Confesso que as expectativas eram baixas: a saga Hannibal encontrou no cinema um beco sem saída com «Hannibal - A Origem do Mal» (Hannibal Rising, 2007), a última adaptação deste vilão clássico que ganhou esse estatuto fruto da interpretação memorável de Anthony Hopkins em «O Silêncio dos Inocentes» (The Silence of The Lambs,1991); e atualmente existe uma saturação de crimes hediondos e serial killers na televisão. No entanto, «Hannibal», graças a Apéritif e Amuse-bouche (os títulos geniais do primeiro e segundo episódio), e até prova em contrário, apresenta-se de gala na sua versão televisiva numa adaptação que deseja ser fiel à obra de Thomas Harris (escritor da saga literária), performances que ficam na memória e valores de produção dignos de uma longa-metragem

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Bryan Fuller, o responsável pela adaptação, demonstrou no passado o seu talento com o incrível imaginário de «Pushing Daisies». Este argumentista, nascido em 1969, começou a dar os primeiros passos na escrita televisiva com Star Trek: Deep Space Nine, passou por duas séries de “nicho”, «Wonderfalls» e «Dead Like Me», e pelo meio adaptou para televisão «Carrie», o clássico de John Carpenter. Também é recordado pelos fãs da sua escrita pela passagem em «Heroes», uma série que teve o seu melhor período quando era o seu escriba e que começou a ver o princípio do fim precisamente com a sua saída. Pelas suas credenciais, Fuller afirmou-se como um verdadeiro autor: as suas criações têm identidade, são genuínas e centram a energia nos seus personagens.

Uma dupla mortífera

Em termos cronológicos, a ação desenrola-se antes de Lecter ser capturado. O autor inspirou-se em cinco páginas do romance «Dragão Vermelho» que relatam um acontecimento que marcou psicologicamente o passado do detetive Will Graham sobre a sua caça a um serial killer no Minnesota, evento que o aproximou de Lecter: o primeiro arco de história relata precisamente a relação, a amizade e a cumplicidade entre o agente do FBI e o Dr. Hannibal Lecter, então psiquiatra e consultor do departamento,

Os episódios apresentados distanciam-se claramente do modelo do psicopata du jour, uma escolha que está presente na narrativa mas não assume posição central pela opção do enredo explorar em primeiro plano os demónios de Will Graham e o surgimento em cena de Lecter. É o princípio por detrás de cada episódio: inicia-se uma relação orgânica entre aqueles que serão no futuro antagonistas numa clara exploração das suas mitologias.

Um elenco gourmet

O britânico Hugh Dancy é uma escolha invulgar para o papel, e possivelmente este é o principal motivo pelo qual o ator se adapta tão bem ao desempenho do agente especial Will Graham, uma figura fragilizada e consumida por dúvidas existências. Trata-se de um personagem reservado que aprecia o seu espaço e envolve-se profundamente com os casos que investiga ao tentar definir no seu íntimo a linha entre o bem e o mal.
Como Lecter, Mads Mikelsen cria o seu green card perante o público norte-americano: a sua carreira que já teve pontos altos a nível europeu (e mesmo com a interpretação do vilão de «Casino Royale»), mas dá um salto significativo com esta representação: ele encarna o personagem na sua plenitude e não é tarefa fácil substituir uma figura que tem a face e a alma assinada por Anthony Hopkins, mas este dinamarquês tem o requinte e a frieza para levar este personagem a lugares nunca antes explorados e a sua presença em cena é polarizante.

Nos papéis secundários destacam-se três personagens e atrizes que equilibram o “bromance” e exploram outros fios narrativos: Hettienne Park (Beverly Katz) é uma investigadora forense que tenta compreender o pensamento instintivo de Will Graham, criando um subtexto entre a ciência e a razão; Alana Bloom (Caroline Dhavernas) é uma professora e espécie de tutora e guardiã da consciência de Will, enquanto Freddie Lounds (Lara Jean Chorostecki) é uma repórter abelhuda que se aproxima invariavelmente demasiado do fogo. E uma das surpresas da série é a reabilitação de Lawrence Fisburne como agente Jack Crawford, que tem um papel à altura dos seus predicados: observem-se os momentos com Mads Mikkelsen e Hugh Dancy. As múltiplas cenas de interpretação genuína entre os diversos atores são momentos de performance artística e qualidade na direção que não estão relacionados com o frenesim de cortes na montagem.

David Slade, o esteta de serviço

O autor da série afirmou em entrevista que a maior referência criativa do ponto de vista visual de Hannibal foi «Caçada ao Amanhecer» (Manhunter, 1986), de Michael Mann (a primeira adaptação de «Dragão Vermelho» e de Dr. Lecter ao ecrã). Para a criação do padrão visual foi escolhido David Slade, um realizador que começou a sua carreira na publicidade e estreou-se da melhor maneira no cinema com «Hard Candy» (2005) e «30 Days of Night» (30 Dias de Escuridão), tendo para televisão criado o episódio-piloto da surpreendente «Awake» (2012), série também produzida pela NBC. Em «Hannibal», ele realiza três episódios, incluindo o primeiro e o último.

Os momentos iniciais do primeiro episódio são marcados por uma energia visual que se torna um padrão na série. Os flashbacks são pontuados com um pêndulo que cruza o ecrã e reconstitui os crimes que são investigados e a utilização do digital e o super slow motion explora perversamente o lado artístico do homicídio em elementos que se demarcam do que vemos atualmente no ecrã. Digamos que depois de Amuse-bouche, o segundo episódio que é algo mais do que diversão para os nossos paladares, não voltaremos a olhar da mesma forma para os cogumelos...

Também importa referir que David Slade abre “janelas” de interpretação com os seus atores em conversas em espaços fechados, à mesa e em diversas reuniões – o primeiro episódio é idêntico a uma longa-metragem, com as cenas a terem o tempo certo e as performances a permitirem criar um perfil dos personagens em tempo recorde, procurando-se um surrealismo nos acontecimentos e na memória de vítimas e homicidas, detetives e serial killers.

Produção de luxo com um pé no cinema

Os valores de produção são altíssimos: da frieza analítica do gabinete de Lecter aos escritórios do FBI e especialmente às localizações exteriores de Hannibal, o público é transportado e envolvido na trama; a combinação de Slade com Fuller (veja-se a riqueza e o detalhe dos cenários de «Pushing Dasies») só podia resultar numa criação que brilha aos olhos dos espetadores. A série também conta no menu criativo com José Andrés, um mediático chefe culinário que é o consultor das refeições de Hannibal Lecter e, como seria de esperar, existem inúmeros trocadilhos visuais entre os acontecimentos no ecrã e o conteúdo nos pratos gourmet do canibal mais popular do mundo.

A primeira temporada de «Hannibal» tem 13 episódios e segue o modelo da televisão por cabo nos Estados Unidos com temporadas mais curtas, episódios menos formatados e liberdade na violência gráfica mas sem dúvida mais “art-house” de Matthew Barney («Cremaster 3») do que o “slasher” de Kevin Williamson («The Following»). A estreia marca também uma nova tendência na televisão centrada na adaptação de filmes para séries, como acontece atualmente com, entre outros, «Psico», através de «Bates Motel» (inspirado pelo clássico de Hitchcock) e os anunciados «Gangs de Nova Iorque», «Fargo» e «O Código Base».