Quinta-feira, início da tarde. A cerca de 30 quilómetros de Madrid, em Tres Cantos, tudo está calmo. Não há trânsito e as ruas estão praticamente desertas. Entre grandes e pequenos edifícios, há um que não passa despercebido. Tudo porque à entrada tem o logótipo da Netflix - o serviço de streaming escolheu a capital espanhola para abrir um novo centro de produções, que já se encontra em funcionamento.

Quem por ali passa só pode imaginar as emoções que se vivem dentro daquelas paredes: será que estão a gravar novas séries? Novas temporadas? Um filme? As perguntas podem ser muitas, mas as respostas não chegam cá fora - como em qualquer negócio, o segredo é alma e arma principal. Mas, para antecipar a terceira parte de "La Casa de Papel", que chegou esta sexta-feira, dia 19 de julho, a Netflix abriu as portas do Estúdio 3 a pequeno grupo de jornalistas de todo o mundo.

A visita às gravações da série espanhola, que em 2018 conquistou fãs em todo o mundo, estava marcada para o início da tarde. Na entrada do Estúdio 3, depois do almoço, Denver (Jaime Lorente), Nairobi (Alba Flores) e uma nova personagem dão as boas-vindas vestidos a rigor, com os fatos vermelhos que usaram para assaltar a Casa da Moeda nas duas primeiras partes de "La Casa de Papel".

Além de Jaime Lorente e de Alba Flores, Úrsula Corberó (Tokio), Miguel Herrán (Rio), Esther Acebo (Estocolmo), Enrique Arce (Arturo), Darko Peric (Helsinki), Rodrigo de la Serna (Palermo) e Jose Manuel Poga (Gandia) também estão escalados para as gravações do dia.

VEJA A ENTREVISTA COM OS PROTAGONISTAS DA SÉRIE:

As pistas sobre o que poderá acontecer nos novos episódios podem estar em todo o lado e a grande e principal revelação chega quando as portas do estúdio se abrem: depois do assalto à Casa da Moeda, a equipa do Professor vai invadir o Banco de Espanha, na zona dos Nuevos Ministerios (que servem de fachada), em Madrid.

LA CASA DE PAPEL

No corredor principal do edifício, Abdón Alcañiz, diretor de arte da série, começa por revelar que o interior do Banco de Espanha recriado em estúdio não é igual ao real. "Por fora, vamos mostrar o edifício igual [à fachada dos Nuevos Ministerios], mas por dentro não. Não nos deixaram visitar o interior do Banco de Espanha", conta em conversa com os jornalistas.

"Só reproduzimos a entrada do Banco de Espanha e tudo o resto foi criado, foi inventado", acrescenta, explicando que apenas o hall de entrada está aberto ao público em geral. "Tivemos de criar o interior. Temos aqui [no corredor] uma reprodução de escultura do Valle de los Caídos, da ditadura franquista”, conta.

A dimensão do cenário é duas ou três vezes maior, em relação à primeira temporada da série que foi originalmente criada pelo canal espanhol Antena 3. Com a estreia na Netflix, a história tornou-se um sucesso mundial, sendo eleita pela Academia Internacional das Artes e Ciências da Televisão como a melhor série dramática de 2018, na cerimónia dos International Emmy Awards.

LA CASA DE PAPEL - PARTE 3

O regresso de uma história com final fechado

Antes do sucesso mundial, ninguém esperava o regresso da série para uma nova temporada - o final da segunda parte de "La Casa de Papel" não deixou muito espaço para a história continuar. "Regressar foi algo muito forte e inspirador também. Já tínhamos terminado a série há muito tempo. Já tínhamos virado a página, feito o luto. E de repente, voltamos", conta Úrsula Corberó, que veste a pele de Tokio na série, em conversa com o SAPO Mag.

"Quando fomos convidados a voltar foi uma mistura de sentimentos. O êxito internacional já nos tinha apanhado de surpresa. Para nós, era uma série fechada. Achávamos que tínhamos terminado bem. E foi uma grande notícia a reabertura da ‘Casa’. Mas deixámos claro que não íamos avançar sem um motivo. E avançamos porque encontrámos verdadeiramente uma forma de contar algo maior do que na primeira temporada", acrescenta Jesús Colmenar, realizador e produtor, da série da Netflix.

"São milionários e não tinham nenhuma razão para voltar a fazer um assalto"

Álex Pina, criador de "La Casa de Papel", conta ainda que a equipa demorou dois meses a responder ao desafio lançado pelo serviço de streaming. "Começámos a preparar a terceira parte da série com muito medo, com muito respeito. Acho que refletimos muito para ver se encontrávamos um propósito, que tinha de ser emocional - são milionários e não tinham nenhuma razão para voltar a fazer um assalto e para se juntarem. E encontrámos uma razão emocional que dava sentido a tudo. Demorámos dois meses a encontrar e a decidir avançar", revela o criador da série em exclusivo ao SAPO Mag.

Veja no vídeo a entrevista com Álex Pina e Jesús Colmenar: do sucesso à nova temporada

Ao longo dos episódios da primeira temporada, o Professor e a sua equipa (Tokio, Denver, Berlim, Nairobi, Rio, Helsinki, Oslo e Moscow) fizeram o maior assalto da história, imprimindo milhões de euros. E o final foi feliz, com os assaltantes a conseguirem escapar à polícia.

Como revela o trailer, o arranque terceira parte da série é marcado pelo reencontro do Professor com os seus aliados, que estão espalhados pelo mundo. O motivo? Rio (Miguel Herrán) foi detido pela polícia e o grupo está disposto a tudo para libertar o colega.

Veja o trailer:

Para criar confusão e ajudar o amigo, a equipa do Professor avança para um novo assalto - novamente, o maior da história. "Escolhemos fazer um assalto no Banco de Espanha porque não havia nada mais completo (…) O nível de segurança é tão grande que será quase uma missão impossível", frisa o criador da série ao SAPO Mag, num dos corredores centrais do cenário onde decorrem os novos episódios. "Pensámos: o que podemos fazer de mais complicado e que seja mais interessante para o espectador?", acrescenta.

"Pensava que era impossível melhorar a história. Juro, pensava que seguramente iria ser muito pior. Mas depois de ver os três primeiros episódios e o resto… é incrível. Uma magnitude indescritível e é melhor. As pessoas vão gostar mais”, garante, em português, Enrique Arce, ator que veste a pele de Arturito e que está de volta para a terceira parte da série.

La Casa de Papel: conheça os bastidores da nova temporada

Mas passar a ideia do papel para a realidade foi um desafio. "Na nova parte, a série ficou maior em magnitude e em complexidade. Creio que estamos quase no dobro dos dias a gravar, em relação as duas primeiras temporadas - demorou mais a filmar a primeira parte desta temporada por razões técnicas e de ambição", explica Álex Pina.

Do passado ao presente: cinco tempos simultâneos

Segundo o criador e produtor de "La Casa de Papel", a complexidade da nova temporada deve-se à sobreposição de tempos. "Vamos jogar com os vários tempos, não serão apenas flashbacks. Vamos ter cinco tempos diferentes ao longo de toda a narrativa. Vai abrir novos caminhos e acreditamos que irá funcionar", revela Álex Pina.

Para o criador, "ter vários níveis narrativos vai dar ao espectadores uma série mais activa". "Jogar com os vários níveis narrativos permite-nos mudar de uma cena dramática para uma cena cómica", acrescenta.

la casa de papel

"Nesta terceira temporada, o que mais me surpreendeu foi não haver limites na produção, fazer as coisas à grande”, frisa Úrsula Corberó (Tokio). A opinião é partilhada pelo colega Miguel Herrán (Rio): "Nesta terceira temporada, estou contigo. O que mais me fascinou foi a dimensão e os sítios onde gravámos, os exteriores".

"De repente, essas praias paradisíacas… e muitas outras coisas que gostava de dizer, mas não posso", acrescenta a atriz que veste a pele de Tokio na série da Netflix.

Para os novos episódios, a produção e o atores da série viajaram para mais de 50 locais - fora e dentro de Espanha. "Gravámos, por exemplo, na Tailândia e no Panamá. Fomos a uma ilha desabitada e tivemos de construir lá uma casa. Foi um desafio porque demorávamos três horas a lá chegar de Jeep… era muito complicado levar o material. E só gravámos lá um casamento", conta Abdón Alcañiz, diretor de arte da série.

Mas é no estúdio 3 do centro de produção do serviço da Netflix, em Madrid, que a "loucura acontece". "Viajámos para vários sítios, mas a loucura está a ser aqui", garante Alba Flores (Nairobi) em conversa com o SAPO Mag na biblioteca do Banco de Espanha.

LA CASA DE PAPEL
A BIBLIOTECA

"Nesta temporada, a biblioteca é como a sala de descanso - o sítio onde estavam guardados os telemóveis na primeira e segunda temporada", explica o diretor de arte. Para a decoração do espaço, foi contratado um artista que pintou mais de 50 quadros - nas paredes há vários retratos, alguns deles inspirados em familiares do elenco e da equipa da série.

Durante a visita guiada, Abdón Alcañiz revela mais alguns detalhe: a limpeza nos cenários é muito superficial, para que seja visível algum pó; os candeeiros da decoração não podem ser em forma de bola, têm de ser meias luas; no gabinete do governador do Banco de Espanha foi criada uma casa de banho porque no sétimo episódio uma personagem vai ter de tomar banho.

Estes são alguns dos pormenores a que equipa responsável pelo cenário tem de estar atenta. "A base da equipa é a mesma, mas tivemos de juntar mais gente à família", revela o diretor de arte.

Veja na galeria algumas fotos dos bastidores da série:

Corredores, biblioteca, sala do governador e elevadores são alguns dos cenários interiores dos novos episódios. O salão de entrada do Banco de Espanha também será um dos locais principais de toda a ação. Na visita, já reta final das gravações, Miguel Herrán (Rio), Alba Flores (Nairobi), Jaime Lorente (Denver), Darko Peric (Helsinki) e Esther Acebo (Estocolmo) protagonizam uma cena com abraços, lágrimas e alegria - será um reencontro? A resposta só chega em julho.

As novas personagens

LA CASA DE PAPEL - PARTE 3

Além das caras conhecidas das primeiras temporadas, os novos episódios vão contar com personagens novas. Rodrigo de la Serna vai juntar-se ao elenco para vestir a pele de Palermo. Já Jose Manuel Poga será Gandia.

"Foi difícil entrar na série. Entrei devagar, pé ante pé, sozinho. Era uma família que já funcionava muito bem, que tinha vivido coisas muito intensas nas gravações e depois das gravações com o furor a nível mundial. Entrei com muito respeito, com muita humildade", conta o ator Rodrigo de la Serna. A opinião é partilhada também pelo colega: "A mim também me receberam bem desde o primeiro dia. Sinto-me em casa".

la casa de papel

O sucesso mundial da série ditou o seu regresso, mas Enrique Arce (Arturo) não esperava ser convocado. "Eu pensava: f***-se, se voltarem para lá… eu fico de fora, como outros companheiros que não estão na série. Mas eles pensaram que era uma preciso uma personagem trágico-cómica como a minha, disseram que queriam que eu voltasse. Achava que seria uma personagem muito mais fechada, dois episódios ou três… Mas vou estar a temporada inteira", conta, revelando que se a sua personagem fosse um assaltante, gostava que se chamasse Porto.

O sucesso mundial

As duas primeiras temporadas de "La Casa de Papel" conquistaram milhões de espectadores em todo o mundo -A produção espanhola tornou-se a série de língua não inglesa mais vista quando as partes um e dois foram lançadas na Netflix, em 2018. Úrsula Corberó (Tokio), Jaime Lorente (Denver), Alba Flores (Nairobi), Miguel Herrán (Rio), Esther Acebo (Estocolmo), Enrique Arce (Arturo), Darko Peric (Helsinki), Pedro Alonso (Berlim) e Álvaro Morte (O Professor) tornaram-se estrelas conhecidas em todo o mundo.

LA CASA DE PAPEL - PARTE 3

Apesar de num dos atores ter ainda visitado a cidade que dá nome à sua personagem, Alba Flores e Jaime Lorente confessam ao SAPO Mag que deram uma ideia à Netflix: fazer uma digressão mundial. "Podíamos fazer uma digressão, todos juntos, a todas as cidades", sugere o ator que veste a pele de Denver.
Miguel Herrán admite que ainda não visitou o Rio de Janeiro e que tem algum receio de o fazer sozinho. "Nunca estive no Rio de Janeiro, sei que há muitos fãs a pedir para ir ao Rio de Janeiro. Tenho muita vontade, mas também tenho algum medo", confessa.

"Há dias em que desfruto por ser uma pessoa conhecia e dias em que não. Há dias em que adorava ser uma pessoa anónima e poder viajar tranquilamente e jantar com a minha mãe sem estarem sempre a tirarem fotos", acrescenta.

Na biblioteca do Banco de Espanha, Úrsula Corberó conta ainda que se apercebeu que "La Casa de Papel" se tinha convertido num fenómeno mundial quando foi a um evento da Netflix em Roma: "Quando fomos a Roma, foi quando nos apercebemos da situação porque foi a primeira vez que saímos de Espanha".

"Uma vez, tive uma conversa com o Pedro Alonso, o Berlim, que me disse: ‘bem, Úrsula, isto vai passar, temos de ter os pés na terra porque e tal… Eu disse: ‘sim, mas também é bom sentir que és uma super estrela, às vezes. Pode ser divertido. Temos de aproveitar”, lembra a atriz que dá vida a Tokio, confessando que fica sempre impressionada quando vê que alguém faz uma tatuagem com a sua cara: "É uma coisa que me choca. É muito forte".

LA CASA DE PAPEL

O regresso de "La Casa de Papel" está marcado para o dia 19 de julho, na Netflix, e promete grandes emoções: "Vai ser emocionante", garante Darko Peric (Helsinki); "Explosiva", acrescenta Esther Acebo (Estocolmo); "Um triplo salto mortal", frisa Alba Flores (Nairobi); "Um surpresa", promete Miguel Herrán (Rio); "Única", sublinha Úrsula Corberó (Tokio).

Antes de revelaram ao mundo como correu o assalto, o grupo deixa um aviso aos fãs portugueses: "Há uma surpresa grande para os portugueses no primeiro episódio", revelou 'Helsinki' em exclusivo ao SAPO Mag.

* O SAPO Mag viajou até Madrid a convite da Netflix.

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