O contrato, que está a ser votado e precisa de uma maioria de votos “sim” para entrar em vigor, foi considerado uma vitória para muitos e recebido com desconfiança por outros. Na votação inicial, 14% dos membros da direção nacional do sindicato votaram “não”, e é isso que a atriz portuguesa Kika Magalhães pretende fazer também.

“O motivo é que eles não protegem os atores em relação às réplicas digitais”, disse à Lusa a atriz, radicada em Los Angeles desde 2016. “Eles dizem que sim, que há proteção, mas depois vamos ver nas entrelinhas e não há nada”.

Kika Magalhães, cujo último filme, “The Girl in the Backseat”, acaba de chegar à Amazon Prime Video e à plataforma de 'streaming' Tubi, aponta para a forma como as réplicas digitais podem ser desastrosas.

“Um ator vai fazer um 'casting' e os produtores perguntam se aceita que façam a sua réplica digital. Se o ator disser que não, podem não lhe dar o papel”, exemplifica.

Os atores de primeira linha poderão negociar e dizer que não sem perderem o papel. “Mas os atores pequeninos como nós não trazem tanto dinheiro para o sindicato e eles não nos protegem tanto”, considerou Kika Magalhães.

A atriz duvida da solução avançada por uma das cláusulas, segundo a qual se um estúdio usar réplicas digitais de um ator este será pago com o correspondente às horas que estaria a filmar. “Isso é muito relativo, porque uma cena pode demorar um mês para filmar. Eles podem dizer que demorou um dia a fazer”.

A atriz Justine Bateman também criticou as brechas que permitem aos estúdios usarem réplicas digitais sem o consentimento dos atores quando certas condições estão reunidas.

O resultado das votações será conhecido a 05 de dezembro. Se houver 50%+1 de votos “sim”, este contrato entrará em vigor durante os próximos três anos.

“Tenho ouvido muitos atores a dizer que vão votar que não”, referiu Kika Magalhães. O seu marido, o ator Chris Marrone, disse que “se a maioria entender totalmente o que está a assinar, então vota não”.

Marrone considerou que o contrato da SAG “afinal não parece uma grande vitória” e que devia ter linguagem específica para definir os atores como seres humanos. É algo que a atriz Katja Herbers também defende, por oposição a “atores sintéticos”.

No entanto, a expectativa é de que o “sim” vença, porque a indústria esteve parada demasiado tempo e há um cansaço generalizado.

É o que antecipa Mário Carvalhal, que pertence à Animation Guild, frisando que a paragem foi longa e o “não” parece ser uma minoria. “Existe a possibilidade que algumas pessoas votem não mas acredito que estas novas medidas vão passar e ser aprovadas”, disse à Lusa.

“Acho que é uma minoria que tem muita razão naquilo que está a reivindicar, mas foi praticamente um ano inteiro de trabalho parado nesta cidade e acho que está toda a gente pronta para andar em frente”.

Mário Carvalhal considera que o grande risco da IA será a redução na qualidade e uma mudança na forma como o meio trabalha. “Os atores têm mais a reivindicar, especialmente no que diz respeito aos que fazem voz. Já tem havido casos em que a IA pode fazer o trabalho”, referiu. “É um trabalho inferior, mas que para muitas empresas é suficiente e não lhes custa nada”.

Carvalhal considera que os atores “devem manter os seus direitos de imagem, voz e tudo mais, a sua parecença”.

O português também sublinhou que, embora as greves não tenham atingido todos os objetivos, permitiram dar “importantes passos na direção certa” e isso é um aspeto de que os grevistas estão orgulhosos. “Tanto quanto possível, acho que os trabalhadores ganharam esta luta”, considerou.

Para o argumentista Filipe Coutinho, membro da Academia Portuguesa de Cinema, os sindicatos estiveram justificados na sua luta, que se arrastou mais tempo que o esperado.

“Estou bastante satisfeito pela forma como tanto a WGA como a SAG atuaram ao longo destes seis meses”, disse à Lusa. “É um tempo inacreditável para estar com uma indústria inteira parada”, frisou. “A Califórnia é uma das maiores economias do mundo e é incompreensível que tenha demorado tanto tempo aos estúdios para oferecerem um contrato justo aos escritores e atores”.

Filipe Coutinho referiu ainda que, mesmo com os acordos, “está um bocadinho tudo de pernas para o ar”, com estúdios e empresas de produção “a tentarem entender qual será a próxima fase”.

O português mencionou as alterações do modelo de negócio, com ‘blockbusters’ previstos a falharem nas bilheteiras, cancelamento de filmes e o dilema do 'streaming'.

“Ninguém sabe muito bem em que investir e em que condições investir, sendo que agora os contratos também mudam a abordagem à produção de conteúdo”.

Afonso Salcedo, artista de iluminação, que trabalhou no novo filme da Disney “Wish - O Poder dos Desejos”, considera que as greves foram difíceis mas importantes, numa altura em que ainda não se percebe até que ponto a IA vai afetar a indústria.

“Os acordos vão durar três anos por isso acho que é um bom passo para ver como é que as tecnologias funcionam nos próximos anos”, indicou, referindo que o segmento de animação vai ter de renegociar o contrato em 2024.

“Será interessante ver o que vai acontecer, se vamos negociar proteções contra a Inteligência Artificial”, afirmou Afonso Salcedo. “Se calhar, para o ano, vamos entrar outra vez nestas lutas com os estúdios”.

A votação sobre o acordo conseguido entre o sindicato SAG-Aftra e os estúdios decorre até 05 de dezembro. Os resultados serão tabulados e divulgados no próprio dia.

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