Numa noite em que as expetativas estavam bem altas e o entusiasmo por receber os post-rockers irlandeses era notório, coube à dupla lisboeta Quelle Dead Gazelle a honra de abrir o palco. Com a casa já muito bem composta, Miguel e Pedro deram um ótimo concerto, e confirmaram o porquê de serem um dos mais entusiasmantes e promissores projetos nacionais. Ora com um pé no afro-beat, ora com os dois num rock denso e pesado, mas sem nunca perderem os ritmos quentes de um tropicalismo distante, os Quelle Dead Gazelle provaram que uma guitarra e uma bateria são mais do que suficientes para chamar a atenção do público, que esteve sempre atento e interessado.

Passavam alguns minutos das 22h00 quando os God Is An Astronaut entraram em palco, ao som da aura misteriosa de Weightless , e, sem tempo para pausas, serviram logo de seguida Transmission e All is Violent, All is bright, tema homónimo do álbum que lançou a banda, obrigatório nos seus concertos, que provocou a primeira grande explosão de alegria da noite. Foi, aliás, notória a maior intrusão dos fãs com as músicas mais antigas, perante um alinhamento baseado no novo álbum e nos temas fortes do passado. Depois de Reverse World, o novo single da banda de Torsten Kinsella, puxar por muitas palmas, chegou Echoes, com as guitarras a ganharem força e o headbang a dar ar da sua graça, de uma ponta à outra da sala.

Depois deste forte início, houve ainda lugar para o lado mais experimental e eletrónico do novo álbum, com Spiral Code e Signal Rays a serem intercaladas pela melancolia fúnebre do turbilhão de emoções que é Fragile, pelo peso de Calistoga, ou pelo ambiente delicado e cinemático de Forever Lost. Passando ainda por The Last March e por From Dust to the Beyond, a primeira parte do concerto terminou com Exit Dream e Fireflies and Empty Skies, esta última a deixar o Tmn Ao Vivo num caos controlado, com muitos braços no ar e muita gente a pular, rendida à energia contagiante que a banda também emanava de palco.

Logo de seguida, a banda despediu-se debaixo de uma grande ovação, terminando da melhor forma uma primeira parte, que surpreendeu pela energia e pela dinâmica.

A reta final do concerto foi verdadeiramente avassaladora, após o coletivo agradecer todo o apoio que os portugueses lhe têm dado e lembrar os concertos que fizeram com os Linda Martini, há seis anos atrás. Atiraram-se, então, às guitarras fortes e dissonantes de Red Moon Lagoon, e ao crescendo rítmico de Suicide by Star,uma das grandes malhas da banda, que foi a antecipação perfeita para a já habitual Route 666, que encerrou o concerto da melhor forma, com euforia generalizada e com toda a gente a entregar-se de corpo e alma à sua energia contagiante.

Ficou ontem claro aquilo para que os irlandeses vinham: para despoletar o máximo de emoções e sentimentos, e embarcar numa viagem em que, num momento, fechamos os olhos e damos por nós em lugares comuns, onde a tranquilidade choca de frente com a ânsia e a acalmia, e a melancolia e solidão desembarcam na fúria e inquietação. Se, em disco, isto fica, por vezes, escondido atrás de todos os efeitos e artifícios do estúdio, ao vivo, as músicas ganham uma nova dimensão e dinamismo, conferindo aos irlandeses uma identidade única, que eles têm sabido bem explorar.

Sem dúvida, um grande concerto dos God is An Astronaut, que mostraram um profissionalismo atroz e toda a confiança e atitude que respiram por estes dias.

Texto: David Silva

Fotografia: Nuno Bernardo

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