Para quem ontem esteve sob o efeito deste ‘pássaro negro’ que passou por Lisboa, não, não se enganou: não foi do Lux que saiu quando o concerto acabou, foi do Coliseu dos Recreios (tomara o Lux, por vezes, ter noites como esta!), e não, hoje não é domingo, é terça-feira! Pois… Acredito que estejam confusos, não sendo esta, de todo, a típica segunda-feira à noite com que se começa uma semana. Mas não faz mal, pois de ‘ressacas’ boas como esta ninguém se quer curar!

Muito longe do calor da Nova Zelândia, os Fat Freddy’s Drop regressaram a Portugal para apresentarem o seu mais recente trabalho, “Blackbird”, encerrando, assim, a sua tournée europeia e levando na bagagem, aposto, uma boa recordação de despedida para casa.
Embora cinzentos os dias que ultimamente assombram o nosso país, a noite no Coliseu dos Recreios começou a aquecer cedo com o warm up que o MC Slave (também membro da banda) nos preparou. Ritmos de reggae, raga e dancehall encheram a sala, atiçando os primeiros movimentos do nosso corpo, deixando-nos cada vez mais inquietos e sedentos do que ainda estaria por vir. Já passa uma hora do combinado e clama-se por Fat Freedy’s Drop na casa. Satisfeito o nosso desejo, os sete magníficos sobem ao palco, fazendo soar os seus característicos trompetes, tubas e trombones, anunciando, assim, o início do concerto que, tal como o seu último álbum, começa com “Blackbird”. E, de facto, é arrepiante a sonoridade desta banda, que primeiro nos envolve com o seu exotismo, para depois nos deixar presos aos seus dubs, loops e restantes artimanhas electrónicas. Mas já aí vamos, pois, por enquanto, continuam calmas as águas deste oceano Pacífico.

Seguimos a sequência do álbum e o segundo tema, “Russia”, é suavemente introduzido, como, aliás, são feitas todas as transições entre as músicas. Passagens tão limpas que dão gosto ouvir. Tal como o “Tudo bem?” perfeito que Joe Dukie (o vocalista) nos lançou antes de passar para o próximo tema – “Clean The House”. Nessa altura, já o MC Slave nos tinha posto (literalmente) aos saltos com o seu hip hop-reggae, pelo que foi bom ouvir um som mais cool e descontraído para acalmar. Afinal de contas, ainda vamos na terceira música! Todavia, a partir daqui parece já não haver volta atrás a não ser à do primeiro álbum do grupo – “Based on a True History”, do qual faz parte o tema “Cay’s Crays”. Ele, que nos desvenda a ponta do véu com o primeiro dub da noite, porém, ainda subtil.

Entretanto, nos interlúdios, Joe Dukie começa a brincar com a sua mesa de mistura e o divertido trombonista, Hopepa, que até agora tinha tentado manter a ‘compostura’, liberta-se por completo de qualquer pudor (e de roupa também!) e dá-nos um show de dança que perdurou por todo o espectáculo.

Continuamos no primeiro álbum e “Roady” é a próxima da lista. Sons do Havai e da Nova Zelândia invadem a sala, terminando numa battle de rap entre Joe Dukie e MC Slave em que ambos saem vencedores. Na casa grita-se “Fire, Fire!”. O coliseu está ao rubro.

Voltamos ao último disco com o tema “Soldier”, mas antes, um solo magnífico de guitarra que nos lembra: “Ei, não é só de sopro e percussão que é feita esta música!”… Tão bom que, quem entrasse naquele momento na sala, não saberia se estava num concerto de Fat Freddy’s Drop ou de heavy metal! Uma vez terminado, “Soldier” começa então a emitir a sua frequência no radar e entramos, assim, no maior dub da noite. Um transe eletrónico que se arrasta até chegar “Mother Mother”, que é recebida com ‘palmas palmas’. E este é o momento em que o coliseu se transforma, por inteiro, numa discoteca! Do psicadelismo das luzes passamos para o chill out e só nos falta um copo de gin na mão para a noite ser perfeita. Colado a este tema vem “Never Moving”, entramos num loop vertiginoso, do qual saímos para um jam bem funky de trompete e saxofone. Brooklyn? Não não, continuamos em Lisboa.

Estamos felizes e mais felizes ficamos quando ouvimos os primeiros acordes de “Silver and Gold”. Contudo, avizinha-se o final e com este a promessa de possivelmente regressarem no próximo verão ao nosso país. Passamos para um dos temas do seu segundo álbum (“Dr Boondigga and the Big BW”) – “Shiverman”. Continuamos ao rubro.

Antes de se ouvir o primeiro encore, tira-se a foto da praxe e apresenta-se a banda e o staff de bastidores ao público. É justo. Ouvimos então “The Raft” e pensamos: “Boa, era mesmo este groove calminho que eu precisava para serenar". Pois, pois era… Não fosse “Ernie” o segundo encore, a música que catapultou esta banda para o sucesso e que ainda hoje impõe respeito.

Cinzentos? Sim, têm sido cinzentos os dias em Portugal, mas ontem naquela sala o calor era tanto que creio que a maioria não se teria importado com umas gotinhas de chuva para esfriar.

Alinhamento:

01. Blackbird
02. Russia
03. Clean The House
04. Cay’s Crays
05. Roady
06. Soldier
07. Mother Mother
08. Never Moving
09. Silver and Gold
10. Shiverman

Encore:
11. The Raft
12. Ernie

Lucélia Fernandes
Groove your Soul

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