A realizadora brasileira Laís Bodanzky defende que é preciso questionar a História que só dá a visão dos vencedores, porque se houve um herói também houve um oprimido, afirmou em entrevista à agência Lusa.

Laís Bodansky estará no domingo no encerramento do festival de cinema IndieLisboa para apresentar "A viagem de Pedro", um filme que imagina a travessia atlântica de Pedro I, imperador do Brasil (Pedro IV de Portugal), em 1831, abdicando do trono brasileiro rumo a Portugal para enfrentar o irmão, Miguel I.

A narrativa do filme é praticamente centrada na viagem do imperador português, a bordo de uma fragata inglesa, onde seguem nobres, escravos e africanos livres.

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Mais do que fazer um filme biográfico sobre Pedro I, Laís Bodanzky quis dar a sua leitura de quem foi aquele monarca, acrescentando uma visão que não está nos manuais e nos livros.

"É ter a possibilidade de me aproximar dessa figura heroica, humanizando, mostrando os seus defeitos e as suas angústias. Não é um semi-deus. [Queria] mostrar esse lado mais íntimo. Eu queria fazer um filme sobre o Pedro e não sobre D. Pedro", afirmou à agência Lusa.

"A viagem de Pedro" é uma coprodução luso-brasileira, a partir de uma ideia do ator Cauã Reymond, que propôs à realizadora a criação de um filme sobre Pedro I, que liderou e declarou a independência do Brasil em 1822, que outorgou a primeira Constituição brasileira, e que teve uma intensa vida amorosa.

Para a pesquisa, a realizadora recordou que teve acesso a vários documentos e estudos históricos, mas não encontrou quase nada sobre o que se passou na viagem, quando Pedro I abandonou o Brasil. Ainda tentou, sem sucesso, aceder aos diários do imperador, depositados no Museu Imperial, em Petrópolis.

"Tentámos muito e não conseguimos. Tive uma bela desculpa para eu poder imaginar o que poderia ter acontecido nessa viagem, com essa personagem, dentro desse contexto político. Tive a liberdade de transformar o barco num microcosmo do que era o Brasil naquele momento, esse barco como todos esses andares e classes sociais e dinâmicas de relacionamentos e ele vagando em alto mar", afirmou Laís Bodanzky.

A viagem de Pedro

"A viagem de Pedro", protagonizado por Cauã Reymond, estreia-se no dia 19 em Portugal, numa altura em que o Brasil se prepara para assinalar os 200 anos da independência, a 7 de setembro.

Dois séculos depois, Laís Bodanzky considera que Pedro I "é visto como um fanfarrão, um mulherengo, uma pessoa que não teve estudos, ignorante. Não é respeitado, não é estudado. Quando ele sai do Brasil, ele não era querido pela elite económica nem pelas pessoas nas ruas".

Com o filme, a cineasta também quer refletir sobre os que ficam para a História como heróis.

"Quem constrói a estátua passar a importância de um facto ou de uma pessoa, mas normalmente você não tem um herói se não tem os oprimidos por aquela pessoa. E estátua dos oprimidos nunca é feita. Questionar as estátuas é questionar a História, a História é contada por vários pontos de vista e até a esse momento ela foi contada sempre pelos vencedores. E no Brasil a gente vive hoje um movimento muito importante de revisitar a nossa História", disse.

As celebrações dos 200 anos da independência acontecerão em setembro um mês antes das eleições presidenciais no Brasil.

"Ficou claro que essa extrema-direita [no Brasil] tem essa reverência, esse olhar não crítico sobre a independência, sobre essa personagem. Porém, a população brasileira, eu noto que vem numa sequência de questionamentos, principalmente no movimento negro. É um questionamento sobre essa independência e não uma celebração. Será que o Brasil deixou de ser colónia ou não?", perguntou a realizadora.

"A viagem de Pedro", rodado no Brasil e em Portugal conta ainda com as interpretações de Victoria Guerra, Luise Heyer, Francis Magee, Isabél Zuaa, Rita Wainer, Welket Bungué, Isac Graça, Luísa Cruz e João Lagarto, entre outros.

Depois de Lisboa, Laís Bodanzky e parte do elenco apresentarão o filme no dia 11 no Cinema Trindade, no Porto.

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