Quem acha que só os políticos prometem mais do que cumprem ainda não ouviu o novo disco de Beyoncé Knowles. Nas entrevistas acerca do seu quarto álbum, a ex-integrante das Destiny's Child avançou que"4" seria o seu registo mais abrangente, ritmado e rude, captando alguma da intensidade presente nos seus concertos mas até aqui pouco dominante nos álbuns.
A nota de intenções aumentou a expectativa quando a cantora de "Single Ladies (Put A Ring On It)" enumerou Fela Kuti, Prince, Florence & the Machine ou até Depeche Mode entre as influênciasdo disco, nomes que dificilmente associaríamos à sua música.
A espera tornou-se ainda mais aliciante à medida que a vasta equipa de composição e produção foi sendo anunciada, incluindo gente como The-Dream, Chad Hugo (dos Neptunes), Kanye West, Q-Tip, Derek Miller (dos Sleigh Bells) ou Diplo e Switch (colaboradores habituais de M.I.A.).

O primeiro single, "Run the World (Girls)", com um frenesim percussivo com tanto de repetitivo como de dançável, foi um aperitivo eficaz e trouxe, de facto, alguma lufada de ar fresco à música de Beyoncé - mesmo que a base instrumental sample em demasia "Pon De Floor", dos Major Lazer, e que por isso a canção soe mais a uma remistura do que a um original.

Infelizmente, e como tantos outros singles, este avanço revelou-se enganador, uma vez que "4" está muito longe de se aproximar desse ambiente festivo. Das 72 canções que a cantora gravou, o disco reúne 12 e faz supor que, tal como ocorreu com "Bionic", de Christina Aguilera, o material mais excitante ficou fora da selecção final.

Se "Run the World (Girls)" continha algum rasgo, balanço e energia, elementos condizentes com a defesa do girl power presente na letra, o álbum opta antes por um alinhamento quase sempre em regime midtempo e com uma Beyoncé menos confiante - em vez de manter a postura austera, a cantora chora as mágoas de um amor que pretende recuperar a todo o custo.

"4" até arranca bastante bem, com "1+1" e sobretudo "I Care", baladas enxutas que sabem como aproveitar a evidente força da voz e apostam num conseguido cruzamento de soul e rock - com riffs a lembrar alguns ambientes da década de 80. O problema é que este equilíbrio de intensidade e entrega não dura muito e a terceira faxia, "I Miss You", com produção mais minimal e etérea, arrisca-se a passar despercebida, mesmo não sendo desagradável.

Pior é "Best Thing I Never Had", uma das canções mais formatadas do disco e inevitável sucessora natural de "If I Were a Boy" ou "Halo" em inúmeras playlists radiofónicas - começa com um piano puxa-lágrima e ampara-se depois em letras particularmente imberbes, dois dos piores malefícios das baladas de Babyface, um dos nomes que assina a produção.

Também não muito exigente, "Rather Die Young" é pouco mais do que um refrão em loop e "I Was Here", talvez o maior momento de reflexão e introspecção, tem pelo menos o mérito de ser dos temas mais toleráveis de Diane Warren (compositora de "I Don't Want to Miss a Thing", dos Aerosmith, ou "Because You Loved Me", de Celine Dion, entre outras pérolas).

De tom menos sofrido, "Party" entretém mas está longe da festa de arromba que se esperaria de uma canção que junta Beyoncé, André 3000 (dos Outkast) e Kanye West. Mais certeiras para celebrações, "Countdown" e "End of Time" são dos escassos momentos em que o ritmo e cor de "Run the World (Girls)" têm paralelo, ainda que o sabor mais clássico de "Love on Top", casamento de R&B e funk luxuriante, também não seja de desprezar.

Mesmo com estes momentos interessantes, "4" acaba por saber a pouco, embora saiba melhor do que o antecessor "I Am... Sasha Fierce" (2008), díptico cujos resultados ficaram ainda mais aquém da ambição. É certo que, ao contrário da sua amiga Lady Gaga em relação ao também desapontante "Born This Way", Beyoncé não prometia aqui o melhor álbum da década... mas "4" sairia provavelmente a ganhar com mais doses de irreverência, loucura até, da voz de "Crazy in Love". Assim, talvez nem sequer seja o seu melhor álbum.

@Gonçalo Sá

Beyoncé - "Run The World (Girls)":

Beyoncé - "1+1":

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