Dizem que Johnny Weissmuller atravessava os corredores deste lar para idosos, dando o seu inconfundível grito de Tarzan. Um morador ainda se lembra de seu encontro frustrado com a diva Marilyn Monroe. Outro conta anedotas sobre Walt Disney, ou Frank Sinatra.

Hoje, a Idade de Ouro de Hollywood é apenas uma velha lembrança, mas as suas histórias e 'glamour' ainda reluzem num lar para idosos em Los Angeles, onde moram ex-funcionários da indústria do cinema e da televisão.

A instituição reúne personalidades muito diversas e igualmente interessantes: do cenógrafo de "Doutor Jivago" (1965) a uma atriz de 103 anos que se apresentou recentemente para um teste.

"As pessoas que vivem aqui tiveram todo o tipo de trabalho no mundo do cinema e da televisão", comenta o chefe do Fundo para a Televisão e o Cinema (MPTF, na sigla em inglês) Bob Beitcher, que administra o lugar.

Criado em 1921 por quatro reputados cineastas, entre eles Charles Chaplin e Douglas Fairbanks, a missão inicial desse Fundo foi ajudar as estrelas do cinema mudo a adaptarem-se na transição para o cinema falado.

Desde o seu início, esta organização beneficente foi financiada por intermédio de pequenas doações de artistas ativos que depositavam moedas em pequenos cofres nos estúdios.

Quase um século depois, o Fundo continua a funcionar à base de doações. Agora, porém, elas são bem maiores, de estrelas como George Clooney, Kirk Douglas e Steven Spielberg.

"Nenhuma outra indústria no mundo fez algo parecido com o que o MPTF fez, e isso é o que torna essas contribuições algo tão importante", explicou Beitcher.

"As pessoas que trabalham na indústria do cinema são como ciganos. Mudam de lugar, tiram as suas famílias ao mudar de Louisiana para Nova Iorque, ou para a Europa. E muitos fazem trabalhos exigentes do ponto de vista físico, o que é realmente duro para eles", defendeu.

Quase metade dos 165 residentes paga a quota mensal do seu quarto e os serviços - entre 3400 e 6100 dólares por mês [aproximadamente entre três mil e 5 mil e quatrocentos euros]. O Fundo financia a outra metade.

O maior e o mais generoso

Embora muitos dos residentes tenham sido celebridades, a maioria trabalhou atrás das câmaras e nunca apareceu no ecrã.

Steven Kohler, de 87 anos, pode enumerar uma impressionante lista de estrelas, com as quais trabalhou como cenógrafo, como Omar Sharif e Julie Christie, de "Doutor Jivago".

Kohler conheceu Marlon Brando na rodagem do filme histórico "Revolta na Bounty" (1962). Era um "senhor com um grande coração, alguém generoso que, com enorme discrição, ajudava as pessoas", comentou.

"Quanto mais conhecidos eram os atores, mais adoráveis eles eram", disse Kohler, sentado no seu canto impecavelmente decorado.

Encontro com Marylin

A família de Robert Mirisch, de 77, dirigia uma das maiores produtoras independentes de Hollywood nos anos 1960: a Mirisch Company. Até hoje, Robert gosta de relembrar o caso do seu frustrado 'encontro' com Marylin Monroe.

Ele conheceu-a na filmagem da comédia "Quanto Mais Quente Melhor", produzida pela companhia de sua família. Depois de terminar a rodagem, ela pediu-lhe que a acompanhasse à estreia, em Nova Iorque. Com o pai doente naquele momento, Robert declinou o convite da atriz para o visitar.

"Então, sou o homem que cancelou um encontro com Marilyn Monroe. E, depois, o meu pai teve a sorte de gozar muitos anos de boa saúde", brincou Mirisch, que trabalhou como advogado da indústria de entretenimento.

Sem pensar na reforma

A vida neste lar para idosos é muito mais do que recordações do mundo do espetáculo, jogos de cartas ou hidroginástica na piscina doada pela atriz e realizadora Jodie Foster.

Muitos aproveitam a criatividade ainda presente para colaborar com o canal de televisão da casa, em documentários, programas de concursos e até "Lei e Desordem", uma paródia da célebre série policial americana "Lei e Ordem".

"A criatividade não acaba quando se tem 65", ironiza Bob Beitcher.

Alguns dos residentes, como Connie Sawyer, de 103 anos, continuam ativos, longe de pensar na reforma.

Sawyer, que trabalhou com estrelas como Frank Sinatra, apareceu no ano passado no anúncio da famosa final do campeonato de futebol americano "Super Bowl". Recentemente, foi a um teste para conseguir um papel num filme de terror.

"Estou à espera de resposta", contou.

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