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"Língua Franca": Disco junta rappers portugueses e brasileiros e tem bênção de Caetano Veloso

Unidos pela “Língua Franca”, os rappers portugueses Capicua e Valete e os brasileiros Emicida e Rael gravaram um disco em conjunto apadrinhado por Caetano Veloso e que será editado na sexta-feira em simultâneo em Portugal e no Brasil.

Em comum, além de serem rappers e de terem o português como língua materna, “mesmo que em expressões diferentes, com palavras e sotaques diferentes”, Capicua, Valete, Emicida e Rael encaram a música de maneira semelhante, como “uma forma de espalhar mensagem, de transformar o mundo, um compromisso não só enquanto trabalho artístico mas também enquanto missão”, defendeu Capicua, em entrevista conjunta com Valete à agência Lusa.

“A língua, a música (o rap especificamente), e esse posicionamento, essa militância, essa missão, acabam por fazer com que sejamos quatro rappers que temos muito em comum e isso nota-se no disco e na forma como a mistura dos quatro resultou numa coisa tão especial”, afirmou a rapper.

O disco só é editado na sexta-feira, mas o músico brasileiro Caetano Veloso já o ouviu e até escreveu um texto sobre “Língua Franca”, o projeto e o disco. Para Caetano Veloso, “é todo um mundo humano que se representa nessa associação de MC [Mestres de Cerimónias]”.

Para Valete e Capicua, o interesse do músico no projeto “foi incrível”.

“Creio que o Caetano percebeu a importância do disco. Isto é um projeto luso-brasileiro que tem de ser repetido, pode não ser nesta forma. É mesmo uma fusão: na língua, na cultura e na música. Creio que é mesmo uma peça única, muito especial”, afirmou Valete, sublinhando que quem ouvir o disco vai perceber que nele “há muito de música brasileira e muito do que se pratica no hip-hop português mais tradicional”.

Capicua acredita que o interesse de Caetano Veloso em Língua Franca surge também porque o músico é “um militante da Lusofonia, defende a língua portuguesa e divulga-a no mundo”.

“Ele orgulha-se e faz amor com a língua portuguesa nas suas canções. O facto de entender que isto é um contributo para essa missão só nos pode deixar orgulhosos porque partilhamos dessa mesma agenda, desse mesmo objetivo que é, como ele diz, conquistar o mundo com a língua portuguesa”, disse.

Reveja a visita de Capicua e Valete ao SAPO para apresentar "Língua Franca":

O projeto Língua Franca, que é também o nome do disco, surgiu a convite da editora discográfica Sony. A ideia, explicou Valete, era “criar um projeto luso-brasileiro de hip-hop”.

Os produtores do disco – o português Fred Ferreira e os brasileiros Kassin e Nave – juntaram-se durante algumas semanas no Rio de Janeiro, “uma espécie de laboratório”, para “trabalhar nos instrumentais”, contou Capicua.

Mais tarde, num estúdio em Lisboa, foi a vez de os quatro rappers se reunirem para fazer “uma seleção dos instrumentais” que iriam usar, “discutir os temas que seriam abordados” e “quem é que entrava em cada tema”. No fundo, decidir “como seria o esqueleto do disco”.

Nesses dias em Lisboa, “de laboratório e intenso trabalho coletivo”, ficou despachado “quase 80% do trabalho criativo e de gravação do disco”. “O resto foi sendo feito durante o último ano, mais por correspondência”, recordou Capicua.

Um dos temas, “AFROdite”, conta com a participação de Sara Tavares. O convite à cantora portuguesa foi “consensual”. A música, defendeu Valete “tem uma ‘vibe’ super Sara, super-africana”.

Além disso, “fala da beleza da mulher africana e fazia sentido convidar uma mulher africana para a cantar”.

“Achamos que ela representa a alegria e majestade da beleza africana”, referiu Capicua, acrescentando que “resultou muito bem, até porque veio trazer um pouco de África ao disco e a lusofonia também se faz dos países africanos de expressão portuguesa”.

O disco tem ainda um outro convidado, o MC brasileiro Coruja, que traz ao tema “Egotrip” “o reforço do rap brasileiro no disco”.

O projeto apresenta-se ao vivo a 14 de julho no festival Super Bock Super Rock, em Lisboa, num concerto que serão “cinco num só”.

“Vai ser um privilégio para as pessoas porque vão ser cinco concertos num só: Língua Franca, Capicua, Emicida, Valete e Rael e até uma coisa que nunca fizemos que é cantarmos [ao vivo] músicas que temos juntos”, adiantou Valete.

O disco é editado na sexta-feira, mas até lá é possível ouvir os ‘singles’ de apresentação “Ela” e “A chapa é quente” nas plataformas de partilha de música ‘online’.

“Língua Franca” tem, para Capicua, “a grande virtude de não ser um produto que se exporta ou se importa do Brasil ou de Portugal, porque sai no mesmo dia nos dois países”.

“Foi feito a meias, existe nos dois territórios e vive nessa zona comum, nessa zona franca em que a música transcende as fronteiras, em que a língua transcende as diferenças culturais e em que nos encontramos todos nessa mistura entre vários contributos”, acrescentou.

Mesmo que quem ouvir o disco não goste da música, “o significado deste disco é um contributo para essa mistura e para a criação de pontes”. “É um contributo importante e estou orgulhosa de fazer parte”, disse.

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