No final do verão de 2020, Arianna Casellas já estava “um bocado aborrecida de tocar sozinha”, no projeto a solo, já tinha testado com outros músicos, mas um concerto a que assistiu no Círculo Católico de Operários do Porto (CCOP) mudou o guião.

“Ouvi o Kauê no CCOP, estava lá com um amigo a dar um concerto. Vi-o a tocar e pensei ‘se calhar posso dizer-lhe para tocarmos juntos’. Disse-me que não era percussionista, que só era batuqueiro. Pensei ‘que bom! Também não sei o que estou a fazer’”, contou à Lusa.

O encontro não deixou logo definido o que estavam a fazer, “foram precisos vários meses em que a vida são várias coisas”. “A gente meio que se apaixonou no processo da coisa, e demo-nos conta de coisas musicais diferentes a acontecer”, resume a música de 25 anos.

Kauê, de 32, lembra-se de que o convite era para acompanhar Arianna no projeto a solo, mas começaram “a passar muito tempo juntos, a tocar muito juntos, e a ouvir muita música”.

Sobretudo desse processo de audição é que surge o projeto Montes, que lança pela Lovers & Lollypops o disco “Vozes Antenas Fragas”, a junção do “som natural e um som mais industrial”.

Além da guitarra e da percussão, da voz, há gravações de campo e a presença não só da cidade como de uma certa ruralidade, entre outras influências.

De passeios pelo Jardim das Águas aos discos que ouviam, de Willy Colón a Massive Attack, Tujiko Noriko, Unsafe Space Garden até “Por Esse Rio Acima”, de Fausto, entre muitas outras coisas, um processo também impulsionado pelo segundo confinamento geral levou a que a criação fosse estimulada.

“Tínhamos um jeito muito parecido de ouvir música. Começámos a ter muitas ideias de fazer coisas muito motivados nessas afinidades como ouvintes, na perceção da música”, referiu Grindi.

Desse processo de “ouvir muita coisa”, relatou Casellas, nasceu uma música que não considera “experimental no sentido mais literal da palavra”, antes que se exprime “melhor com um vocabulário um pouco mais abstrato”, sobre as sensações que provoca do que propriamente pela execução técnica.

Dividido em quatro blocos de canções, o disco foi gravado desde março “em ordem”, ou seja, pela ordem que surge na audição, com a ideia de viagem presente no produto final e no próprio processo criativo.

“Para o desencadeamento dos blocos, pensámos em momentos diferentes do dia. Um com a manhã, outro com as interferências do dia a dia. Uma cena que remete a algo mais escuro...”, conta Kauê, com Arianna a lembrar que o terceiro foi gravado “numa das semanas em que chove todos os dias no Porto e parece sempre o mesmo dia”, um sentimento emulado nas canções.

Pelo “meio tempo” que deu origem a Montes, começaram a viver juntos, num “quarto sem sala” no Centro Comercial Stop, um dos locais icónicos para bandas e experimentação musical da cidade.

“O quarto estava vazio. Construímos a mobília do jeito que desse para ser um quarto, mas também um estúdio. A cama dum lado, o Fender Rhoades do outro, as colunas e o monitor. Era acordar, tomar café e trabalhar ideias”, revelou o brasileiro.

Já Arianna Grindi, que cresceu no centro de Portugal após nascer na Venezuela, aponta para a sensação de que Montes é “também sinónimo de um monte de coisas”, como a cidade “cheia de informação e trânsito”, mas que ao fundo permite ver a Serra da Freita, por exemplo.

“Tem a ver com a procura de uma mesma coisa. Uma série de perceções e buscas parecidas, também”, resume Kauê Grindi.

Descrever o disco é missão “muito difícil”, garantiu a dupla, mesmo que Arianna Casellas arrisque juntar a música que geram aos sons da cidade e mesmo a “referências não-musicais”, da paisagem a sentimentos.

“Diria que para além de todas estas coisas relacionadas com o diálogo entre som natural e som industrial, é mais uma viagem que é feita e que não se importa de apreciar as coisas que vão para além do bonito, do objetivo final. Tem um objetivo final, que é chegar, talvez, ao monte, ou uma ideia de monte, mas há coisas que também têm a sua certa beleza e também merecem o seu espaço sonoro, o protagonismo”, arriscou.

Ao vivo, Kauê Grindi garante que o plano não é “tocar exatamente como está no disco”, aproveitando a “complexidade de texturas e camadas, mas ainda assim muito simples” para colocar a tónica na “performance e interação”.

Para já, a apresentação está marcada para 26 de novembro, no Understage, do Teatro Municipal Rivoli, no Porto, seguindo-se novo concerto no dia 7 de dezembro, no Grupo Experimental de Teatro da Universidade de Aveiro.