Uma emocionante história de vingança e amizade envolvendo uma irlandesa condenada e um batedor aborígene na Tasmânia colonial é considerada a favorita para levar o Leão de Ouro no festival de cinema de Veneza.

"The Nightingale", da australiana Jennifer Kent - o único filme dirigido por uma mulher de um total de 21 que disputam o prémio principal - foi comparado pelos críticos com a obra-prima de Jane Campion, "O Piano", de 1993. No elenco estão Aisling Franciosi, Baykali Ganambarr e Sam Claflin.

Mas a primeira exibição da perturbadora evocação de Kent da brutalidade da antiga colónia penal, cujos habitantes originais foram praticamente exterminados num genocídio, foi marcada por insultos racistas e sexistas lançados contra os seus criadores.

O momento mais confrangedor foi quando o nome de Kent apareceu nos créditos e alguém gritou: "Que vergonha, p***! És nojenta".

O autor da ofensa foi Sharif Meghdoud, crítico de filmes em italiano na internet, que assumiu mais tarde no Facebook o comentário e pediu desculpa, dizendo que saiu da sua boca sem pensar nas consequências e não pretendia com ele ser sexista. A sua credencial de acesso foi revogada pela organização.

A escassez de mulheres na lista oficial levou o festival de Veneza a ser criticado pela sua "masculinidade tóxica" e os organizadores foram forçados a organizar com embaraço iniciativas para a igualdade de género.

Recusar ser provocada

Mas a atriz que se tornou realizadora, nascido em Brisbane, a fazer o seu segundo filme após o aclamado "O Senhor Babadook" (2014), recusou ser provocada pelos insultos, dizendo aos jornalistas que o filme provou a "importância de reagir com compaixão e amor à ignorância".

"Vemos outras opções representadas e elas não deram socorro ou alívio", disse Kent, que recusou fazer o garantido sucesso de bilheteira de Hollywood "Mulher-Maravilha" para criar o seu próprio épico histórico.

"Amor, compaixão e bondade são a nossa salvação e, se não os utilizarmos, todos desceremos pelo cano", acrescentou.

O filme retrata a extrema violência e racismo da ilha na década de 1820, quando era conhecida como Terra de Van Diemen.

A Variety o qualificou de "um conto de vingança elementar (de) grandeza quase mítica".

A crítica Jessica Kiang, do site The Playlist, disse que, com cortes criteriosos para "voltar aos seus emocionantes e lindos temas essenciais, 'The Nightingale' vai realmente cantar".

Kent disse que é "incrivelmente importante" que o público fique chocado com a brutalidade que ela descreve.

"Espero que o horror e a beleza existam lado a lado. Mas estamos tão anestesiados com a violência no cinema que podemos assistir a um filme em que 50 pessoas morrem e não sentir nada", disse.

"Isso é condenável e desagradável para mim. Queria mostrar o custo humano", afirmou à AFP.

A história cruel da Tasmânia

A estrela irlandesa-italiana em ascensão Aisling Franciosi, da série "The Fall", disse que nunca percebeu o quão violenta era a colónia penal, "particularmente em relação às mulheres, que estavam numa desvantagem de oito para um".

"Eles foram enviados para lá por pequenos crimes para povoar a ilha. Fiquei furiosa ao ver o quão cruel, brutal e sistemático era" esse processo.

Sam Claflin, Aisling Franciosi, a realizadora Jennifer Kent e Baykali Ganambarr em Veneza

Kent disse que a história de genocídio e escravidão "precisa ser contada", sustentando o enredo na amizade improvável e tocante entre uma condenada escravizada, interpretada por Franciosi, e um batedor, interpretado pelo ator aborígene Baykali Ganambarr.

"Quando fui pela primeira vez à Tasmânia, fiquei impressionada com a tristeza residual naquela terra", disse à AFP.

"Visitei as colónias penais e senti os fantasmas de muitas almas de coração partido que de alguma forma ficaram no local, e sempre quis contar essa história", acrescentou.

Ganambarr disse que não havia como "suavizar" a mensagem: isto "foi o que aconteceu com o meu povo e tenho muito orgulho de representá-lo".

Kent, que escreveu o argumento, disse que ser a única realizadora na competição em Veneza "não me alegra. Gostaria de ter minhas cineastas irmãs aqui. O trabalho do cinema é refletir o mundo, e se refletimos apenas 50%, não estamos a fazer isso".

A última vez que uma mulher conquistou o prémio máximo de Veneza foi há 37anos, quando a diretora alemã Margarethe von Trotta ganhou com "Anos de chumbo".

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