Videoclip de "Shady Love":

Depois destas amostras, chegamos a "Magic Hour" e vemos que nem tudo está perdido: o disco não tem mais nada tão banal como "Only the Horses", mesmo que nem sempre acerte e que saia a perder na comparação com "Night Work". As direções apontadas são quase tantas como os convidados, que além dos já referidos incluem John Legend, Pharrell Williams ou Stuart Price. O curioso é que os Scissor Sistors até se saem melhor quando os dispensam, caso do divertido episódio hedonista "Let's Have a Kiki", com uma arquitetura rítmica elaborada e convidativa, ou da revisitação house anos 90 de "Self Control", que os Hercules and Love Affair não desdenhariam (na qual Ridha tem, ainda assim, uma pequena participação na produção).

Na maioria dos outros momentos, a banda mostra-se bem menos exuberante, propondo um alinhamento estranhamente recatado. E se até nem se sai mal nesse registo, fica por esclarecer o que é que os produtores ofereceram a canções como "Baby Come Home" ou "Inevitable", onde os Scissor Sisters olham para os seus primeiros álbuns (e, por extensão, para os dos Bee Gees ou Elton John). Já "Keep Your Shoes On", um raro acesso dançável, ou "San Luis Obispo", variação acústica de sabor latino, entretêm sem deslumbrar.

Entre o familiar e tentativas de viragem, a maior surpresa de "Magic Hour" acaba por ser a vertente baladeira, expressa no tom 80s e no relato de incertezas de "Year of Living Dangerously", na doçura (não enjoativa) de "Best in Me" ou na melancolia elegante de "The Secret Life of Letters" (Jake Shears não é Rufus Wainwright, mas aqui quase nos engana). Mais medidativos do que festivos, estes momentos também provam que vale a pena prestarmos atenção às letras, qualidade que a imagem do grupo por vezes ofusca.

Sem nunca atingir a magia que o seu título sugere, o quarto disco dos Scissor Sisters também está longe de fazer com que alguém lhe rogue pragas. E revela até algumas recompensas para audições repetidas, sobretudo nos temas menos imediatos, mesmo que a dispersão o aproxime mais de um conjunto de canções soltas do que de um álbum pensado enquanto tal. Para a próxima, talvez seja melhor despachar os convidados e aproveitar para arrumar a casa.

@Gonçalo Sá

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