Sofia Marques, produtora que trabalha com vários artistas portugueses, tem um novo projeto e apresenta-se como mema.. A propósito do lançamento do seu novo single, "Perdi o Norte", a artista conversou com o SAPO Mag sobre a sua ligação à música e sobre a sua nova aventura musical.

Começando por uma viagem ao passado: quando pensas em música, qual a primeira memória que tens?

A minha mãe a cantar para me adormecer quando era pequena. A minha mãe sempre cantou para nós (para mim e para o meu irmão). Além disso, os Natais em família. A minha família materna é gigantesca e quando era pequena e nos juntávamos no Natal, o serão era passado a ouvir a minha mãe, tios e tias a cantarem folk, blues e espirituais negros. São ambas memórias que agora vejo me impulsionaram para este caminho.

Quais foram/são as tuas influências?

Andei a ouvir muito FKA Twigs, Lykke Li, Björk e Azam Ali na altura em que escrevi "O Devedor e o "Perdi o Norte". São artistas com sonoridades muito peculiares e isso influenciou certamente o meu estilo e maneira de fazer música. No panorama nacional diria Madredeus e até António Variações, ambos pela sensibilidade e inovação que incutiram na música portuguesa. Têm também aquele lado que liga ao mais tradicional. Madredeus marcou-me particularmente pela sonoridade melancólica, mas é incrível como uma canção deles te leva tanto a esse lado como a um lugar tranquilo ao mesmo tempo.

E quando é que a música se tornou algo "mais sério" na tua vida?

Comecei a escrever aos 12, mas a levar esses rascunhos mais a sério aos 15. Foi por essa altura que entrei para o Conservatório de Música, em Aveiro, para estudar guitarra clássica e voz. No entanto, só decidi começar a editar mais tarde, em 2011, e muito por incentivo de amigos com quem colaborei na altura, hoje ambos bem sucedidos na indústria, um pelo vídeo (Point of View) e outro pelo som (Sine Factory). A partir daí fui compondo mais e mais, focando-me também mais no que queria. O ponto de viragem foi em 2013 quando me mudei para Lisboa. Queria mesmo fazer música para o resto da vida e aí começou tudo a alinhar-se.

E como nasceu este projeto, mema.?

O nome mema. surgiu ainda quando vivia em Berlim, em 2016. Fazia parte de um coletivo de produtores (Strength in Numbers) e queria romper com o meu anterior nome artístico Fia. Estava ligado a coisas muito pessoais para mim e a um estilo musical que já não me representava. O projeto em si surgiu apenas em 2018, em Dublin. Estava já há três anos fora e comecei a sentir saudades de casa. Digamos que sofri do que chamo o "síndrome do emigrante". (risos)

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A saudade leva-nos a valorizar o que tínhamos antes e eu quis redescobrir e aprofundar isso. Fui ao YouTube e andei uns tempos a ouvir grupos folclóricos das Beiras e do Minho, cante alentejano, vi imensos vídeos de adufeiras, viola beiroa, entre outros. Comecei a questionar-me, além da guitarra portuguesa e do fado, que outros instrumentos e melodias se fazem em Portugal? E foi assim que de forma mais ou menos natural introduzi alguns elementos tradicionais na música que fazia. A electrónica de Berlim ficou subconscientemente embutida no meu cérebro após a minha passagem por lá e disto tudo surgiu a mema. e toda esta fusão.

E como o descreves este teu novo projeto?

É um reflexo do que eu sou, é a minha identidade. mema. sou eu. Musicalmente, como um amigo meu o descreveu, é a desconstrução do tradicional e a sua colisão com o indie eletrónico e a música pop. Não o poderia ter descrito melhor. É isto mesmo.

Dás voz, escreves a letra e fazes a produção. Qual o é o maior desafio? Há alguma fase que gostes mais?

Neste momento, o mais desafiante para mim é escrever a letra, porque sou muito picuinhas e demoro muito tempo a encontrar a forma certa para me expressar. Se é que é há uma forma certa. Acho que estamos sempre em contínua mutação interior... A fase de produção é definitivamente a minha favorita. Há nesse processo tantas possibilidades, que se torna fascinante. Uma mesma canção pode tomar várias formas, não apenas falando de géneros musicais, mas também em cenários, ambientes e acima de tudo, do objectivo último da música, o impacto que tem em quem escuta e o que transmite. É uma área em que tenho investido bastante tempo, porque há sempre algo a explorar, algo novo a surgir. A produção é um harém para criativos.

Lançaste um single no passado dia 13 de março. Como descreves o "Perdi o Norte"?

"Perdi o Norte" é o meu tema favorito do EP que vou lançar no final do ano. É o reflexo de alguém que esteve no fundo, mas que apesar disso exala força. É o esvaziar de todos esses sentimentos de confusão, aflição e, por fim, apatia. Sentes que já passaste e que já viste o pior ("vi o coração da terra para onde os homens vão...") e é nesse ponto em que há o "clique" - "algo tem de mudar". Escrevi-o ainda quando vivia em Dublin e estava numa fase meio depressiva. Sentia exactamente isso, que algo tinha de mudar, e foi assim até que começou o projeto e a minha vontade de, de certa forma, honrar o tradicional, fundindo-o com a eletrónica. É um tema forte.

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E sobre o futuro, o que estás a preparar?

Tenho o meu primeiro EP a sair no final do ano, Cidade de Sal. Estou muito ansiosa por o mostrar. Tenho andado a trabalhar nele há um ano e estou muito feliz com o resultado. Há também alguns concertos e colaborações interessantes no horizonte. Quero muito tocar estas canções em palco, cara a cara com as pessoas. Tive oportunidade de o fazer o ano passado em Aveiro e Lisboa e espero poder leva-lo a mais gente este ano. Apesar desta nuvem negra (o COVID-19), que nos sabotou muitos planos, ainda acredito que 2020 possa ser um ano de conquistas a vários níveis. Alguns planos caíram, mas acredito que depois da tempestade vem a bonança, mesmo que com uma nova face.

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