Temas políticos e sociais, um contacto próximo com a realidade e narrativas que recusam recorrer ao diálogo foram algumas das principais tendências da seleção de nove longas-metragens apresentadas este ano em competição no Festival Internacional de Animação de Annecy.

A França abriu a festa com «Minuscule - La Vallée des Fourmis Perdues», de Hélène Giraud e Thomas Szabo, versão para cinema da popular série televisiva «Minuscule», centrada na vida dos insectos, apresentados de forma foto-realista mas com alguns toques de burlesco e um ligeiro antropomorfismo. O filme centra-se na luta por uma caixa de cubos de açucar entre dois grupos de formigas, com uma joaninha a puxar por um dos lados da contenda. A película sustenta de forma inesperadamente eficaz 90 minutos sem diálogos, com uma narrativa segura e muitas vezes empolgante, e uma ótima integração dos animais criados por computador nas imagens reais da natureza.



Também sem diálogos é o norte-americano «Cheatin'», o mais recente filme do prolífico Bill Plympton, que é uma das presenças inevitáveis anualmente no festival, enquanto espetador ou realizador em competição, tanto no campo das curtas como no das longas-metragens. Embora o seu estilo não sofra alterações e o seu trabalho possa não ser para todos os gostos, Plympton assina aqui um dos seus melhores filmes, uma história muito bem ritmada sobre no amor louco entre um casal, que sofre reveses inesperados e brutais quando cada um deles acha que o outro o está a trair.



Um dos filmes mais invulgares e interessantes da seleção foi «Lisa Limone & Maroc Orange», uma co-produção totalmente cantada realizada entre a Estónia e a Finlândia, com personagens com cabeça de citrinos a moverem-se com fluidez variável em animação «stop-motion». Mait Laas assinou esta fita sobre um imigrante ilegal que se apaixona pela filha do rico dono da plantação de tomate onde ele vai parar. A história, com alguns desequilíbrios, serve de metáfora sobre as agruras sofridas pelos imigrantes africanos que tentam chegar por barco à Europa, e faz um ótimo uso das três dimensões para reforçar a dimensão teatral do conjunto.



Da Coreia do Sul veio «The Fake», o novo filme de Yeon Sang-ho, que já tinha surpreendido com o também polémico «King of Pigs». A fita é uma crítica absolutamente feroz à religião organizada e gira em torno de uma cidadezinha prestes a ser destruída para dar lugar a uma barragem, com um vigarista que se aproveita da boa fé dos aldeões vendendo-lhes um lugar no céu mas cujas ações vão ser travadas de forma brutal por um alcoólico violentíssimo, que destrói todas as vidas que o rodeiam, incluindo as da mulher e da filha. Descrente e cínico, «The Fake» é também um filme arrojado e muito poderoso.



A Itália impressionou com «L'Arte della Felicità», de Alessandro Rak, com um grafismo estilizado e a história de um taxista que nunca aproveitou o seu talento natural para o piano nem ultrapassou a partida do seu irmão para o Nepal para ser monge. A narrativa nem sempre tem a segurança necessária, mas o lado derivativo acaba por encaixar muito bem com os desequilíbrios da mente do próprio protagonista e potenciar a força do desenlace final.



O filme mais aplaudido da seleção foi o japonês «Giovanni's Island», realizado por Mizuho Nishikubo, braço direito de Mamoru Ishii em clássicos como «Ghost in the Shell». A comoção na sala deveu-se à sensibilidade e ao lado parcialmente verídico deste drama emotivo e comovente sobre a infância, centrado em dois garotos cuja vida idílica na ilha de Shikotan chega ao fim com a anexação do território pelos soviéticos após a Segunda Guerra Mundial. A fita segue os dois anos de convivência com o invasor, a deportação para Kholmsk e o regresso ao Japão, com todos os dramas pessoais e familiares filtrados pela sensibilidade própria da infância, sem evitar a brutalidade da realidade e os desfechos sombrios mas sempre com um laivo de humor e esperança.



O melhor filme da seleção veio do Brasil e já tinha ganho em março o primeiro prémio na Monstra - Festival de Animação em Lisboa. Muito aplaudido, «O Menino e o Mundo», realizado por Alê Abreu, é uma obra visualmente notável, uma explosão de cores com um grafismo muito estilizado e uma narrativa vigorosa que prescinde dos diálogos (há apenas algumas frases ininteligíveis, em português lido de trás para a frente) para contar a história de um menino que parte em busca do pai que deixou a família. E é pelos olhos dele que o filme passa em revista algumas realidades complexas da atualidade, da devastação do ambiente às deficientes condições de trabalho e de vida, no Brasil e não só. Dos nove, é o filme que promete vir a dar mais que falar, até porque já tem distribuição garantida nos EUA.



A fita da competição que mais reações negativas recolheu foi a canadiana «Asphalt Watches», que provocou a saída da sala de muita gente logo à primeira meia hora, um fenómeno inusitado num festival habituado a filmes difíceis. Shayne Ehman e Seth Scriver animaram em Flash esta versão animada da viagem à boleia que ambos fizeram pelo Canadá no ano 2000, mas o resultado é tão gratuitamente grotesco e desprovido de graça e ritmo que se torna incompreensível a sua integração na competição oficial de um evento desta dimensão, por mais independente e progressista que queira ser.



Mais incompreensível ainda é a integração na competição de «Last Hijack», um curioso documentário de Femke Wolting e Tommy Pallotta, que tem uma parcela ínfima de animação, ainda por cima na sua grande maioria em rotoscopia, decalcando a imagem real. Produzido entre a Holanda, a Bélgica, a Alemanha e a Irlanda, o filme centra-se em Mohamed, um somali que opta continuamente por recorrer à pirataria nautica para contornar uma vida de dificuldades, a custo da própria célula familiar. A fita mistura documentário, encenação e algum desenho animado, numa obra interessante e por vezes envolvente sobre uma realidade pouco vista pelo olhar somali. Não faz é sentido entrar num festival dedicado à animação, quando as imagens animadas não chegam aos 20% nem estão no centro da narrativa.