Por Roni Nunes, em Berlim

Um festival internacional que se configura como um dos grandes bastiões mundiais do cinema de autor não seria o lugar mais provável para encontrar Cynthia Nixon, a Miranda de “O Sexo e a Cidade”. Mas já há algum tempo que a atriz da popularíssima série televisiva, encerrada em 2004 e que rendeu duas longas-metragens posteriores nas quais também entra, busca claramente refazer a sua carreira por outros caminhos.

No último ano, Nixon circulou por Sundance, Locarno e outros festivais com obras independentes, como “The Adderal Diaries”, “James White” e “Stocholm, Pensylvania”.

Em “A Quiet Passion”, do britânico Terence Davies, conhecido por seus lentos e melancólicos passeios por temas literários, ela interpreta a poetisa Emily Dickinson, que viveu no início do século XIX.

SAPO MAG (S.M.): Quais foram as suas referências para compor Emily Dickinson e porque decidiu interpretá-la?

Cynthia Nixon (C.N.): As minhas referências são da minha infância. A minha mãe adorava-a, não só lia a sua poesia como também tínhamos umas gravações com poemas e cartas que ouvíamos e praticamente memorizávamos. Eu já tinha uma ligação com ela. Era ótimo ter a oportunidade de interpretá-la, mas também de trabalhar com Terence. Adorei o guião, embora não o tenha entendido imediatamente. Fiquei espantada com ele, era um projeto ambicioso, abrangia toda a sua vida e não só um ano. E o facto de ele ter dito que o tinha escrito a pensar em mim… Bom, não se ouve isso todos os dias.

E sente ter algo em comum com Emily?

Sim. Quando era criança, por exemplo, eu era filha única, muito tímida em grupos e relutante em me apresentar.

Mas decidiu ser atriz…

Adorava os filmes, o teatro e o que via com a minha mãe. E via a beleza dos atores, a emoção das pessoas que estavam ligadas ao meio.

É uma pessoa de convicções pessoais fortes, assim como nos seus posicionamentos públicos. De que forma vê Emily Dickinson neste sentido?

Ela era muito individual, não era uma pessoa que se juntasse a movimentos sociais, independentemente de acreditar neles ou não. No seu tempo ela lutou, não só como mulher, mas como alguém da classe média, com o que era apropriado para uma mulher publicar. Eu acho que ela retirou muito da sua força das irmãs Bronte. E, não o mencionamos no filme, mas também da Elizabeth Browning. Eu não penso nela como uma romântica, mas como alguém que gosta de autores românticos.

Acho que ela pensa que precisava de encorajamento das autoras mais antigas, mas achava inadequado publicar materiais daquele género. No geral, acho que a Emily se achava muito aquém daquilo que valia. O fantástico neste filme é que pude interpretar várias fases da vida dela, desde o seu otimismo e a sua esperança na juventude até o amargo desapontamento e a terrível dor do final.

Papéis fortes como este tornam-se importantes na carreira a partir de uma certa altura…

Sim, é verdade. Daqui a poucos meses entro nos 50 e como atriz tenho de ter papéis que tenham que ver comigo, mas também com a minha idade. Entre os 25 e 35 estás na categoria das leading ladies, mas depois começam os papéis mais interessantes. O que tento é crescer como profissional. A minha carreira teve altos e baixos, mas mantive sempre o foco na longevidade. Acho que tenho sorte por viver numa época em que há mais histórias sobre mulheres mais velhas.

Não há sexo, não há cidade, mas há comédia… Isso é que não é natural num filme de Terence Davies...

Quando estivemos nas exibições aqui em Berlim ficámos encantados ao ouvir as gargalhadas. Terence disse que não queria fazer uma Emily triste.

Falando na famosa série de TV, ela está viva ou é um capítulo fechado na sua vida?

Como poderia não estar viva? (risos). Está bem viva…e em todo o mundo. É espantoso, tanto entre as pessoas mais velhas como mais novas que encontro. Agradeço à série, sem ela não teria tido tantas oportunidades. Mesmo no caso deste filme, pois posso supor que Terence não seja propriamente um fã… (risos).

 “A Quiet Passion” ainda não tem data de estreia agendada para Portugal.

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