Quem for pesquisar na Wikipédia em inglês sobre a lista de filmes da edição inaugural do Festival de Cannes (1946), vai encontrar lá “Três Dias sem Deus”, de Bárbara Virgínia.

Está ao lado de Alfred Hitchcock, Billy Wilder, Jean Cocteau e do clássico neorrealista de Roberto Rossellini, “Roma, Cidade Aberta”. Muito ilustrativo: ao lado de todos estes mestres e outros um pouco menos conhecidos, o de Bárbara Virgínia é o único a não ter uma hiperligação que explique, afinal, quem é esta ilustre desconhecida.

Esta pergunta está no título "Quem É Bárbara Virgínia?" e lança uma série de questões na abertura do filme de Luísa Sequeira: quem foi afinal essa mulher que numa sociedade patriarcal logrou realizar um filme? E por que desapareceu? Onde estaria ela?

Bom, essa última questão é parte da premissa do projeto: Bárbara Virgínia vivia em São Paulo, no Brasil.

“Estava a trabalhar num projeto sobre a mulher no cinema português”, conta Sequeira.

“Uma das pioneiras na realização foi Bárbara Virgínia e, no entanto, descobri que estava a viver em São Paulo e percebi a urgência de estar com ela e de fazer este documentário. Esse foi o meu ponto de partida e o restante foi um processo de colaboração com pessoas que me ajudaram e que fazem parte deste filme.”, completa

Salazar: “Mulher casada que concorre com o marido causa a ruína da família”

“Quem É Bárbara Virgínia?” segue uma investigação e não vale contar muito sobre o que Sequeira vai descobrindo. Alguns factos são notórios: para além da citada seleção para o festival da Croisette, “Três Dias sem Deus” causou furor na própria sociedade portuguesa. É uma história incrível de esquecimento.

“Sim, a história da Bárbara foi completamente esquecida, assim como a história de muitas outras mulheres… E o facto de ter realizado e protagonizado um filme com apenas 22 anos e ter estado na seleção do festival de Cannes na primeira edição é incrível! Além de ser a única mulher a realizar uma longa-metragem na altura da ditadura”, observa.

Mas a história de Bárbara vai mais além: “Ela queria fazer mais filmes, era uma artista multifacetada e com um talento enorme. Uma mulher muito determinada e com muita personalidade, isto num país que vivia uma ditadura onde nem todas mulheres podiam votar, num país que não permitia à mulher viajar para o estrangeiro sem autorização do marido.”

O filme destaca em mais do que um momento a relação entre este Estado opressor e o destino que acabou por ter essa mulher ativa e independente.

Diz Sequeira: “Portugal era um país muito conservador, o próprio Salazar declarava: ‘Nos países onde a mulher casada concorre com o trabalho do homem, a instituição da família ameaça a ruína’ . No entanto Bárbara conseguiu fazer uma longa-metragem, queria fazer mais filmes, mas em Portugal não havia lugar para mulheres como ela, por isso é que ela foi para o Brasil, onde teve outras oportunidades.”

A mulher no século XXI

“As mulheres foram, durante muito tempo, deixadas na sombra da História. Aliás, a História é escrita no masculino. Para construirmos o presente temos de olhar para o passado mas lançar um olhar mais crítico sobre as fontes”, observa a cineasta.

E, passados todos esse anos, o que o presente reserva à mulher no audiovisual português?

“Infelizmente ainda hoje se verificam múltiplas formas de descriminação das mulheres. É só olhar à nossa volta e ver qual a percentagem delas em cargos de decisão em diferentes áreas. As medidas sociais ainda não são as ideais… Claro que estamos muito melhor e temos mulheres a trabalhar no audiovisual, que fazem um excelente trabalho, mas ainda assim acho que deveríamos ter muitas mais”, refere Sequeira.

“Quem É Bárbara Virgínia?” tem sessões no âmbito do Doclisboa nos dias 25 e 29 de outubro. É apresentado com os 26 minutos que restaram de “Três Dias sem Deus” e com a curta-metragem “A Aldeia dos Rapazes”.

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