Para quem acompanhou as tendências da temporada até ao fim, o palmarés foi previsível e a cerimónia voltou a passar, e muito, as três horas que estavam planeadas, mesmo com oito prémios entregues antes da emissão televisiva. Mas não será esse o momento de que mais se vai falar quando se fizer a história da 94.ª entrega dos Óscares.

Sim, anunciado por uma frágil Liza Minnelli em cadeira de rodas (50 anos após ganhar Melhor Atriz com "Cabaret, Adeus Berlim"), acompanhada por Lady Gaga, "CODA - No Ritmo do Coração" fez história nos Óscares ao ganhar Melhor Filme, o primeiro para uma plataforma de streaming, quebrando um tabu na história dos prémios (e provavelmente deixando muito infelizes Ted Sarandos e Reed Hastings, ligados à Netflix, e ainda os donos das salas de cinema). O filme fez mesmo o pleno das três nomeações: ganhou também as estatuetas de Ator Secundário e Argumento Adaptado (na origem está a produção francesa "A Família Bélier", de 2014).

Sim, tal como se esperava, "Dune" dominou nas categorias técnicas (seis prémios em dez nomeações), o Melhor Filme Internacional foi "Drive my Car" (Japão), "Encanto" foi a Melhor Longa-Metragem de Animação e "Summer of Soul (...Ou, Quando a Revolução Não Pôde ser Televisionada)" o Melhor Documentário. Ou seja, “Flee – A Fuga”, de Jonas Poher Rasmussen, ficou sem qualquer estatueta depois do feito histórico de ter sido o primeiro filme nomeado em simultâneo para nessas três categorias.

Óscares: veja aqui a lista completa de vencedores
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Jane Campion, também como esperado, recebeu o Óscar de Melhor Realização por "O Poder do Cão" (o segundo consecutivo para uma mulher e o terceiro em 94 anos), que acabou por ser um dos grandes derrotados da noite: foi o único prémio em 12 nomeações. E Billie Eilish, com apenas 20 anos, recebeu com o irmão Finneas O'Connell a estatueta de Melhor Canção por "007: Sem tempo Para Morrer".

Nas categorias de interpretação, o mesmo cenário de poucas surpresas: Jessica Chastain acabou mesmo por ser a Melhor Atriz por "Os Olhos de Tammy Faye", não se confirmando o ascendente de Penélope Cruz com "Mães Paralelas", Troy Kotsur recebeu a estatueta de Melhor Ator Secundário por "CODA" - o segundo ator surdo a receber um Óscar, depois de Marlee Matlin em 1987, sua colega neste filme - e Ariana DeBose foi a Melhor Atriz Secundária por "West Side Story".

Mas se o prémio mais previsível da noite era o de Will Smith como o Melhor Ator por "King Richard: Para Além do Jogo", nada à sua volta correu como estava no "guião" e não vai ser do seu prémio que mais se vai falar, mas sim de ter protagonizado um momento surreal e escandaloso: a sua agressão a Chris Rock em direto foi a primeira na história dos prémios.

Parecia rábula, mas foi a sério: Will Smith enfureceu-se e esbofeteou Chris Rock por causa de piada sobre Jada Pinkett Smith

Will sMith Chris Rock
Will sMith Chris Rock

O momento gelou a sala no Dolby Theatre e deixou os espectadores em casa confusos: Chris Rock estava no palco para anunciar o Óscar de Melhor Longa-Metragem Documental e, entre várias outras passagens de humor, fez uma piada sobre "mal poder esperar por ver Jada Pinkett Smith fazer 'G.I. Jane 2', já que agora tem o cabelo rapado".

Will Smith começou por rir, mas Jada Pinkett Smith acenou com a cabeça em desaprovação e o ator subiu ao palco, esbofeteou Chris Rock e regressou depois para o seu lugar a vociferar palavrões e a gritar "mantém a ***** do nome da minha mulher longe da tua boca".

Os palavrões foram cortados na emissão nos EUA aproveitando os sete segundos de 'delay', mas não a nível internacional e rapidamente o momento se tornou viral.

Veja o momento no vídeo abaixo:

Numa cerimónia em que tudo é planeado ao detalhe, os presentes no local e quem assistia em casa começaram por achar tratar-se de uma brincadeira encenada, mas rapidamente ficou claro que o momento tinha sido genuíno e tinha mesmo sido uma espécie de rixa e não uma rábula.

A atriz Jada Pinkett Smith, mulher de Will Smith, sofre de alopecia, uma condição que causa repentina perda de cabelo, e é por esse motivo que tem o cabelo rapado.

Deve dizer-se que Chris Rock continuou com a sua apresentação dos nomeados para Melhor Documentário de forma muito profissional, mas debaixo de uma evidente tensão após dizer "Uau, o Will Smith acabou de me bater" e "Esta foi... a maior noite na história da televisão".

As autoridades disseram à revista Variety que Chris Rock não tenciona avançar com uma queixa contra Will Smith: "A Polícia de Los Angeles está a par de um incidente entre duas pessoas durante o espetáculo dos Óscares. O incidente envolveu um indivíduo a dar uma bofetada noutro. O indíviduo envolvido não quis formalizar uma queixa. Se a parte envolvida desejar um relatório policial mais tarde, a polícia de Los Angeles estará disponível para completar uma investigação".

Questlove certamente esperava outro ambiente na sala quando discursou ao aceitar o prémio por "Summer of Soul", mas a noite ficou definitivamente estragada, apesar de Sean Combs ter subido ao palco a seguir para apresentar a homenagem aos 50 anos de "O Padrinho" e dizer "Will e Chris, vamos resolver isto como família. Por agora, vamos prosseguir com amor".

Durante o intervalo seguinte, a publicista de Will Smith foi até junto do ator para discutir a altercação com ele, de acordo com a Variety, e continuou a fazê-lo entre todas as interrupções. Também os atores Denzel Washington e Bradley Cooper, assim como o realizador Tyler Perry, terão falado com ele durante a pausa na cerimónia. Não se sabe se estava planeado ou não, mas as anfitriãs desapareceram até voltar Amy Schumer e perguntar "Perdi alguma coisa? Existe uma vibração diferente aqui...".

Will Smith

Mais à frente na cerimónia, ao vencer o Óscar de Melhor Ator por "King Richard: Para Além do Jogo", Will Smith referiu indiretamente o momento de tensão com Chris Rock por algumas vezes no seu discurso.

O ator começou o discurso dizendo "o Richard Williams era um defensor feroz da sua família", numa aparente alusão ao incidente.

"Neste momento da minha vida, estou dominado pelo que Deus me destina a fazer no mundo", disse ainda. "Nesta indústria temos de estar habituados a ter pessoas a desrespeitarem-te e sorrir perante isso", acrescentou.

Smith mencionou igualmente o ator Denzel Washington, que tentou acalmar, lembrando-lhe que, "no momento mais alto, é quando o diabo nos tenta".

No meio do discurso e sem referir diretamente o momento com Chris Rock, Will Smith acabou por pedir desculpa: "Quero pedir desculpa à Academia e aos meus colegas nomeados. O amor faz-nos fazer coisas loucas". E terminou dizendo "espero que a Academia volte a convidar-me".

À saída do palco, tinha outra vez a sua publicista à espera e não passou pela sala de entrevistas.

Duas horas após o fim da cerimónia, surgiu a reação oficial nas redes sociais: "A Academia não tolera qualquer tipo de violência. Esta noite, temos o prazer de celebrar os nossos vencedores dos 94.º Óscares, que merecem este momento de reconhecimento dos seus colegas e amantes do cinema em todo o mundo".

Esta também não foi a primeira vez que Chris Rock fez uma piada mais "arriscada" sobre Jada Pinket Smith. Na cerimónia de 2016, Rock gozou com os protestos conta os #oscarssowhite e disse "a Jada a boicotar os Óscares é como eu boicotar as cuecas da Rihanna. Não fui convidado".

Cerimónia arrancou com Beyoncé e humor mais arriscado das anfitriãs

Amy Schumer, Wanda Sykes e Regina Hall

Quando tudo ainda estava bem, Venus e Serena Williams abriram a cerimónia do palco do Dolby Theatre a apresentar a atuação de Beyoncé da canção "Be Alive", de "King Richard", em direto dos campos de ténis de Compton onde as irmãs começaram a dar os primeiros passos no ténis.

Seguiu-se a entrada das anfitriãs Amy Schumer, Wanda Sykes e Regina Hall para um breve monólogo com algumas piadas mais arriscadas do que é habitual na maior noite do cinema ("onde os amantes do cinema se juntam e veem televisão", destacou Sykes).

"Este ano, a Academia escolheu três mulheres para serem anfitriãs porque é mais barato do que contratar um homem" disse Schumer, que após Sykes e Hall dizerem quais as comunidades que representavam, disse "Estou a representar as mulheres brancas insuportáveis que chamam a polícia quando vocês falam muito alto".

Houve piadas a "O Poder do Cão" (Wanda Sykes a dizer que viu três vezes e já tinha conseguido chegar a meio), ao impacto da pandemia em Timothée Chalamet (as câmaras focaram J.K Simmons), à presença dos Globos de Ouro na secção "In Memoriam" (Hollywood boicotou a cerimónia por causa de um escândalo com a falta de representatividade na organização), aos que não foram nomeados (Rachel Zegler por "West Side Story", Jennifer Hudson por "Respect", e Lady Gaga e Jared Leto por "Casa dos sotaques aleatórios") ou a falta de comédias românticas e musicais no currículo do vencedor do Óscar honorário Samuel L. Jackson.

No fim e numa referência à polémica proposta de lei "Don´t Say Gay" [Não Digas Gay] recentemente aprovada no estado da Flórida, Sykes prometeu: "Vamos ter uma grande noite e para os que estão na Flórida, vamos ter uma noite 'gay'". O trio repetiu a seguir a palavra "gay" várias vezes.

Com a cerimónia a dividir o seu tempo pelas três anfitriãs, Schumer continuou para abordar mais alguns temas e saiu-se ainda melhor no humor acutilante, como "a inovação de fazer um filme ['Os Ricardos'] sobre [a comediante] Lucille Ball sem um momento sequer que seja engraçado" ("é como fazer um filme sobre o Michael Jordan e apenas mostrar as viagens de autocarro entre os jogos”), um filme não sobre as irmãs Williams mas o pai, e as críticas pouco unânimes de "Não Olhem Para Cima", mas a maior reação da sala foi com uma piada sobre o protagonista do filme Leonardo DiCaprio e o seu conhecido hábito de namorar mulheres mais novas: 'Leonardo DiCaprio está a fazer tanto pelo planeta. Vai deixá-lo em melhor estado para as suas namoradas'.

Mas tal como aconteceu no passado, as anfitriãs foram aparecendo cada vez menos após o prometedor começo, principalmente Regina Hall, claramente sacrificada quando a cerimónia começou claramente a ultrapassar o tempo programado. O trio reuniu-se no fim para se despedir.. de pijama.

Altos e baixos antes da cerimónia descarrilar

Troy Kotsur com Youn Yuh-jung

Após a cerimónia "socialmente distante" na Union Station do ano passado que bateu o mínimo histórico de 10,4 milhões de espectadores nos EUA, o regresso à casa tradicional do Dolby Theatre acontece sob a grande pressão de subir as audiências e restaurar o brilho dos filmes e o glamour das estrelas que existiam antes da pandemia.

VEJA AS ESTRELAS NA PASSADEIRA VERMELHA.

Com o objetivo de subir as audiências e cativar o público mais jovem com um evento mais dinâmico e que não ultrapassasse as três horas, a Academia e o canal ABC tomaram decisões controversas.

Vale a pena perguntar (e certamente que haverá um balanço "aceso" no Conselho dos Governadores da Academia) se valeu a pena passar por toda a polémica de empurrar a revelação dos premiados em oito categorias para antes da emissão televisiva: em vez do prometido espetáculo inovador e moderno, os produtores Will Packer e Shayla Cowan apresentaram uma mistura dos Grammys com MTV Movie Awards que chegou às três horas e 42 minutos. Segundo os registos oficiais disponíveis, terá sido a 11.ª mais longa de sempre (o recorde, felizmente, continua nas quatro horas e 23 minutos que foram precisas para se saber que "Uma Mente Brilhante" ganhou o Óscar de Melhor Filme a 24 de março de 2002).

Lady Gaga e Liza Minelli anunciam "CODA" como Melhor Filme

Houve momentos inspirados, como um vídeo pré-gravado com Wanda Sykes a visitar o Museu da Academia e confundir um Orc de "O Senhor dos Anéis" com o antigo produtor Harvey Weinstein, condenado a 23 de prisão por crimes sexuais. Regina Hall também chamou ao palco Bradley Cooper, Timothée Chalamet, Tyler Perry e Simu Liu porque havia um problema com os seus testes COVID-19 e ela teria de lhes fazer um novo teste, mas o gosto do humor juvenil ficou em causa quando a seguir, ainda a pretexto dos protocolos de segurança, revistou Josh Brolin e Jason Momoa.

A polémica na última semana à volta da falta de convite para Rachel Zegler, a estrela-revelação de "West Side Story", assistir à cerimónia também foi bem gerida: quando Jack Elordi disse que nunca pensou que alguma vez estaria naquele palco ao crescer na Austrália, a atriz acrescentou, para risada geral na audiência, "E eu nunca pensei que estaria aqui há seis dias. Os sonhos realmente podem tornar-se realidade — bastante depressa, também".

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Outro momento planeado que correu bem foi a primeira atuação ao vivo de "We Don't Talk About Bruno", a canção de "Encanto" que se tornou um fenómeno comparável ao de “Let It Go” em “Frozen – O Reino do Gelo” (2013).

Veja aqui a atuação.

De facto, os melhores momentos voltaram a ser os que não foram encenados, como Ariana DeBose, a primeira afro-latina queer a ganhar o Óscar de Melhor Atriz Secundária por interpretar Anita em "West Side Story", 60 anos depois de Rita Moreno ter feito o mesmo e também ganho a estatueta: "Estou tão grata pela tua Anita ter aberto o caminho para imensas Anitas como eu", disse à atriz de 90 anos que estava na audiência.

Tudo à volta da entrega do Óscar de Melhor Ator Secundário também encantou, a começar pela sempre adorável Youn Yuh-jung a dizer que estava arrependida de se ter ter queixado demasiado das pessoas que não conseguiam dizer bem o seu nome depois ter ganho no ano passado com "Minari" pois agora tinha de pronunciar os nomes de Ciarán Hinds, Jesse Plemons, J. K. Simmons, Kodi Smit-McPhee e do eventual vencedor, Troy Kotsur por "CODA - No Ritmo do Coração", que foi aplaudido em linguagem gestual pelo público presente e a certa altura brincou que teve a tentação de ensinar palavrões ao presidente dos EUA Joe Biden durante uma apresentação do filme esta semana na Casa Branca, mas foi impedido e repreendido por Marlee Matlin, a sua colega no filme e a primeira atriz surda distinguida pela Academia por "Filhos de Um Deus Menor", na cerimónia de 1987.

Antes de Will Smith subir ao palco para confrontar Chris Rock e esfriar a cerimónia definitivamente, ainda foi entregue o Óscar de Melhor Filme Internacional a "Drive My Car" (a quinta estatueta para o Japão), com o realizador Ryusuke Hamaguchi a optar por falar um inglês pouco percetível apesar de ter a tradutora ao lado; Jennifer Garner, Elliot Page e J.K. Simmons (a celebrar os 15 anos de "Juno") a entregar o Óscar de Melhor Argumento Original a Kenneth Branagh por "Belfast", para contentamento da audiência (o único prémio do filme); Shawn Mendes e Tracee Ellis Ross a anunciarem o do Argumento Adaptado para "CODA", da responsabilidade da realizadora Sian Heder, tirando praticamente as dúvidas em relação ao prémio final (um dos nomeados na categoria era "O Poder do Cão) e Rami Malek a introduzir Billie Eilish e Finneas para interpretar a canção de "007: Sem tempo Para Morrer".

Luso-canadiano Luís Sequeira não vence o Óscar

Luís Sequeira não venceu o Óscar de Melhor Guarda-Roupa por “Nightmare Alley - Beco das Almas Perdidas”. A estatueta dourada foi para o filme “Cruella”, da Disney.

Esta era a segunda vez que o designer luso-canadiano estava na corrida: fora nomeado há quatro anos por “A Forma da Água”, outra colaboração com o realizador Guillermo del Toro.

Em entrevista à Lusa pouco depois de serem conhecidas as nomeações em fevereiro, Luís Sequeira reconheceu que a segunda nomeação era uma “responsabilidade enorme” pois estava a sentir muita pressão enquanto português para levar a estatueta para casa.

Mas foi Jenny Beavan que confirmou o favoritismo e ganhou a estatueta pela terceira vez, após filmes tão diferentes como "Quarto Com Vista Sobre a Cidade" (1985) e "Mad Max: Estrada da Fúria" (2015), ultrapassado na categoria ainda ainda “Cyrano”, “Dune- Duna” e “West Side Story”.

"Dune" domina categorias técnicas

Josh Brolin e Jason Momoa

Talvez a melhor decisão tenha sido a de Hans Zimmer: o compositor nem sequer foi à cerimónia para receber apenas a segunda estatueta da sua carreira por "Dune", 27 anos depois de ter ganho com "O Rei Leão".

Banda sonora foi uma das oito categorias anunciadas na hora que antecedeu a emissão televisiva, uma inovação para "priorizar os telespectadores", não ultrapassar as três horas e dar mais tempo para as apresentações musicais, quadros de comédia e homenagens, como destacava a comunicação do presidente da Academia David Rubin em fevereiro.

A decisão foi muito criticada dentro e fora da indústria, com acusações de dividir os profissionais entre artistas de primeira e segunda classe, mas a Academia e o canal ABC não recuaram. Numa resposta clara, muitas estrelas fizeram questão de chegar muito mais cedo à passadeira vermelha e segundo a revista The Hollywood Reporter, 80% do Dolby já estava preenchido no início da "pré-cerimónia" para apoiar os colegas "desprezados".

Riz Ahmed e Aneil Karia

Banda Sonora, Montagem, Direção Artística, Caracterização, Som e as Curtas (ação real, animação e documentário) foram mesmo entregues por Josh Brolin e Jason Momoa e depois mostrados na emissão numa versão muito editada e impessoal em relação ao resto da cerimónia ao vivo que durou oficialmente três horas e 42 minutos.

Resultado: entre aqueles que quiseram dar o benefício da dúvida para ver como corria a experiência e os que sempre se opuseram à ideia e só estavam à espera dos resultados para organizar uma resistência mais eficaz para o ano que vem, sobram argumentos para não repetir o formato.

Este foi o segmento onde se começou a ver o esperado domínio de "Dune - Duna" nas categorias técnicas, com quatro Óscares: Som, Banda Sonora, Montagem e Direção Artística. Durante a cerimónia em direito chegaram mais dois: Fotografia e Efeitos Visuais.

Os restantes quatro Óscares foram para “The Long Goodbye” (Curta-Metragem em ação real), com um dos premiados a ser o ator Riz Ahmed; “The Queen of Basketball” (Documentário em Curta-metragem), “The Windshield Wiper” (Curta-metragem de Animação) e "Os Olhos de Tammy Faye" (Caracterização).

Ucrânia, mas pouco

Mila Kunis

Não, Volodymyr Zelensky não participou na cerimónia e foi preciso mais de hora e meia para a emissão finalmente fazer uma alusão ao que estava a passar na Ucrânia.

Quando surgiu em palco Mila Kunis, de origem ucraniana, pensou-se que seria o momento em que a cerimónia iria abordar diretamente o conflito, mas a atriz falou indiretamente sobre como "os recentes eventos globais deixaram muitos de nós a sentirem-se destroçados. No entanto, quando testemunhamos a força e dignidade daqueles que enfrentam tanta devastação, é impossível não ficar emocionado com a sua resiliência. Não se pode deixar de admirar aqueles que encontram forças para continuar a lutar numa escuridão inimaginável", antes de referir que isso também era abordado na canção que ia introduzir, "Somehow You Do" do filme "Quatro Dias a teu Lado", de Diane Warren.

A seguir à interpretação de Reba McEntire, fez-se silêncio e passou um texto em três slides: "Gostaríamos de ter um momento de silêncio para mostrar o nosso apoio ao povo da Ucrânia que atualmente enfrenta invasão, conflito e preconceito dentro das suas próprias fronteiras. Embora o cinema seja uma via importante para expressarmos a nossa humanidade em tempos de conflito, a realidade é que milhões de famílias na Ucrânia precisam de comida, assistência médica, água potável e serviços de emergência. Os recursos são escassos e nós – coletivamente como uma comunidade global – podemos fazer mais- Pedimos-vos para apoiarem a Ucrânia de qualquer forma que possam. #StandWithUkraine [Apoiamos a Ucrânia]”.

Tudo parecia encaminhado para nem sequer se ouvir "Ucrânia" pronunciado na cerimónia, mas acabou por acontecer duas vezes: por Francis Ford Coppola, quando no final da homenagem pelos 50 anos da estreia de "O Padrinho" ao lado de Al Pacino e Robert De Niro, terminou com um "Viva Ukraine!"; e por Amy Schumer, que na segunda-feira deixara no ar que fora rejeitada a sua ideia de convidar o estadista e antigo ator e comediante para participar, ao referir que existia um "genocídio na Ucrânia" durante uma listagem dos problemas do mundo perto do fim da cerimónia.

Al Pacino, Francis Ford Coppola e Robert De Niro

Segundo o jornal The New York Times, assessores do presidente ucraniano pressionaram para uma aparição em vídeo de última hora, mas os produtores optaram pelo "momento de silêncio" e as reações nas redes sociais a esta abordagem não se fizeram esperar e foram maioritariamente negativas, não passando despercebido que houve mais ataques a políticos do Partido Republicano durante os primeiros dez minutos da cerimónia.

Resta saber o que dirá Sean Penn: no sábado, o ator disse à CNN que “a Academia não pode fazer nada maior do que dar a Volodymyr Zelensky a oportunidade de falar", que uma falta de apoio seria "o momento mais obsceno em toda a história de Hollywood" e ameaçou derreter em público as duas estatuetas de Melhor Ator que ganhou pelos filmes "Mystic River" e "Milk" se não lhe fosse dada autorização para falar.

Jessica Chastain nunca tinha pegado num Óscar

Jessica Chastain

“Ainda não consigo acreditar que estou a segurar num Óscar”, afirmou Jessica Chastain, consagrada pelo papel principal em “Os Olhos de Tammy Faye”, olhando repetidamente para a estatueta.

“Esta é a primeira vez que pego num Óscar”, disse, revelando que sempre se tinha recusado a tocar num por superstição.

Na conversa com a imprensa após receber o prémio, recordou como comprou os direitos da história de Tammy Faye há dez anos, e sublinhou o “enorme significado” de ser distinguida por um filme que fez acontecer.

“É muito especial fazer parte de um filme que corrige uma injustiça e reexamina uma vida”, afirmou a atriz, revelando que trocou mensagens com os filhos de Faye durante a cerimónia.

“É um momento bonito e significa muito para mim em termos da minha profissão, mas também em termos da minha vida e do que estou a pôr no mundo”, destacou.

#OscarsFanFavorite também correu mal à Academia

Exército dos Mortos

A iniciativa #OscarsFanFavorite que juntou Academia e Twitter, vista como uma tentativa "engenhosa" que recuperar o espírito da categoria do "Óscar do Filme Mais Popular", proposta pela Academia para 2019 e retirada depois de fortes críticas, foi outra das inovações criticadas para os Óscares deste ano: os fãs (americanos) foram desafiados a votar nos seus filmes preferidos de 2021 (independentemente de terem sido ou não nomeados) e quem ganhasse a votação seria mencionado na cerimónia.

Visto como uma iniciativa para gerar mais entusiasmo pela cerimónia e um prémio de consolação para "Homem-Aranha: Sem Volta a Casa" e o seu gigantesco sucesso de bilheteira, os fãs tiveram outras ideias: o filme ficou em quarto lugar, à frente de "Tick, Tick... Boom!" e atrás de "Minimata" com Johnny Depp, "Cinderella" com Camila Cabello e... o mais popular "Exército dos Mortos", de Zack Snyder, que nem estreou nos cinemas e cujas imagens passaram discretamente antes de um dos intervalos.

A tendência repetiu-se na eleição das cenas de celebração da história do cinema: em primeiro lugar ficou a do Flash a entrar na Força de Aceleração em "Liga da Justiça de Zack Snyder", outro filme que só passou na HBO Max.

"CODA - No Ritmo do Coração" é um marco de representação

O drama sobre uma família surda superou pesos pesados e deu à Apple a tão esperada estatueta, que se destaca de rivais como a Netflix, bem como dos tradicionais estúdios de Hollywood. Mas também se estabelece como um marco de representação no cinema.

"Escrever e fazer este filme foi um desafio vital como artista e como ser humano. Quero agradecer a todos os meus colaboradores da comunidade surda, da comunidade 'coda', por serem os meus professores", disse a realizadora Sian Heder ao receber a estatueta do argumento Adaptado.

"CODA: No Ritmo do Coração" foi lançado pela plataforma Apple TV+ depois de vencer uma guerra pela aquisição de direitos no festival de Sundance do ano passado, pagando 25 milhões de dólares. A realizadora, segundo especialistas, teria contado com um orçamento de 10 milhões, descartando rodar em locais caros para se concentrar na história da adolescente Ruby Rossi (Emilia Jones), a única na sua família que não é surda e está dividida entre sair de casa para seguir o sonho de ser cantora e ajudar os pais a comunicar com o mundo exterior.

Sem grandes virtuosismos técnicos, "CODA" foca-se principalmente nos atores para contar a história, que esbanjam química em cena. O filme estabeleceu um marco em matéria de representatividade ao apresentar um elenco autêntico, liderado pela atriz Marlee Matlin, que com décadas de carreira em Hollywood, dá vida à mãe excêntrica e vulnerável de Ruby, enquanto Troy Kotsur interpreta o pai e Daniel Durant o irmão da adolescente.

Nos bastidores da cerimónia, Siân Heder disse que lutou para que fosse Troy Kotsur a interpretar o pai da família de surdos porque queria que a história fosse bem contada.

“Finquei o pé. Durante muito tempo, pensei que, por causa do que acredito e de como este filme devia ser feito, não ia conseguir fazê-lo”, lembrou Heder. “Eu preferia ver o filme a morrer e nunca ser feito do que a ser feito da maneira errada”.

Para analistas da indústria, "CODA - No Ritmo do Coração" tornou-se um sucesso retumbante graças à sua perspetiva familiar e ao apostar no tradicional enredo de superação de adversidades.

A produção contratou uma equipe de consultores especializados na linguagem de sinais para traduzir o argumento de Heder e usá-lo como elo entre o elenco. Juntos, eles escolheram gestos do vocabulário de sinais que se adaptavam melhor aos usados em Massachusetts, onde se passa a história, e que poderiam ser decifrados de forma intuitiva pelo público não familiarizado.

“Quando chegámos ao [festival] Sundance, o filme nem sequer tinha distribuidor”, disse Siân Heder. “Fui na esperança de que alguém o comprasse e agora ganhámos Melhor Filme”, afirmou.

A realizadora disse esperar que estas vitórias sejam inspiradoras para jovens mulheres que querem fazer filmes, e para todos os cineastas independentes que estão a enfrentar dificuldades.

Também salientou a natureza histórica de um filme sobre uma família de surdos com três protagonistas surdos ter vencido os Óscares.

“Este filme celebra a cultura surda”, disse Heder. “Estamos a dizer: 'Vocês pertencem aqui, as vossas histórias são importantes'”, continuou, confiante de que “CODA” pode ser “a pedra no topo da montanha que desencadeia uma avalanche”.

“Espero que isto não seja um filme, que seja um movimento”, afirmou. Chamando a atenção para o facto de ter uma intérprete de linguagem gestual ao seu lado, disse que “há pessoas surdas em casa que precisam de ver isto e participar. É um momento histórico para a comunidade”.

O produtor Patrick Wachsberger, que elogiou a tenacidade do cinema independente, prometeu que estes filmes continuarão a ser feitos. “As boas histórias vão sempre continuar vivas”, indicou.

O triunfo de "CODA: No Ritmo do Coração" na temporada de prémios representa um grande impulso para a Apple, que, com um grande investimento, tenta compensar a sua chegada tardia à guerra do streaming, dominada por rivais como Netlix e Disney+.

Mas do que se vai falar por muitos anos é de Will Smith e como tirou todo o brilho ao que devia ter sido o momento da consagração da sua carreira...