"Judas é a personagem mais importante da Bíblia e da vida de Cristo porque é o vilão, o traidor", defende Álex de La Iglesia. "Todas as personagens têm o seu papel, e Judas teve o dele", diz ainda o realizador espanhol ao apresentar a sua nova série, "30 Monedas", durante um encontro virtual com a imprensa no qual o SAPO Mag esteve presente.

"Mas o que acontece às pessoas que dizem não a Cristo, como Judas?", questiona, e garante dar a resposta, ou a sua versão ficcionada de uma resposta, numa saga que combina religião, esoterismo e terror ao longo de uma primeira temporada de oito episódios - e que promete ter continuação.

Álex de la Iglesia

Antes de chegar a Judas, a Cristo e a outras figuras da Bíblia, "30 Monedas" começa por acompanhar o quotidiano de uma pequena localidade espanhola cuja rotina é abalada por um bebé humano aparentemente nascido de uma vaca. Um acontecimento insólito, ou talvez nem tanto quando surge numa história criada pelo autor de "O Dia da Besta" (1995), "A Comunidade" (2000) ou "800 Balas" (2002), filmes de culto que foram habituando os seus fãs a cenas grotescas condimentadas com humor negro.

Álex de La Iglesia, no entanto, garante que não se contenta em oferecer mais do mesmo. "Tento fugir de mim e surpreender-me nos filmes que faço", assinala. "Quando as pessoas falam de estilo, eu falo de doença. Tento evitá-la, mas é impossível. Estou sempre a dizer que o que faço é diferente de 'O Dia da Besta'. Quis fazer algo verdadeiramente profundo sobre Espanha, sobre o mundo, sobre comunidades", sublinha.

"Não quero estar sempre associado à comédia. Adoro cinema de género, mas ao mesmo tempo detesto-o. Quero fazer um filme de terror, mas ao mesmo tempo destruir o género. Quero que tenha algo real lá dentro", salienta a propósito de um projeto onde se levou mais a sério e diz esperar que os espectadores o acompanhem.

"A religião é uma questão muito importante para muita gente. Para falar dela, temos de estar por dentro. E eu estou, sou católico, sei o que estou a dizer quando falo de Judas, tento informar-me sobre estas questões e li muitos manuscritos antes de fazer a série. Tenho muito respeito por Cristo e pela religião, embora a critique ou questione em alguns momentos", assume.

"Um filme é um murro na cara, uma série é uma luta"

Com "30 Monedas", Álex de La Iglesia aventura-se pela primeira vez numa produção feita para um serviço de streaming e regressa a uma série depois de "Plutón B.R.B. Nero", estreada em 2008 na TVE 2. E teve aqui um dos maiores desafios de um percurso iniciado no arranque dos anos 1990. "Fazer uma série é como realizar cinco filmes ao mesmo tempo. Tenho muito orgulho em mim, por isso quero fazer tudo, porque adoro o meu trabalho. Não quero ceder a realização do segundo episódio a outro, quero ser eu a filmá-lo", esclarece. Mas o controlo criativo minucioso tem um preço. "Depois de 28 semanas de filmagens, estou completamente louco, estou destruído, fisicamente exausto. Fiquei doente na fase final, mas ao mesmo tempo diverti-me como uma criança. E acho que quem vir a série também poderá divertir-se. Foi muito duro, mas muito bom".

30 Monedas

Resumindo, "um filme é um murro na cara, uma série é uma luta, uma grande luta". E obriga a um processo distinto. "A forma de contar a história é diferente. Os arcos das personagens são completamente diferentes. A forma de construir as motivações das personagens é completamente diferente. Num filme temos de sintetizar tudo, só podemos mostrar uma parte de uma personagem. Numa série, temos tempo para as desenvolver e para escrever sequências longas". O realizador dá como exemplo dessa liberdade uma cena com um diálogo de 15 minutos no quarto episódio, "que seria impossível de fazer num filme".

Os colegas espanhóis e um ídolo mexicano

"30 Monedas" chega numa altura em que várias séries espanholas se tornaram casos de sucesso, alavancadas pelas possibilidades das plataformas de streaming - de "La Casa de Papel" a "Elite", exemplos não faltam. "Temos pontos em comum a nível social, de sensibilidade, mas não sei se tenho algo em comum com 'A Casa de Papel'", considera o realizador. Mas deixa uma sugestão: "A melhor é 'Vergunza', feita por um génio chamado Juan Cavestany. Talvez não seja muito conhecida no resto da Europa ou do mundo, mas para mim é maravilhosa". O drama, criado também por Álvaro Fernández Armero em 2017, é uma das apostas atuais do canal Movistar+ mas não ainda não passou pela televisão portuguesa.

"Os filmes que estão no meu imaginário são os mesmos que estão no do Guillermo del Toro, por exemplo. Por isso, sim, há ligações entre Espanha, México, Los Angeles... Mas temos de nos focar nas diferenças entre nós".

30 Monedas

De La Iglesia não esconde, de resto, a admiração pelo autor de "O Labirinto do Fauno" ou "A Forma da Água". "Adoro o Guillermo del Toro, é incrível e um dos melhores realizadores do mundo. Tenho muito orgulho em ser amigo dele. Quando vês um filme do Guillermo del Toro, sabes que é mexicano. E vês muitos elementos que também estão nos meus filmes. Ambos adoramos cinema de género, cinema fantástico e somos ambos de países latinos".

Não admira, por isso, que "30 Monedas" também possa vir a ser abraçado por fãs de del Toro, além de apresentar a obra de La Iglesia a uma nova geração de espectadores. A julgar pelo primeiro episódio, não vai faltar suspense salpicado com algum gore, criaturas tão bizarras como ameaçadoras ou enigmas e inquietações entre o sagrado e o profano, com o protagonismo entregue a um padre pouco ortodoxo e pugilista nas horas vagas (o veterano Eduard Fernández, de "Todos Sabem"), um presidente da câmara inseguro mas bem intencionado (Miguel Ángel Silvestre, o galã Lito de "Sense 8") e uma veterinária destemida e independente (Megan Montaner, de "O Aquário de Eva"). E há novos capítulos na HBO Portugal todos os domingos, para muitos o dia de ir à missa - talvez mais um elemento para intrigar espectadores que acreditem em coincidências.

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