Dez dias de cinema e muitos eventos paralelos chegaram ao fim com aquele que será, pelo menos na crença do seu diretor, o melhor Lisbon & Estoril Film Festival (LEFF) em termos de afluência de público.

Num universo onde a distribuição de cinema alternativo é cada vez mais empurrada para um nicho pela força do “marketing” do cinema comercial, só a existência de eventos como estes é fundamental. Aliás, foi exatamente isso que destacou no encerramento o realizador Emir Kusturica.

O cineasta sérvio foi uma das grandes presenças do festival ao lado de Monica Belluci, Jim Jarmusch, Jerzy Skolimovski e, em passagens-relâmpago, Fanny Ardant e Gerárd Depardieu. Além deles, muitos cineastas e intérpretes com filmes em competição compareceram, para além de uma série de outros artistas e críticos ligados a diversas atividades paralelas.

Ainda assim, fica a ressalva em relação ao “desaparecimento” de quase todos os nomes mais mediáticos anunciados pela conferência de lançamento desta edição.

À parte uma melhoria significativa do trabalho de imprensa e comunicação em relação aos outros anos, para além da boa ideia de criar um Prémio do Público, é de se salientar a exclusão das audiências de diversos eventos e filmes exclusivos para quem fala francês – uma vez que não beneficiam de tradutores ou legendagem.

Filmes, o melhor e o pior: fora de competição

Com destaque para a extensa mostra da obra de Jean-Luc Godard nas retrospetivas, a proposta da secção Fora de Competição é trazer em primeira mão filmes de qualidade aguardados, novas obras de grandes mestres “indie” e projetos de cineastas que não passarão por Lisboa de outra forma – caso da grande maioria dos trabalhos das secções Competição e Descobertas.

Começou mal: em “O Herói de Hacksaw Bridge” Mel Gibson une o pior de dois mundos ao associar o fetiche da mitologia cristã pelo martírio com o patriotismo militarista “redneck” – com um resultado desagradavelmente “explosivo”.

Mas o final foi feliz – com Tom Ford entregando uma requintada peça de arte chamada “Animais Noturnos” – filme no limite entre o “thiller” e o “arthouse” para esmiuçar o vazio e a fragilidade do universo dos muito ricos. Com duas histórias paralelas, terá que se criar para a proposta de Ford, conforme a belíssima sequência final, o termo “vingança existencial”.

Grandes mestres apresentaram-se em boa forma (Jim Jarmusch, Asgar Farhadi, os Dardenne), com destaque para o romeno Christian Mungiu e o intenso “O Exame” – com os seus tradicionais caminhos bifurcados e um dos mais belos planos finais do festival.

Já Wim Wenders redimiu-se do terrível “Tudo Vai Ficar Bem” com um dos seus exercícios mais radicais. Em “Os Belos Dias de Aranjuez”, três personagens e um jardim em 3D compõem uma delicada peça intimista que se debruça sobre a criação artística.

O cinema anglo-saxónico deu o ar de sua graça com o emotivo “Lion” (obra de estreia do australiano Garth Davies), que evita os sentimentalismos fáceis embora sofra para equilibrar a intensidade da primeira parte (a “dickensniana” história do menino vivido lindamente pelo pequeno Sunny Pawar) com a segunda - arrastada – protagonizada por Dev Patel.

Menção ainda para o tépido “Certain Women”, trazendo aquele estilo pachorrento com o qual Kelly Reichardt mantém um séquito de fãs no universo “indie”.

A competição: os premiados

Já há muitos anos não se via um filme de Paul Verhoeven a abrir com a brutalidade de uma cena de sexo e violência, mas longe da “classe” de “Instinto Fatal”, com a sua loira misteriosa, o picador de gelo e um olho arrancado. Em “Ela” a coisa é mais prosaica, terminando com um mascarado a atacar a “leading lady” debaixo da mesa da cozinha, partindo, literalmente, a loiça toda.

A partir daí, no entanto, a ação esfria. O que aquece é o retrato da alma de Michelle (Isabelle Huppert, de volta à sua marca de “psicopata favorita dos franceses”), numa história onde Eros e Thanatos, o binómio favorito do realizador holandês, se espalham por todo o lado como uma nódoa sobre o lençol…

Os espectadores do LEFF gostaram e atribuíram a “Ela” o Prémio do Público.

Já o polaco “The Last Family” foi premiado duas vezes, como Melhor Filme e Revelação. A obra de estreia de Jan Matuszynski mistura drama com uma comédia com tons, ora subtis ora grotescos, que lembram alguns momentos da comédia italiana e dos filmes de Kusturica.

A história é baseada em factos verídicos e gira em torno do pintor Zdzislaw Beksinski, rodeado por um filho com tendências suicidas, uma mãe em avançado estado de senilidade (que às tantas olha pela janela e grita: “É a Gestapo!”) e a esposa que parece um raro ponto de bom senso num lar onde as próprias bizarrices do artista “posam” para os planos fixos com que Matuszynski constrói um álbum de família muito particular.

Menos proselitista do que “Mustang” e não tão subtil quanto “Os Sonhos de Wajda”, o israelita “Sand Storm” levou o Prémio Especial do Júri com o seu mergulho na vida das mulheres de uma tribo beduína (muçulmana, certamente). Sem maiores devaneios estéticos, Elite Zexer criou um drama intenso e credível, conseguindo o mérito de deixar uma história forte falar por si própria.

Competição: outros desenlaces

Outra radiografia veio de “American Honey”, espécie de cinema “verité” com câmara na mão e música “rap” onde Andrea Arnold observa um grupo de vendedores de porta-em-porta no sul dos Estados Unidos. Se a ideia era retratar um “estilo de vida”, fica a pensar-se se aquelas pessoas mereciam mesmo três horas de filme.

Os jovens no labiríntico “Nocturama”, por seu lado, são mais crentes. Bertrand Bonello propõe uma viagem sensorial repleta de idas e vindas na imagem, na música e nos sons pelas novas “possibilidades” de subversão juvenil pós-moderna…

Já o problema de “Christine” (Antonio Campos) é o peso da história original na qual se baseia, conseguindo com dificuldade, ainda que apoiado numa criação cuidada de Rebecca Hall no papel-título, recriar o processo depressivo que levou a apresentadora Christine Chubbuck a suicidar-se em direto no telejornal numa pequena cidade na década de 70.

Boas surpresas ficaram por conta do turco “Big Big World” (Reha Erdem), com uma magnífica utilização de música e fotografia para criar um ambiente quase surreal de fusão com a natureza de um casal de “irmãos” em fuga na floresta, e o romeno “Dogs” (Bogdan Mirica) uma investigação numa Roménia remota plena de inimigos invisíveis.

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