Judi Dench festeja esta quinta-feira 88 anos e sem dar sinais de abrandar o ritmo: no final de março, lá estava na cerimónia dos Óscares, nomeada pela oitava vez pelo papel da adorável avó de "Belfast".

A atriz ganhou tudo o que havia para ganhar, numa carreira que começou em 1957 e se estendeu pelo cinema, teatro e televisão, e foi de Shakespeare a James Bond. Tornou-se aquilo a que os seus compatriotas gostam de chamar... um tesouro nacional.

O elogio tornou-se uma paródia (pesquisem-se no YouTube os vídeos em que é "interpretada" por Tracy Ullman) e a visada dispensa: "Toda a gente o diz, toda a gente. É horrível, é medonho. Odeio-o", dizia numa entrevista em 2017.

Pensar em "reforma" também não é bem-vindo: quando se tornou a pessoa mais velha a ser capa nos 104 anos da edição britânica da revista Vogue em junho de 2020, chegou a proibir o seu interlocutor de mencionar a palavra na sua casa durante a entrevista.

Um ano antes, explicou que estava cansada da pergunta e acrescentou que "as pessoas reformam-se para andar, pintar ou viajar. Todas essas coisas. Bem, eu consigo fazer isso. Estou a fazer o trabalho que faria se me reformasse".

O compositor Stephen Warbeck, a atriz Judi Dench e o realizador John Madden com os seus Óscares por "A Paixão de Shakespeare" a 21 de março de 1999

"Dame" Judith Olivia Dench (9 de dezembro de 1934) fez a sua formação no Central School of Speech and Drama em Londres, e estreou-se profissionalmente como Ofélia em "Hamlet" em Liverpool, em 1957.

Em 1961, aos 26 anos, entrou numa das mais importantes companhias de teatro britânicas, a Royal Shakespeare Company, onde fez muitas aparições ao longo das duas décadas seguintes, ganhando vários prémios de Melhor Ator, mas também no West End e no National Theatre, e na Broadway.

A entrada na televisão aconteceu em 1959 e no cinema cinco anos depois, no 'thriller' "O 3º. Segredo" (1964, de Charles Crichton), num papel muito secundário como a assistente arrogante do dono de uma galeria interpretado por Richard Attenborough.

Apesar de ter recebido um BAFTA para Melhor Revelação por "Four in the Morning" (1965) pela interpretação de uma jovem mãe profundamente infeliz, parecia que a carreira não passaria pelo grande ecrã.

"Four in the Morning"

Foi só em 1985, quando já tinha 50 anos e tinha dois prémios BAFTA em televisão pela série de comédia "A Fine Romance" (1981–1984), onde contracenava com o marido Michael Williams, que voltou a ter um papel mais proeminente em "Quarto com Vista Sobre a Cidade" (de James Ivory), explicando numa entrevista que não fazia mais filmes porque ela não era o que as pessoas "querem ver" nas salas.

De facto, a popular estrela de cinema Judi Dench só surgiu a meio da década de 1990, quando já era uma grande dama do teatro e frequentemente comparada a Maggie Smith, a outra grande atriz britânica da mesma geração, com quem apareceu em vários filmes e no palco.

Foi o papel de M, a chefe do serviço secreto britânico MI6 e do agente James Bond, na estreia de Pierce Brosnan em "007 - GoldenEye", que lhe abriu as portas de Hollywood e para as oito nomeações aos Óscares, que chegaram todas quando já tinha mais de 60 anos.

Para isso, o antigo produtor Harvey Weinstein deu uma contribuição muito importante, que começou quando a sua produtora e distribuidora Miramax comprou "Sua Majestade, Mrs. Brown" (1997) e fez uma grande campanha para lhe conseguir a primeira nomeação para as estatuetas douradas para a interpretação da Rainha Vitória.

Seguiu-se o grande envolvimento na produção de "A Paixão de Shakespeare" (1998), que lhe valeu o Óscar de Melhor Atriz Secundária por oito minutos no ecrã como a soberana Isabel I.

Judi Dench com Harvey Weinstein em novembro de 2005

Comentando a relação que se prolongou por vários filmes e muitos anos em 2021, depois das revelações sobre o produtor que lançaram o movimento #MeToo, Judi Dench causou algum "celeuma" por defender o legado artístico, garantindo que a experiência não ficou "estragada" com a revelação dos crimes de abusos sexuais que o levaram a ser condenado a 23 anos de prisão.

"Mas trabalhei muito para o Harvey, imenso. E ele sempre foi completamente charmoso. Talvez tenha tido sorte, mas isso é tudo o que sei. Sinto muito pelas pessoas que não tiveram tanta sorte", reconheceu ao The Guardian.

A atriz mostrou-se mais dividida quando questionada se terá avaliado mal o produtor: "Não sei. Ele era um amigo. Ele era uma pessoa perfeitamente educada, divertida e cordial. Nunca vi o Harvey de outra forma. Não sabia absolutamente nada de desagradável sobre ele. E nem fui avisada. Portanto, claro que o posso avaliar. Mas nunca conheci de todo esse outro lado dele".

OS MELHORES FILMES DE JUDI DENCH

Numa fase em que a maioria das suas colegas está praticamente reformada, Judi Dench nunca mais parou e trabalhou com grandes realizadores como Stephen Frears, Kenneth Branagh, Clint Eastwood, Sam Mendes ou Tim Burton, sempre a um ritmo intenso, até para ultrapassar o grande desgosto com a morte do seu marido em 2001, aos 65 anos, de cancro no pulmão.

Em paralelo e depois de "GoldenEye", continuou a ser M em mais seis filmes Bond até à despedida oficial, em grande plano e com uma interpretação de muito maior impacto, com "007 - Skyfall" (2012), já na fase de Daniel Craig, e entrou nas nove temporadas da série de comédia "As Time Goes By" (1992-2005), considerada uma das melhores da televisão britânica.

Pelo caminho, chegaram nomeações para os Óscares por "Chocolate" (2000), "Iris" (2001), "Mrs.  Henderson" (2006), "Diário de um Escândalo" (2007), "Filomena" (2013) e "Belfast" (2021). Um total de oito, cinco para Melhor Atriz e três para Atriz Secundária.

Apesar da reputação, Judi Dench chegou a dizer que não gostava "especialmente de interpretar rainhas" e que preferia ser recordada não pelas personagens mais tranquilas mas pelos papéis mais controversos e sombrios, incluindo aquele que muitos dos seus fãs consideram ser o seu melhor momento no grande ecrã, o de uma professora autoritária e solitária que se tornava sinistra ao descobrir que a sua atração por uma colega (Cate Blanchett) não era correspondida.

"Preferia muito mais ser a mulher de 'Diário de um Escândalo' [2006] do que a mulher do '[O Exótico] Hotel Marigold' [2011], percebe o que quero dizer?", dizia ao The Times em 2017.

"Allelujah"

Em 2012, Judi Dench revelou que sofria de degenerescência macular, uma doença degenerativa focada na retina provocada pela idade que estava a levá-la a uma cegueira quase total.

"Agora não posso ler o jornal, não posso fazer as palavras cruzadas, não posso ler um livro, mas aguenta-se. Tenho pessoas que leem para mim e ensaiam os diálogos comigo", explicava em 2017.

Já em novembro último, reconhecia no programa de Louis Theroux para a BBC que estava a piorar: "Não me quero reformar, mas não tenho feito grande coisa nos últimos tempos porque não consigo ver. Está muito mau”.

Mas as propostas continuam a chegar, principalmente de cineastas amigos como Kenneth Branagh, Stephen Frears, Richard Eyre e Rob Marshall (que não lhe fez nenhum favor com a adaptação ao cinema de "Cats"). O próximo filme, "Allelujah" chegará aos cinemas do seu país em fevereiro de 2023.

Como explicou a Louis Theroux, a solução para continuar a trabalhar é confiar na memória fotográfica para memorizar os diálogos e pedir aos amigos que lhe repitam tudo muitas vezes: "Tenho que aprender graças à repetição e esperar que as pessoas não reparem".

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