Um filme ganhou visibilidade inesperada desde que ocorreram os atentados em Paris na noite de 13 de novembro: "Made in France", que devia estrear hoje nas salas de cinema da capital francesa e foi adiado para "data a determinar".

Qual é então a polémica que existe no filme de Nicolas Boukhrief?

As pistas encontram-se no provocador cartaz que estava a ser colocado por estes dias em estações de metro e autocarro da capital francesa com uma AK-47 a dominar a Torre Eiffel e a frase "a ameaça vem do interior".

No entanto, é a história em jeito de "thriller" que assume tons de chocante prelúdio à luz dos acontecimentos dos últimos dias: um jornalista muçulmano infiltra-se numa célula extremista jihadista nos subúrbios de Paris que está a preparar vários ataques sofisticados no centro da cidade.

O realizador, filho de pai argelino e mãe francesa, não fez "Made in Paris" à boleia dos acontecimentos que tem afetado a França este ano. Na verdade, o filme já estava pronto antes mesmo do ataque terrorista à redação do jornal satírico Charlie Hebdo em janeiro que vitimou 12 pessoas.

"Esta loucura dos jovens irem lutar na Síria não existia. A juventude que o filme representa são os jovens franceses como os irmãos Kouachi [os responsáveis pelo ataca ao Charlie Hebdo]", recordou o realizador ainda antes de 13 de novembro.

A ideia germinou com a morte de Khaled Kelkal, o terrorista argelino que orquestrou uma série de atentados bombistas que afetou a França no verão de 1995, e foram necessários quatro anos para investigar nos bairros da periferia e junto das autoridades as proporções dramáticas que podem ter as dificuldades de integração dos muçulmanos na sociedade laica francesa.

Mais tarde, o projeto enfrentou problemas de outra ordem: em 2012, foi recusado financiamento do Estado porque o tema era "trivial".

Claro que não é a primeira vez que a ficção do cinema antecipa a realidade. Não estamos a pensar nas divertidas comparações que se fizeram recentemente sobre o que "Regresso ao Futuro - Parte II", de 1989, acertou e falhou na sua visão de 21 de outubro de 2015. Nem nas admiráveis antecipações tecnológicas que procuraram fazer "2001 - Odisseia no Espaço" (1968) ou "Relatório Minoritário" (2002) ou sequer o advento da "reality TV" mostrado em "The Truman Show - A Vida em Directo" (1998) ou a mistura de informação e entretenimento retratada por "Escândalo na TV" (1976).

"Made in France" não procurava fazer nada disso. Simplesmente, "foi ultrapassado por acontecimentos reais", como lamentava Nicolas Boukhrief, sem saber que estava prestes a acontecer o mesmo.

Por estes dias, um outro filme francês, "La Désintégration", que passou relativamente despercebido em 2012 apesar das boas críticas, está a ser recordado como um filme presciente por retratar o caminho para a radicalização de três jovens que viviam nos subúrbios de Paris.

Um dos casos mais conhecidos de filmes "ultrapassados pela realidade" continua a ser o de "O Síndroma da China", com Jack Lemmon, Jane Fonda e Michael Douglas, que retratava um acidente que acontecia numa central nuclear e as tentativas para encobrir o que aconteceu: denunciado pelo poderoso setor como "pura ficção" e uma tentativa de "assassinato de caráter de toda uma indústria", tornou-se um sucesso de bilheteira por causa do gravíssimo acidente nuclear em Three Mile Island 12 dias depois da estreia.

Já em 1998, "Estado de Sítio" retratava um grupo terrorista que tinha como alvo Nova Iorque e fazia atentados contra a sede do FBI e um teatro na Broadway. Tinha um elenco de estrelas formado por Denzel Washington, Bruce Willis e Annette Bening, mas a história foi considerada bastante forçada e o filme foi mal recebido, mas ganhou nova vida após o 11 de setembro.

E poucos meses antes da estreia, "Força Anti-Crime" foi obrigado a cortar uma cena que envolvia um tiroteio que tinha lugar numa sala de cinema quando esse incidente se tornou realidade.

Veja o trailer de "Made in Paris".

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