
Os bailarinos que a seguem, incluindo a sua filha Giovana, não lhe ficaram atrás, contribuindo para que se gerasse um clima de autêntico Carnaval da Bahia em pleno Porto.
Enquanto cantava Maria Clara, Samba da Benção, Samba da minha terra, Sorriso Negro e O Mais Belo dos Belos, iam aparecendo como pano de fundo imagens da natureza, pinturas exóticas, crianças e corpos. A cada quadra, Daniela fazia questão de interagir com o público, contando histórias -e até uma anedota sobre portugueses-, pedindo que todos se juntassem a ela a cantar, a repetir partes da coreografia e a acompanhar o ritmo acelerado das suas músicas com o balançar do corpo e o bater de palmas. Pouco a pouco, os fãs foram-se sentindo mais à vontade, ficando impossível parar de sambar. Para além desta injeção de adrenalina, a cantora procurou também transmitir algumas mensagens ao longo das suas músicas, apelando, por exemplo, à igualdade interracial: “Ser preto é só nascer fora do padrão dos brancos, só isso. E ser branco é só nascer fora do padrão dos pretos”. Foi então que se seguiu Pérola Negra, um dos seus grandes êxitos.
Após fazer um tributo a Carmen Miranda, cantando “O que é que a baiana tem? Tem tudo como ninguém”, ao mesmo tempo que passavam imagens deste icon português no Brasil, a artista referiu-se a Portugal como sendo “um país alegre que canta o triste”, responsável por levar alegria ao seu país. Assim, falando do clima tropical da sua pátria, continuou cantando Sol do Sul.
Como estava previsto, Daniela partilhou o palco com alguns cantores portugueses, por quem parece ter um carinho especial. Foram eles Luís Represas, Camané, Teresa Salgueiro e Batida. Com Luís Represas a cumplicidade foi evidente, trocandoos doispiropos e inúmeros sorrisos enquanto dançavam, brincavam com os sons e recordavam como se tinham conhecido e por onde já se tinham cruzado. Os dois artistas deram voz a Minas com Bahia, Foi como foi e É hoje. De seguida, Luís Represas cedeu o lugar a Camané, que acompanhou Daniela em Nobre Vagabundo,sendoacompanhado por ela em Sei de um rio. A mistura do samba com o fado funcionou plenamente, contando com a voz de fundo do público e mostrando o que de mais comum há entre os dois -o amor. Os cantores fizeram ainda um improviso juntos, interpretando Chico Buarquea capela, num misto de sotaques -“É assim, seja lá como for/ Vai ter fim a infinita aflição/ E o mundo vai ver uma flor/ Brotar do impossível chão”.
Ao longo deste contacto com a música portuguesa, Daniela referiu, por várias vezes, o seu pai, António Abreu, que é português e que descreve como “sério e musical”, tendo sido uma grande influência no despertar da sua vontade em seguir a carreira artística, pois também ele gostava de ter investido na música. Para além disso, Daniela diz sentir-se muito portuguesa, também por influência do pai, que desde cedo lhe apresentou o nosso Fado. É então que a cantora refere alguns nomes brasileiros, em particular de mulheres, que a inspiraram e influenciaram, como Gal Costa e Elis Regina, e portugueses, como Dulce Pontes, Mariza e Teresa Salgueiro. Esta última foi então convidada a subir ao palco, partilhando Corcovado com a anfitriã. Daniela aproveitou a deixa para pedir ao público que cantasse Garota de Ipanema para Teresa que, depois, nos brindou com Lisboa. Após uma pequena brincadeira em que as cantoras procuraram continuar a música de Teresa, mas dirigindo-a à cidade do Porto, seguiram-se À primeira vista e Mas que nada. Neste momento, Daniela assumiu o papel de maestrina, percorrendo toda a plateia com indicações de movimentos e ritmos para que todos participassem daquela euforia musical.
Depois de conceder alguns momentos de destaque à sua banda e bailarinos, apresentando-os ao público, entoou “Branco, se você soubesse o valor que o preto tem, tu tomava banho de piche e ficava negrão também” e “Cumadi mandou madê mandou, Madi mandou fazer couchê”.
Para a parte final deste concerto de três horas, Daniela e seus bailarinos saíram do palco para trocar de roupa, trazendo o vermelho e interpretando Oyá Por Nós e Swing da Cor. Neste compasso de espera, os fãs não arredaram pé, adivinhando que a cantora e compositora baiana ainda os presentearia com muito mais energia. Daniela voltou a improvisar, pedindo aos artistas convidados que tornassem ao palco para formar uma “escola de samba portuguesa”, em que cada um ocupou o seu lugar para juntos darem voz a Dona Canô.
O concerto terminou com uma mensagem de esperança para Portugal, em que Daniela apelou à nossa capacidade de nos mantermos alegres e buscarmos novas conquistas, reproduzindo o nosso passado de maravilhosas descobertas, como foi o Brasil, “sonho de Portugal”. Daniela pediu aos seus compatriotas que estavam presentes para a acompanharem enquanto cantava, cheia de fervor, o hino brasileiro e, por último, O canto da Cidade.
Texto: Sara Ralha
Fotografias: Marta Ribeiro
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