Sexta-feira à noite, 21h30, e o termómetro tira as dúvidas de que o calor veio, definitivamente,para ficar. Aos poucos, a sala do Parque das Nações vai-se compondo e os sussurros fazem prever um incêndio de Soul e R&Bno regresso da cantora norte-americana a Portugal.

Alicia Keys apresenta-se numa escadaria, num cenário surpreendentemente simples para uma entertainer tão carismática. De chapéu negro, numa alusão ao estilo de Michael Jackson, e com uma indumentária teatral de lantejoulas azuis, convida-nos, desde logo,a fazer parte de uma breve viagem por Nova Iorque, ao cantar “Streets Of New York”. A marcar o compasso de “Karma”, na descida que atraz ao piso térreo, Miss Keys faz-se ouvir de alma pop gritada ao microfone.

“Olá Lisboa, we’re going to have some fun” - uma promessa que faz perceber que não é o aparato visual, as coreografias sedutoras, a carga sexual e guarda roupa arrojado que fazem uma artista brilhar. Sentada ao seu piano branco, não dá descanso ao entusiasmo do amor à primeira vista com “You Don’t Know My Name”. A sua voz é ainda mais deliciosa ao vivo, mesmo quando fala ao telefone com o rapaz a quem serve um “special, with an hot chocolat”.E o público aprova a relação, com borboletas no estômago.

Para além de mestre de cerimónias, Alicia Keys é pianista. Desde tenra idade, aprendeu o ofício que, combinado com histórias de encantar e um groove que faz Prince ficar emocionado, lhe dá o maior reconhecimento artístico. Em “Tears Always Win”, o último single saído de "Girl On Fire" (2012), há qualquer coisa de Whitney Houston no ar, na composição (que levou um dedinho de Bruno Mars), de saudade e desespero. Do mais recente trabalho em estúdio, é também retirado “Listen to Your Heart”, com bailarinos em modo Vogue aentusiasmarem Alicia a dar um pézinho de dança em saltos altos e a baloiçar a anca. Sem pausas, “Like you never see me again” faz metade do público agarrar na mão da sua cara metade, enquanto outros se deixam hipnotizar pelas notas suaves da guitarra de Hanan Rubinstein e pelo timbre robusto e vigoroso da cantora.

O ambiente intimista fica adormecido quando “A Woman’s Worth” entra em cena, com a sua faceta funk e a nostalgia de "Songs in A Minor" (o álbum de estreia, lançado em 2001). “Diary”, a serenata com direito a toda a lamechice do mundo, faz com que Alicia e o “menino do coro”, Raphael Smith (Raii), se percam numa arrepiante batalha vocal. Ainda assim, falta a química em tempos partilhada com Jermaine Paul. A próxima paragem leva-nos até aos anos 90, onde se confessam emoções profundas e Keys canta “Un-thinkable (I’m Ready)”, em trémulo, sobre golpes no piano. Depois de um momento de (quase) tango, com direito a abdominais à mostra e um ramo de flores, ouve-se “Try sleeping with a broken heart”. Após um solo cavalgante, Alicia dirige-se à audiência: “Can you feel me tonight, Lisboa?”.

A explosão de aplausos, que se ouve, a dada altura,no oriente da cidade,é causada pelo primeiro verso do clássico de carreira, “Fallin”. A riqueza instrumental vai ganhando entusiasmo ao público lisboeta e, para preencher a lacuna de um jogo de luzes mais complexo, Whitney Keaton e Raii saem da lateral para o lugar de todas as atenções, num interlúdio em que “You’re all I need to get by” – que Marvin Gaye e Tammy Terrel cantavam nos anos 60 – dá um espetáculo por si só.

Na rebaptizada MEO Arena, é tempo para um amor sem fronteiras em “Unbreakable”, uma aposta mais animada que pôs a plateia em devaneios de alegria. Em “Doesn’t Mean Anything” o soul clássico, de palavras longas, ao gosto de Stevie Wonder, mostra que Alicia é tão forte quanto sensível.

Conselhos e lições de vida partilhados com humildade resumem “Brand New Me” e enternecida vem “If I ain’t got you”. Com a aproximação do epílogo, ilumina-se a casa com telemóveis e os isqueiros sobreviventes em “No One”. Numa andança suave até à batida que pôs a Arena de pé, surge a surpresa da noite: propositadamente ou não, o adorável Egypt Daoud Dean – filho de Alicia e do rapper Swizz Beatz – sobe ao palco e dá a mão à mãe, com quem canta e dança na maior, enquanto os corações derretem num “oooh” colectivo. Já o povo dizia, “quem sai aos seus, não degenera” e Egy, equipado para um jogo de basquetebol em miniatura, acenou à plateia, na despedida.

As vozes, mais fortes do que nunca, levaram Alicia de voltaao topo das escadas, para uma demonstração rítmica em “New Day”. “Girl On Fire”, com um sorriso contagiante nos lábios, era um dos temas mais aguardados da noite e, em sintonia, o público terminava cada verso.

Agora, de vestido de gala, “Empire State of Mind” é introduzida pela elegante “New York, New York”, de Frank Sinatra, numa dedicatória dois em um à cidade onde todos os sonhos são possíveis -“Thank you for giving me all the love of this city, that is so full of heart”. Depois de uma ida à praia da Caparica e de demonstrações de afecto, por fãs, nas ruas da capital, Alicia termina a sua performance – ou celebração – com gratidão.

Fiel às suas raízes musicais, à soul old school, ao detonar emocional do gospel e dos blues feitos pelos ancestrais músicos da era Motown, Alicia Keys é uma Diva da música contemporânea.

Sara Fidalgo

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