Laura Poitras gosta de labirintos. E passeios e conexões nem sempre óbvias entre muitos tempos e espaços. Não é fácil acompanhá-la; não há um centro, um foco, uma trajetória linear em “Risk”.

A narrativa fragmentada fala de momentos na vida de Julian Assange, o australiano que fundou o Wikileaks e entrincheirou-se na Embaixada do Equador em Londres sob a acusação (nunca formalizada) de assédio sexual.

Por essas deslocações pelo globo talvez a ideia da realizadora seja a de mostrar que os enredos de filmes de espionagem existem no mundo real; sem o conforto da fantasia, no entanto, percebe-se que os “bons” são feios, os “maus” são os heróis e o mundo em que vivemos é um lugar muito temerário.

Ocorre então que, em algum ponto do planeta, alguém levanta-se contra a maré; poucos – Assange, Edward Snowden, tema do seu filme anterior, “Citizenfour” – tornam-se mediáticos; logram reunir apoio entre “hackers” que enviam estilhaços de uma cave cibernética ou jovens que dão a cara mascarada em manifestações à pala de outra fantasia distópica – a do “Anonymus” de “V de Vingança”. Não imaginam, mas são “privilegiados”: ao redor do mundo milhares de heróis pobres e não “tecnológicos” desaparecem sob a tortura e o assassinato.

Super-heróis

No mundo da internet e do Big Brother do século XXI as histórias de super-heróis só podem ser materializadas como um filme de cerco. A clausura não envolve só Assange; a sua assistente e futura esposa, Sarah Harrison, o seu colaborador Jacob Applebaum: todos têm uma vida dura.

Poitras, por seu lado, afirma encontrar a casa revirada pelo FBI quando volta de viagem e pertence à lista negra dos ativistas “anti-US” que são revistados em todos os aeroportos por onde passam.

Mas ninguém está a fazer de super-herói: segundo os cálculos do fundador do Wikileaks em “Risk”, uma extradição para os Estados Unidos custaria-lhe a pena de morte ou prisão perpétua. Na “melhor” das hipóteses, 30 anos de prisão – “sob condições bastante severas”.

Os protetores

Um claustrofóbico estado de vigilância. CIA, NSA, FBI: o mundo é um lugar perigoso. São idealizados nas fábulas de Hollywood, mas na prática trazem ao de cima ao cidadão comum a angústia com raiz na Antiguidade romana: “Quem nos protegerá dos nossos protetores”?

Em "Risk", quando a palhaça Lady Gaga (sim, a própria) entrevista Assange, ele enumera uma bela lista de caçadores – que além das siglas citadas e dos diversos braços, armados ou não, dos departamentos de Defesa e Justiça dos Estados Unidos, incluem muitos outros da sua terra natal e da Inglaterra.

Declarações de intenções

Aqui e ali, resquícios de uma filosofia simples e coesa. Não é a complexidade das ideias, mas a tenacidade com que alguém se mantém fiel aos seus princípios (o diálogo inicial) ou uma justificação existencial encontrada a meio do filme: “Não acredito em mártires. Só em raros casos alguém o deveria ser. Mas o risco da inação é extremamente elevado. Qual é o risco de ficar sentado? É apenas mais um dia que se perde. Você não tem muitos. Se você não está a lutar por aquilo que acredita, você está a perdê-los”.

“Risk” tem sessões no âmbito do Doclisboa nos dias 19 e 29.

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