia; Brandon Flowers, que se esconde sob a sua timidez, mistério e vedetismo ou Jared Leto, que se sente tão alto que toca em Marte, é interessante ver vocalistas donos de uma entrega como aquela a que assistimos. Uma lição de humildade atroz que nos reforçou a certeza que continuaremos por perto quando eles atingirem o topo do mundo.

Fotografias: Ana Rita Santos

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