O canal norte-americano NBC anunciou esta segunda-feira que não transmitirá a cerimónia dos Globos de Ouro do próximo ano.

Trata-se de um golpe grave para a Associação de Imprensa Estrangeira em Hollywood (HFPA na sigla inglesa), que organiza os prémios e vê o seu principal parceiro "puxar-lhe o tapete": todos os anos recebe do canal uma taxa de 60 milhões de dólares pelos direitos de exibição da cerimónia daqueles que são, pelo seu mediatismo, os segundos prémios mais importantes de Hollywood, atrás apenas dos Óscares.

A HFPA aprovou na semana passada uma série de reformas destinadas a impulsionar a inclusão e a diversidade após meses de críticas na indústria do cinema e da TV americana.

"Continuamos a acreditar que a HFPA está empenhada numa reforma significativa. No entanto, mudanças desta magnitude exigem tempo e trabalho, e acreditamos fortemente que a HFPA precisa de tempo para fazê-lo da maneira correta. Como tal, a NBC não irá transmitir os Globos de Ouro de 2022. Assumindo que a organização executa o seu plano, temos esperança de estar em posição de transmitir o espetáculo em janeiro de 2023.", refere o comunicado.

Segundo a publicação Deadline, Tom Cruise também devolveu hoje à sede da HFPA os três troféus que ganhou ao longo da carreira, os de Melhor Ator por "Nascido a 4 de Julho" (1989) e "Jerry Maguire" (1996), e o de Ator Secundário por "Magnolia" (1999).

Desde fevereiro que a HFPA, um grupo com cerca de 90 jornalistas internacionais que entrega os Globos de Ouro de cinema e televisão desde 1944 e exerce grande influência, está a recuperar de uma investigação de fevereiro do jornal LA Times que revelou que não possui membros negros. A organização também enfrenta há muitos anos acusações de falta de transparência nos seus procedimentos.

A maioria dos membros do HFPA é de correspondentes que costumam trabalhar para meios de comunicação conhecidos e respeitados nos seus países, como os jornais Le Figaro da França ou El País da Espanha.

Mas a reputação já tinha sido abalada no passado pela presença de um punhado de personalidades surpreendentes com pouca ou desconhecida atividade jornalística.

A organização tem sido repetidamente criticada pela falta de atenção dada aos artistas negros ou de minorias, muitas vezes menosprezados nas listas de nomeações.

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Na quinta-feira passada, 7 de maio, os membros da associação aprovaram por esmagadora maioria uma série de medidas, incluindo o aumento de 50% do quadro de associados nos próximos 18 meses, a contratação de jornalistas negros, bem como a reforma do restritivo sistema de admissões.

A organização prometeu que se tornaria "um exemplo de diversidade, transparência e responsabilidade na indústria", mas o plano foi descrito pelo movimento contra a discriminação Time’s Up como um conjunto de "medidas de cosmética".

No dia a seguir, a Netflix e a Amazon, que estiveram entre os estúdios mais nomeados este ano nos filmes e nas séries, anunciaram que não estavam mais interessados em trabalhar com a HFPA até que mudanças "mais significativas" sejam feitas.

Esta segunda-feira, juntou-se ao boicote o estúdio Warner Bros., que inclui os canais HBO, HBO Max, TNT e TBS, que escreveu uma carta ao presidente da HFPA Ali Sar indicando que a agenda de reforma não estava a ir "suficientemente longe". Até segunda ordem, as filiais de cinema e televisão irão "abster-se de qualquer interação direta" com a organização, incluindo a participação de estrelas em eventos organizados pela HFPA.

"Estamos muito conscientes da energia que tivemos que investir para conseguir conferências de imprensa para um certo número de artistas e criadores negros que inquestionavelmente ofereciam obras de valor. Estas mesmas obras frequentemente passaram despercebidas nas vossas nomeações e prémios", indica a carta.

Além disso, a Warner Bros. menciona "conferências de imprensa nas quais nos ossos artistas enfrentaram problemas racistas, sexistas e homofóbicos. Durante demasiado tempo foram feitas solicitações de benefícios, favores especiais e pedidos pouco profissionais às nossas equipas e outras pessoas" da indústria.

Estas declarações estão em linha com as acusações feitas pela atriz Scarlett Johansson, que neste fim de semana contou que durante anos se negou a participar nas conferências de imprensa da HFPA por causa de "perguntas e comentários sexistas" que, segundo ela, "roçam o assédio sexual".

Mark Ruffalo e David Oyelowo também reagiram contra a organização, enquanto dezenas de publicitários das agências que habitualmente trabalham com a HFPA também se distanciaram.

Globos de Ouro polémicos

Os Globos de Ouro foram vistos, em tempos, como uma antecâmara para os Óscares, mas em anos recentes a sua importância tem sido questionada e até ridicularizada - por exemplo, pelo humorista Ricky Gervais, apresentador de várias cerimónias.

Mas na investigação publicada a 22 de fevereiro, o jornal LA Times questionava a relevância da HFPA ainda tem na indústria cinematográfica nos Estados Unidos, divulgando que os membros da organização recebem remunerações avultadas, cuja proveniência não é transparente, e nem todos são efetivamente jornalistas.

A partir de entrevistas com mais de 50 pessoas, incluindo agentes, produtores de estúdios de produção e sete antigos e atuais membros da associação, o jornal norte-americano traça uma imagem de atuação duvidosa, protecionista dos seus membros e desligada da realidade.

Mais polémica foi a confirmação feita pelo jornal de que entre os 87 membros não existia qualquer pessoa negra,  outros estavam em representação de vários países e ainda "muitos que não são verdadeiramente jornalistas, porque não são ameaça para ninguém", como descreveu um elemento da organização.

Este ano, a associação foi amplamente criticada por ter excluído das nomeações dos Globos de Ouro várias produções que são potenciais candidatos aos Óscares, como "Da 5 Bloods - Irmãos de armas", de Spike Lee, "Judas e o Messias Negro", de Shaka King, e "Ma Rainey: A Mãe do blues", de George C. Wolfe.

O jornal descobriu ainda que, sendo uma associação sem fins lucrativos, a HFPA faz "pagamentos substanciais" ao seus membros - em 2020 foram 1,6 milhões de euros - para pertencerem a diferentes comités e realizarem determinadas tarefas.

A associação defendeu-se, dizendo que havia preconceitos em relação aos membros da associação, que as contas da associação eram auditadas e que a prática de compensação financeira aos associados se baseava no que já era praticado em relação a outras organizações sem fins lucrativos.

O jornal recordava que todos os anos a cerimónia de entrega dos prémios soma entre 18 a 20 milhões de espectadores, um número generoso e que é visto ainda pelos estúdios de cinema como um ponto chave no calendário de prémios rumo aos Óscares.

"O problema é que os estúdios precisam deles", admitiu o agente de um dos estúdios de Hollywood, que não quis ser identificado.

Este ano, à semelhança de outros eventos, os Globos de Ouro também tiveram uma quebra de audiências histórica por causa da pandemia: sem filmes muito conhecidos entre os nomeados e alterada a data habitual no início de janeiro, em que beneficiava das audiências de programas desportivos, a cerimónia de 28 de fevereiro apresentada por Tina Fey e Amy Poehler e adaptada ao formato virtual, praticamente sem passadeira vermelha e com as estrelas em casa, conquistou apenas 6,9 milhões de espectadores.

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