Ainda sem locais alternativos, porque “arrendar é impossível e comprar é tudo aos milhões”, o futuro do Arroz Estúdios, da Casa Independente, da Sirigaita e da Sociedade Musical Ordem e Progresso (SMOP) pode passar por outras cidades.

Com o aumento dos preços do arrendamento e da compra de imobiliário, residentes e associações têm sido forçados a mudar de zona da cidade ou a encerrar definitivamente. Foi o que aconteceu com o Grupo Excursionista e Recreativo Os Amigos do Minho, na Rua do Benformoso, e o Sport Club do Intendente, no Largo do Intendente, há cerca de cinco anos, e a Crew Hassan, na zona dos Anjos, já em 2023.

A Casa Independente abriu há 11 anos no Largo do Intendente, numa altura em que aquela era uma “zona proibida, perigosa e com todo um peso social que, infelizmente, agora está a voltar”, recordou uma das sócias daquele espaço cultural, Patrícia Craveiro Lopes, em declarações à Lusa.

Recentemente, Patrícia e a sócia, Inês Valdez, souberam que o edifício que ocupam seria colocado à venda e que, por isso, não veriam renovado o contrato de arrendamento em vigor.

“Vamos ter de sair daqui a cerca de dois anos. Deram-nos tempo para digerir, o que está complicado. Estamos à procura de um espaço e está muito, muito complicado. Arrendar é impossível e comprar é tudo aos milhões”, lamentou.

Desde que abriu, a Casa Independente tem sido palco de concertos, exposições, apresentações de livros, cinema, mesas redondas, conferências, residências artísticas e performances.

“Somos um espaço cultural com uma multidisciplinaridade importante, sobretudo porque trabalhamos com artistas emergentes. Há 11 anos os que eram artistas emergentes, hoje já são artistas estabelecidos. Faz parte do nosso círculo de crescimento, que gostaríamos muito de continuar a ter”, referiu.

Para que isso aconteça, já ponderaram levar a Casa Independente para fora de Lisboa. “Claro, porque nos empurram para fora do centro [da cidade] e para fora de Lisboa”, lamentou esta “alfacinha de gema”, que enquanto arrendatária particular também já foi forçada a abandonar aquela zona da cidade.

Patrícia Craveiro Lopes acredita que para evitar o encerramento do espaço que gere, bem como de outros em situação semelhante, “tem de haver algum tipo de regulamentação, que não existe”.

“Estamos no ‘salve-se quem puder’. Precisávamos de uma regulamentação, de algum tipo de estatuto que nos permitisse ter algumas vantagens, e estarmos mais seguros, porque de facto está muito complicado”, defendeu.

Na Casa Independente, que não tem qualquer apoio estatal ou camarário, a Cultura é paga “com os copos” vendidos no bar. Ainda assim, recorreram à Câmara Municipal de Lisboa, para tentar encontrar um espaço alternativo.

“Estamos em conversações. Gostava de achar que vai dar certo, mas não tenho muita esperança”, partilhou.

Também a “falar ativamente” com algumas autarquias - a de Lisboa e outras vizinhas - estão os responsáveis do Arroz Estúdios, um espaço ‘escondido’ atrás de um muro na Avenida Infante Dom Henrique.

O espaço que ocupam foi vendido e o senhorio já lhes comunicou que terão um máximo de seis meses para o abandonar.

“Ainda não temos nenhum espaço para onde levar o projeto. Teríamos preferência de ficar em Lisboa, obviamente, mas se calhar também descentralizar o projeto e levá-lo até outras áreas”, referiu a gestora dos estúdios e residências artísticas do Arroz Estúdios, Cátia Ciriaco, em declarações à Lusa.

O ‘Arroz’ é uma associação sem fins lucrativos que está naquele espaço desde 2019 e tem “uma programação praticamente diária”, que inclui sessões de cinema ao ar livre, concertos, ‘live jams’, eventos de música eletrónica, mercados e exposições.

Além disso, estão ali instalados estúdios de artistas. “É um espaço que promove a criação e a cocriação entre artistas”, salientou.

Encontrar um espaço com uma área semelhante não será fácil, mas, ainda assim, os responsáveis do Arroz Estúdios têm contactado câmaras municipais “para ver se há possibilidade de uma cedência de espaço”.

“Se não for possível, tentamos ver se há possibilidade de arrendar, sabendo que em Lisboa é super-difícil, não só encontrar um espaço com esta dimensão, mas também com uma renda que seja suportável para uma associação como a nossa”, disse Cátia Ciriaco.

Também a Sirigaita, uma associação que acolhe grupos e projetos coletivos, na Rua dos Anjos, a dois passos da Casa Independente, está “a ponderar tudo”.

“Quando as pessoas estão a deixar de viver na cidade, não é por opção, é porque não encontram [onde viver]”, referiu Maria João Costa, membro da Sirigaita, em declarações à Lusa.

Aquela associação, onde todos são voluntários, já recebeu uma carta do proprietário do prédio para deixar, até fevereiro, o piso térreo que ocupa desde o final de 2018 e onde anteriormente funcionava o espaço associativo MOB.

À semelhança da Sirigaita, “muitos espaços estão em risco agora, por causa da dinâmica da mudança urbana, da mudança do bairro que toda a gente conhece”, alertou Marco Allegra, também membro da Sirigaita.

“Com o turismo e toda a economia que vem daí, os preços das casas subiram imensamente. O turismo traz muito dinheiro, mas ninguém cuidou muito das consequências que tudo isso iria trazer para a população e para as coisas de que a população gosta. E acho que isso é um problema muito grande em Lisboa hoje”, defendeu.

O plano desta associação passa por “resistir a este despejo”, sem especificar em que termos.

“Não só por nós. Muitos espaços coletivos têm vindo a fechar, e muitos continuam com as paredes emparedadas, muitos anos depois de estarem vazios. Queremos resistir a esse fenómeno, que é esvaziar a cidade daquilo que é sinónimo de vida. Acredito que é isso que estamos a fazer aqui, a produzir vida urbana. Juntamos pessoas, ideias, é um ponto de cruzamento”, afirmou Maria João Costa.

Embora ocupe um espaço pequeno, além de acolher projetos ligados ao Ambiente, à fruta e legumes biológicos, à Habitação e à inclusão de mulheres que usam drogas e trabalham na rua, a Sirigaita tem “um leque muito amplo de atividades”. “E, sobre isto, atividades artísticas, de artistas que convidamos para vir expor ou fazer concertos. Achamos que devem existir espaços como este e vamos resistir também por isso”, contou.

Numa outra zona da cidade, perto da Rua das Janelas Verdes, o plano da Sociedade Musical Ordem e Progresso (SMOP) é também resistir.

“Este espaço foi comprado há coisa de um ano e tal por um grupo. Querem despejar toda a gente para fazer um hostal”, contou à Lusa o presidente da SMOP, fundada em 1898 e que está no primeiro andar de um prédio na Rua do Conde desde 1892/93, ainda antes da formalização da coletividade.

Naquela zona da cidade “havia uma série de coletividades, mas hoje em dia só há duas ou três, fecharam quase todas devido a esta política de arrendamento”, lamentou Carlos Melo.

A SMOP é uma coletividade sem fins lucrativos, que “trabalha para a comunidade, não só no desporto como na cultura”.

Atualmente, “o desporto está parado, porque o salão precisa de um chão novo” e a coletividade não dispõe de verbas para o reparar.

É o salão que acolhe, desde há um ano e meio, uma programação regular, Sistema SMOP, que inclui teatro, concertos e leituras de poesia. Quando a Lusa visitou a SMOP, decorriam no salão ensaios da peça de teatro “Vermelho é a cor do meu luto”, com encenação de Carla Bolito, que estará em cena entre 25 de outubro e 12 de novembro.

De acordo com Carlos Melo, os novos senhorios “já contactaram a Junta de Freguesia da Estrela e a Câmara Municipal de Lisboa para ver se havia um espaço para a SMOP”.

“Querem dar-nos 200 mil euros pelo salão [construído pela coletividade, na parte traseira do edifício], para o deixarmos. Mas não me interessa o dinheiro. O meu objetivo é não fechar a coletividade, mantê-la com as atividades que tem e incrementar as que não estamos a fazer porque não temos condições para isso”, afirmou.

Sair daquela zona de Lisboa está fora de questão: “Temos de ficar na freguesia, porque os sócios são desta comunidade. Alguns foram morar para longe, mas continuam a ser sócios, mas a maior parte deles reside aqui em redor da coletividade”.

Carlos Melo conta que, além dos sócios, há também “malta nova dos hostals” daquela zona que vai à SMOP “jogar um snooker, beber um copo”.

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