
Pouco passava da meia noite e, na plateia do Musicbox, aglomeravam-se já algumas pessoas, na expectativa de assistir aos concertos que se avizinhavam. As idades dividiam-se. Alguns dos presentes terão vivido os anos de ouro de bandas como The Slits e Siouxsie And The Banshes, outros apenas terão testemunhado o percurso de artistas mais recentes, como Peaches e Red Aunts. De qualquer forma, todos se dirigiram, na passada sexta-feira,à sala de espetáculos lisboetacom um único objetivo: assistirà apresentaçãodo primeiro álbum das Anarchicks, de seu nome “Really?”.
Três meses depois da sua última passagem pelo mesmo espaço, no âmbito do festival Jameson Urban Routes 2012, na altura ainda com o EP “Look What You Made Me Do” na bagagem, o coletivo feminino assumiu a liderança de uma noite que poderia servir perfeitamente de banda sonora aos protestos ocorridos momentos antes, escassos metros ao lado, no Largo de Camões.
Na telaaofundo do palcoreinavam imagens alusivas à banda. No palco reinou a energia do punk-rock, libertada principalmente por Katari – baterista que carrega consigo uma importante escola da cena hardcore da margem sul, ao serviço de bandas como Act Of Anger e Living Dead. Tal é evidente em temas como “Sunset Graveyard”, que abriu o concerto, e “And It Steels Good” - canção que, apesar de não fazer parte de “Really?”, transpira alguma influência do punk mais pesado.
Mas nem todas as músicas implicaramuma descarga de energia em palco. Algumas, como são o caso de “New Rave” e “Son Of A Beat”, exploraram sonoridades no campo do ska, transmitindo um groove mais dançável ao concerto. E foi mesmo ao som de “Dance” que foi chamada ao palco a primeira, e única, convidada da noite. Tal participação ficou a cargo de Da Chick, cantora que milita o coletivo Discotexas Band e que também se exprime musicalmente em nome próprio. E se “Dance” tinha como missão colocar o Musicbox a dançar, “Forever” e o single “Restraining Order” conseguiram-no também de forma exímia.
Infelizmente, nem tudoé ummar de rosas e a vocalista Priscilla Devesa pecou pela sua apagada presença em palco, ora perdendo-se atrás dos teclados, ora assumindo-se timidamente na frente do palco. É curioso o facto de todas as interações feitascom opúblico terem partido da iniciativa da baixista Helena (aka Synthetique), tornando-a assim no frontman, neste caso frontgirl, da noite e, quiçá, da banda.
Nota negativa para o desempenho da equipa técnica que, salvo raras exceções, conseguiu camuflar as vozes do coletivo (incluindo a da convidada) por detrás do som dos instrumentos, tornando alguns versos e algumas comunicações para com o público completamente inaudíveis.
No final, resta-nos ressalvar o excelente desempenho,em geral, da banda, que, depois de polir algumas arestas, conseguirá, então, aproximar-se da perfeição no exercício ao vivo. Sensualidade qb, o glamour necessário, a energia e a irreverência fazem parte da identidade deste quarteto que, apesar de vestir mini saia, dispensa qualquer tipo de sensibilidade efragilidade. Punk-rock é a palavra de ordem. E fazem-no bem.
Contrastando com o cenário feminino que se viveu em palco com as Anarchicks, minutos antes o duo masculino Twinchargers abriu a noite com uma prestação de se lhe tirar o chapéu. O grupo feirense mostrou aos presentes o que é possível fazer com apenas uma bateria, um baixo de quatro cordas, e uma voz, ainda quepouco virtuosa e facilmente esquecida por entre a dinâmica da parelha. Resultado: uma exibição frenética, que serviu de aperitivo, aquecendo a audiência, para o concerto das anfitriãs.
Manuel Rodrigues
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