Uma carrinha da polícia vai sendo preenchida por vários prisioneiros de grupos opositores: de um lado, a irmandade muçulmana, do outro, apoiantes dos militares.

E se lá fora, tudo é arma para atirar, aqui dentro, basta o olhar, que se sente como respiração na nuca: quente e extremamente ameaçador. Porque este filme provocador do realizador egípcio acontece todo dentro da parte de trás da carrinha.

Aquilo a que assistimos em "Clash" é só uma pequena parte do conflito de 2013 que rebentou após a revolução egípcia, e no conforto da cadeira da sala do cinema estamos lá, lado a lado com religiosos e hipsters, com lobos solitários e famílias unidas, com jornalistas e inocentes sem opinião para o que os rodeia.

Diálogos humorados e silêncios constrangedores vão-se atropelando numa espiral violenta que nos elucida do que vêem pelas grades: a brutalidade dos motins coreografados com mestria, com rastilho curto.

Com um trabalho de câmara soberbo que nos frustra e nos expande, tanto naquilo que não deixa ver como no que realça com a proximidade, "Clash" é um filme visceral sobre raiva e crueldade, onde a exaustão não nos prepara para o que aí vem.

Na tradição de "Um Barco e Nove Destinos", de Hitchcock, ou "Líbano", de Samuel Maoz, "Clash" usa o espaço para tirar o pior de cada um, mas também cria uma redoma para sarar as feridas de um todo. Neste caso, as de um país.

Autor: Daniel Antero

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