O presidente do Instituto do Cinema e do Audiovisual (ICA) defendeu hoje (21) que estes dois setores de atividade sairão da pandemia "ainda mais frágeis", porque as respostas ao problema não poderão apagar "50 anos de crise" na gestão cultural.

Foi essa a perspetiva que Luís Chaby Vaz revelou numa entrevista tornada pública nas redes sociais do FEST - Festival Novos Realizadores Novo Cinema, realizado todos os anos em Espinho, no distrito de Aveiro, e que agora tem em curso um ciclo dedicado à "nova realidade" do setor, depois da pandemia de covid-19, "O Estado Atual e Futuro da Indústria do Cinema no contexto nacional".

"Os nossos setores do cinema e do audiovisual já estavam frágeis e não é expectável que, num contexto de crise internacional, venhamos a sair disto muito mais reforçados. É o contrário: se já estávamos frágeis, mais frágeis vamos ficar", afirma o responsável

Sobre a possibilidade de, entre tantos setores económicos em risco de sobrevivência, a indústria cinematográfica ser desconsiderada nos apoios estatais, o presidente do ICA também não está otimista: "Não tenho receio nenhum [disso]; tenho a certeza que é uma realidade".

Luís Chaby Vaz sustenta essa previsão no histórico da gestão cultural nacional. "Não é pelo facto de haver uma pandemia que vamos resolver 50 anos de crise que temos para trás. Temos um peso financeiro e orçamental - e, decorrente disso, também político e social - que é muito inferior ao que ambicionamos. Esta é uma realidade pré-pandemia e nunca me irá surpreender que os apoios que o setor do cinema recebe não sejam iguais aos de outras áreas da economia. Os apoios dados à cultura serão sempre poucos".

Referindo que o ecossistema de produção nacional e internacional "está a ser fortemente impactado" pela pandemia, que há "milhares de profissionais em dificuldades crescentes para sobreviver", e que a perda de receitas publicitárias com origem televisiva vai asfixiar ainda mais o orçamento do ICA, Luís Chaby Vaz antecipa que só em 2022 seja retomada a "normalidade orçamental" do organismo tutelado pelo Ministério da Cultura, para apoio à produção cinematográfica nacional.

Plataformas de streaming podem ajudar na retoma?

Nuno Lopes em "White Lines" (Netflix)

Na recuperação será decisiva, por sua vez, a entrada em vigor da legislação que obrigará plataformas de 'streaming' a contribuírem com parte da sua receita para o orçamento público do audiovisual. A respetiva diretiva internacional "está em processo de transição" para o sistema legal e permitirá, por exemplo, "transformar a Netflix não só num 'player' importante do ponto de vista do consumo, mas também ao nível da contribuição financeira para o setor".

Em todo o caso, Luís Chaby Vaz garante que não há qualquer investimento do Estado na recente parceria estabelecida entre ICA e Netflix para produção de conteúdos em Portugal.

"Atendendo ao facto de eles [Netflix] não terem nenhuma estrutura produtiva no país, solicitaram ao ICA apoio administrativo e logístico, e nós entendemos que, embora sendo essa uma entidade privada, neste momento o setor precisava, de forma muito célere, de ter projetos a andar", declara.

O presidente do ICA espera, aliás, que se sigam outras colaborações com idênticas vantagens: "Esta é uma oportunidade que temos para demonstrar a nossa capacidade de trabalho, a nossa capacidade de contar histórias e de interessar públicos globais".

Se há aspetos positivos a resultar da pandemia, Luís Chaby Vaz inclui neles a aprendizagem envolvida na adaptação profissional a questões sanitárias que introduziram "uma incerteza cataclísmica nas rodagens", e a exposição que o setor conseguiu junto da própria máquina do Estado, obrigando-o a desenvolver medidas de apoio fiscal e social ajustadas à área cultural.

"Foi uma maneira de pôr o dedo no ar, de dizer que somos diferentes, que temos as nossas especificidades e que não é por isso que devemos ficar de fora. Pode ser uma boa porta de entrada para o reconhecimento das particularidades do setor e vai obrigar as empresas a terem como interlocutores outras entidades que não apenas o Ministério da Cultura, ganhando uma nova frente de relação institucional também com os da Economia e da Segurança Social", afirma.

Outro domínio que pode sair fortalecido do isolamento imposto pelo vírus SARS-CoV-2 é o da escrita e desenvolvimento de obras para a indústria. "Esses são os poucos projetos que podem manter o seu ritmo de execução e, se as restrições da pandemia obrigarem a um confinamento por prazo muito superior, parece-me mais ou menos incontornável que o financiamento de apoio direto à produção vai ter que ser redirecionado para a escrita e desenvolvimento", conclui o presidente do ICA.

"A Nova Realidade da Indústria Cinematográfica depois da pandemia COVID-19 - O Estado Atual e Futuro da Indústria do Cinema no contexto nacional" é uma iniciativa do FEST - Festival Novos Realizadores Novo Cinema, que envolve entrevistas, divulgadas ou a divulgar, a profissionais do setor, como o presidente da Academia Portuguesa de Cinema, Paulo Trancoso, a produtora Maria João Mayer, o realizador Rodrigo Areias e o operador de câmara Leandro Vaz da Silva.

Os realizadores Ken Loach ("Eu, Dabiel Blake") e Peter Webber ("A Rapariga do Brinco de Pérola"), os produtores Christine Vachon, Ilann Girard, Martin Samper e Paul Miller, a técnica de pós-produção Polly Duval, a atriz Melissa Leo e a diretora de 'casting' Nancy Bishop são outras personalidades ouvidas pelo FEST, cujos testemunhos podem ser ouvidos nas redes sociais do festival (You Tube, Facebook e Instagram).

Na sua edição de 2019, o festival reuniu 250 filmes na competição internacional e 800 participantes de vários países no respetivo programa de formação.

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