Com "Eu Sou o Amor" (2010), o realizador italiano Luca Guadagnino lançou-se numa bem sucedida carreira internacional que inclui "Mergulho Profundo" (2015) e uma nova versão de "Suspiria" (2018), além da recente série para a HBO "We Are Who We Are".

No entanto, o seu trabalho com mais impacto mediático continua a ser "Chama-me Pelo Teu Nome" (2017), sobre a história do primeiro amor de Elio, um precoce rapaz italo-americano de 17 anos, com Oliver (Armie Hammer), um jovem académico americano que chega no verão de 1983 para ser o novo assistente do seu pai.

O filme ganhou o Óscar de Melhor Argumento Adaptado e deu nova projeção à carreira de Armie Hammer e lançou a de Timothée Chalamet, mas no atual debate sobre a falta de representatividade de atores LGBTQ+ em filmes e séries, perguntaram ao realizador se era apropriado escolher atores heterossexuais para interpretarem personagens homossexuais.

"Leio demasiado Freud para levar a série esse tipo de críticas", respondeu durante uma entrevista ao jornal britânico The Independent.

"O que significa que honestamente não acredito que tenha o direito de decidir se um ator é hetero ou não. Quem sou eu para saber o que alguém está a pensar de si mesmo dentro de si. Sim, Armie é um homem heterossexual com mulher e filhos e o mesmo pode ser dito do Timothée. Mas devo pedir-lhes que jurem pela sua sexualidade, pelas suas identidades, pelos seus desejos, antes de os escolher? Eu não!", continuou.

Aprofundando a questão, Luca Guadagnino, que é homossexual, não encontra méritos no atual debate de que as personagens LGBTQ+ devem ser obrigatoriamente interpretadas por atores LGBTQ+, que está a ter relevância principalmente nos EUA.

"Isso parece chato e um pouco absurdo. Se tivesse que escolher o que as pessoas acham que é real para um papel, não conseguiria. Não posso escolher um homossexual para interpretar Oliver. Tenho de escolher Oliver para interpretar Oliver porque as identidades dos homens homossexuais são tão diversas quanto as flores no reino da terra. Portanto, não existe uma identidade gay. Uma pessoa que é gay é completamente diferente de outra que é gay", defende.

"Portanto, se tiver que ser fiel a esse tipo de comentário maçador, escolheria o Oliver mas o Oliver não existe. Ele é uma criatura do [escritor] André Aciman. Voltamos ao último ponto que quero destacar, que é que a beleza da representação é a possibilidade da criação e encarnação de novas personalidades através da arte da representação", explica para rejeitar a limitação de fazer coincidir orientação sexual de personagem e ator.

Luca Guadagnino dá um exemplo concreto para defender o seu ponto de vista: Anthony Hopkins em "O Silêncio dos Inocentes" é a sua primeira referência que lhe vem à cabeça quando pensa em grandes retratos de assassinos em série.

"Será que o senhor Hopkins precisa ser um assassino em série para interpretar essa personagem?", conclui.

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