NE TRAVAILLE PAS (1968-2018)

Depois do chinês “Present.Perfect”, a Competição do IndieLisboa propõe outro retrato do mundo contemporâneo através dos novos meios tecnológicos, compondo uma espécie de “trilogia” que será completada amanhã com “Jessica Forever” – obra que figura também na secção Herói Independente deste ano. Diferente da obra asiática, no entanto, neste caso e conforme indicam as datas do título, há a sugestão de alguma interligação com o passado, mais especificamente com o Maio de 68.

Uma música eletrónica minimalista serve de fundo para uma longa colagem de signos que surgem sem diálogos e que, de forma fragmentada, oferece uma visão globalizante de um mundo que parece ter perdido a capacidade de se focar e digerir a exposição ao caos visual.

Enquanto segue a vida de um casal de estudantes de Belas-Artes, o filme mostra a sua relação amorosa interligada com um universo desconstruído e sem que as peças do quebra-cabeça encaixem necessariamente.

Diluída em artefatos tecnológicos (uso dos telemóveis), infinita exposição ao “marketing”, discursos políticos tão vazios de significado (mediante atos terroristas) quanto repleto deles (Trump a sair do Acordo de Paris), este vencedor do Fipresci na Viennale relaciona o mundo moderno com o desespero pelo retrocesso de algum tipo de ordem.

Neste sentido, os 50 anos do Maio de 68 surgem fantasmagóricos através dos grafites que emolduravam as palavras de ordem de um outro tempo. Talvez por isso o realizador César Vayssié sugira que o filme como “não indicado a maiores de 50 anos”. Mas talvez a maior razão seja demonstrar ícones significantes de diluição e da impossibilidade de qualquer revolução.

AUGUST AT AKIKO'S

Uma indicação (quase) sem música para o IndieMusic, focada em Alex Zhang Hungtai, que transitou anos com a banda-de-um-homem-só nos Dirty Beaches.

Um dos “statements” de alguém que já viveu em muitos lugares (Lisboa incluída, onde permaneceu durante um mês e realizou um concerto de músicas inéditas em homenagem à cidade, “Landscapes in the Mist”, em 2014) reflete a sua admiração por Wong Kar-wai e aquilo que para ele é o seu tema – “a passagem do tempo e a forma como isso distorce a nossa relação com todo o resto na vida. A personagem central de Dirty Beaches é um produto destas experiências, de alguém a viajar longas distâncias à procura de algo, no exílio, fora do lugar, sem uma casa para retornar”.

“August at Akiko’s” é meditativo e demonstra isso mesmo: um homem que retorna ao Havai depois de muitos anos e embrenha-se desordenadamente, com a sensação de estranheza tantas vezes descrita pelo músico, por uma “floresta” de sons, sensações e imagens que o interliga de alguma forma a um mundo ancestral e místico – onde não estranham momentos que sugerem uma comunicação com os mortos através da meditação.

Acolhido numa espécie de pensão “zen” (gerida pela Akiko do título), ele é “engolido” por um universo para além das definições – algo exposto numa tabuleta no interior de um dos quartos do local: “Como convidado não deixe nenhum rasto, nenhuma imagem. Na verdade, deixe apenas uma ‘presença’, um sentimento de que, por um momento, você amou um lugar tão profundamente que ambos se tornaram mais bonitos, mais naturais, inseparáveis um do outro”.

HOTEL IMPÉRIO

Depois da seleção para a Competição do Festival de Berlim com “Cartas na Guerra”, em 2016, Ivo M. Ferreira retorna com um retrato imaginário de uma cidade onde vive há 20 anos.

Em “Hotel Império”, Macau surge como pano de fundo de um projeto onde o intuito do cineasta é mais o de contar uma história e imaginar um território que só lhe aparece por fragmentos, do que propor algo “real” que ficaria melhor nos documentários.

Na história, Margarida Vila-Nova vive a herdeira de um hotel que já foi luxuoso, mas agora está em decadência e sob o jugo da especulação agressiva. O filme foca outras personagens num enredo simbólico sobre a extrema aceleração de uma cidade que vai substituindo o velho pelo novo. Neste interregno, um homem desenvolve uma paixão obsessiva pela personagem principal.

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