Lucrecia Martel tem apenas quatro filmes em 17 anos, mas os suficientes para ser uma das grandes referências do cinema argentino no panorama internacional.

As participações em Cannes começaram desde o primeiro, “O Pântano”, surgido na mesma altura que nomes como Pablo Trapero, que inauguravam um movimento cinematográfico de apelo internacional que continua até hoje.

Em Lisboa para o lançamento de “Zama” e para a homenagem na secção Herói Independente do IndieLisboa, Lucrecia Martel conversou com o SAPO Mag, que aproveitou para recordar também uma conversa com o académico Jorge la Ferla sobra a sua obra.

Entre outros temas, a cineasta aproveitou para reforçar a importância das pessoas comuns nas investigações históricas (“uma história só de presidentes é tristíssima!”) e para reclamar ditadura de Hollywood ao impor formas de contar uma história baseada no famoso “arco narrativo”.

Tempo, espaço e pessoas comuns

D. Diego de Zama é um representante da Coroa espanhola nos confins do Paraguai. Os seus movimentos ao longo do "Zama" alicerçam-se num desejo primordial: voltar para a casa. Para isso tem de obter os favores dos governadores.

O filme algumas variações aparentes em relação ao seu trabalho anterior, "A Mulher sem Cabeça". Diferente dos seus outros três filmes, desloca-se no tempo (é o único passado fora dos limites da contemporaneidade) e no espaço (distante de Salta, a sua terra natal). A valorização dada aos exteriores, particularmente na segunda parte e com fotografia do português Rui Poças, eventualmente diferencia-o dos espaços fechados dos outros trabalhos.

Lucrecia Martel não concorda: “Não penso que o espaço aberto me obrigue a fazer outra coisa. Os diálogos fazem aparecer os personagens e estes os espaços, que não são algo natural. A paisagem não está acima dos personagens, portanto estou na mesma posição que antes”.

Já em relação a este recuo no tempo, permanece na mesma o gosto da cineasta por personagens comuns, que já foram médicos (“La Niña Santa - A Rapariga Santa”), dentistas (“A Mulher sem Cabeça”) ou proprietários de terras decadentes (“O Pântano”). Neste caso é um funcionário da Coroa.

“O que interessa é contar a história de gente que não ocupa um rol transcendente no rol histórico. Imagine a história de Portugal contada apenas através dos seus presidentes… Meu Deus, seria tristíssima! [risos]. Não conheceríamos nada do que realmente se passou. Hoje as investigações históricas têm evoluído neste sentido, mas nas escolas ainda existe um mundo feito de heróis e gente notável", expõe a cineasta

Ao mesmo tempo, os seus governadores espanhóis no filme não são mostrados com uma luz muito favorável. “Bom, fazer isso seria muito difícil” [risos].

Exigências ao espectador e ditaduras “hollywoodianas”

Quando Lucrecia Martel apareceu, a surpresa foi grande. Conforma recorda Jorge la Ferla, ela era de Salta, uma região longínqua em relação à capital da Argentina, quase na fronteira com a Bolívia.

“Ela tinha um outro olhar sobre o mundo. Em Buenos Aires tudo é muito rápido; ela tinha um outro olhar sobre o mundo, minimalista, com ênfase no detalhe. Nunca há ações violentas ou facilmente atrativas. É um cinema muito crítico, muito subtil, não de espetáculo, que requer participação e esforço do espectador”, salienta o académico.

O assunto mete em causa a questão do “arco narrativo”, uma das fórmulas cristalizadas eleitas por Hollywood para contar as suas histórias. Nada disto deixa Lucrecia Martel muito feliz, já que os seus filmes são fugas óbvias destes modelos.

Em "Zama" há um "fiapo" narrativo – o desejo do protagonista de voltar para casa.

"Hollywood impôs esse modelo do personagem que se transforma, que tem de começar num ponto e ir a outro. É uma arbitrariedade, tal como o facto de nos fazer crer que isso é o único cinema que existe. Não aceito que este seja o único caminho", revela Martel.

Antes das certezas, a realizadora prefere as dúvidas – como num dos seus filmes mais emblemáticos, “A Mulher sem Cabeça”. O enredo acompanhava uma protagonista que pode, ou não, ter atropelado um rapaz; à medida que o filme evoluía, até se duvidava que aquilo tudo tivesse acontecido.

“Prefiro que o meu cinema gere dúvidas, que suspeite da realidade. Prefiro isso a qualquer modelo que passa todo o tempo a querer provar-me que ‘o mundo é assim’ e que não se pode mover ou sequer pensar sobre esta realidade”, diz.

E não é nenhuma narrativa tradicional que ela goste?

"Bom, gosto muito de 'Mamma Roma’, de [Pier Paolo] Pasolini. Se fizermos um esforço podemos encontrar essa estrutura clássica, mas o argumento é apenas uma desculpa para organizar outras coisas", defende.

E Hollywood, nada?

Depois de muita pensar, consegue lembrar-se de Stanley Kubrick… ou David Cronenberg. Mas nenhum deles é, efetivamente, Hollywood…

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