Em agosto do ano passado, a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas anunciou várias decisões para combater a quebra de audiências da cerimónia.

Uma foi a da criação do Óscar para o "filme mais popular", tão contestada e ridicularizada que a própria organização a deixou cair menos de um mês mais tarde. A outra era a de que os vencedores de algumas categorias seriam conhecidos durante os intervalos para a cerimónia no canal ABC não passar as três horas.

Provavelmente a decisão de acabar com a tradição de apresentar as 24 categorias em direto não causou tanta revolta porque as atenções ficaram para o "Óscar popular" e não foram logo anunciadas as que ficavam de fora.

Isso acabou na segunda-feira, quando John Bailey, presidente da Academia, revelou os membros que as sacrificadas eram Fotografia, Montagem, Caracterização e Melhor Curta-Metragem de Imagem Real.

Óscares: Academia revela categorias que vão ser empurradas para intervalos da cerimónia
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Os discursos dos vencedores das quatro categorias serão transmitidos em diferido ainda durante a cerimónia e também vistos, em direto e sem cortes, por streaming no site Oscar.com e nas redes sociais da Academia.

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Segundo fontes ouvidas pelo The Hollywood Reporter, uma demonstração em vídeo foi apresentada aos representantes dos ramos da Academia em que apenas era cortado o tempo que os vencedores demoram a chegar ao palco e que terá reduzido a preocupação com o "desrespeito" pelas categorias que serão afetadas. O objetivo comunicado é que se pretende manter o espírito dos discursos, mas estes também podem ser editados se se tornarem "uma longa lista de agradecimentos".

Apesar disso, não tardaram as reações de escárnio e mesmo indignação de Hollywood e críticos de cinema.

O realizador mexicano Guillermo del Toro, vencedor da última cerimónia dos Óscares com "A Forma da Água", foi o mais diplomático: "Se me permitem: não pretendo sugerir que categorias cortar durante a cerimónia dos Óscares, mas — Fotografia e Montagem estão mesmo no coração do nosso ofício. Não são herdados de uma tradição teatral ou literária: eles são o próprio cinema".

O compatriota e amigo Emmanuel Lubezki, o único diretor de fotografia a ganhar três estatuetas consecutivas, reproduziu e agradeceu o comentário, mas antes escreveu que "fotografia e montagem são provavelmente as 'particulas elementares', os componentes primordiais do cinema. É uma decisão infeliz".

"Escandaloso" e "um pouco humilhante" foram outras reações recolhidas pelo The Wrap e The Hollywood Reporter de votantes dos Óscares que não quiserem ser identificados.

Alguns dos que criticam reconhecem que é preciso "fazer alguma coisa para encurtar a cerimónia", mas não Scott Beck e Bryan Woods, argumentistas de "Um Lugar Silencioso", que escreveram nas redes sociais: "'Tão entusiasmados por ver os Óscares este ano porque vão ser uns minutos mais curtos!' – [diz] 'Millennial' que não vai à mesma ver os Óscares".

"Cerimónia televisiva que tem como único propósito empacotar para consumo público a celebração da arte cinematográfica anuncia que a celebração da arte cinematográfica é demasiado aborrecida para o consumo público", ridicularizou Steve Yedlin, diretor de fotografia de "Star Wars: Os Últimos Jedi".


Jordan Horowitz, produtor de "La La Land", partilhou simplesmente um emoji com o polegar para baixo, mas mais tarde republicou uma mensagem do crítico Brian Tallerico e pediu para tomarem nota: "Quando 'Roma' ganhar e as audiências caírem, a narrativa vai ser que a Academia e os espectadores são mais diferentes do que nunca, quando devia ser que que esta é a pior cerimónia produzida de TODOS OS TEMPOS".

"Um dia negro para a Academia", escreveu Adam Benzine, nomeado em 2015 para o agora "excluído" Óscar de Melhor Curta-Metragem de Imagem Real por "Claude Lanzmann: Spectres of the Shoah".

"A coisa mais triste sobre este desrespeito colossal pelo ofício do cinema? Ver como cortar três minutos dos discursos em direto dos profissionais que dedicaram as suas carreiras ao ofício não faz NADA para parar o declínio das audiências", acrescentou.

Tribeca, o festival nova iorquino fundado por Robert De Niro e cada vez mais prestigiado, escreveu: "Esta decisão revela um desrespeito desmedido pelos técnicos e cineastas cujo trabalho é tão essencial para o sucesso de um filme como as estrelas acima do título. Os nomeados nestas categorias merecem o seu momento de reconhecimento na própria cerimónia. Academia, faça melhor".

A crítica de cinema do New York Times Manohla Dargis é uma das que não perdoa que a exclusão tenha sido anunciada por um presidente da Academia que também é diretor de fotografia: "A inspiração para Bailey se tornar diretor de fotorafia veio de Vittorio Storaro. Entre os seus filmes estão 'Mishima' e 'O Feitiço do Tempo' e ele escreve um blogue para a organização americana dos diretores de fotografia. Esta decisão é insultuosa e errada".

O autor e jornalista Mark Harris salientou que "isto é um fracasso de gestão, uma falta de coragem, uma falha de produção, uma falha em entender televisão, uma falha televisiva na custódia dos Óscares e uma falha na direção da Academia", acrescentando que "isto é sobre a ABC a usar as audiências em queda para TODAS as cerimónias de prémios como uma forma de dizer à Academia 'Vocês estão a fazer errado' com o objetivo de tornar a cerimónia num espaço de televendas para os produtos comerciais de Hollywood, incluindo os seus, e a Academia a ser demasiado ingénua sobre televisão para perceber que está a ser enganada".

"Além disso", acrescentou, "que curioso que nenhuma das categorias empurradas para os intervalos apresente um nomeado da Disney, a empresa dona da ABC".

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